sábado, 15 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
José Maurício dos Santos
Nascido em Juazeiro do Norte,no vale do Cariri,Sul do estado do Ceara, em 20 de setembro de 1951, filho de Damião Sisnando dos Santos e Maria Gregório dos Santos. José Maurício dos Santos é brincante de reisado mas é na arte de trabalhar com flandres que vem se destacando nos últimos anos. Suas peças já integraram exposições coletivas e individuais colocando-o em posição de importância no campo da arte popular.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
ZabelêO velho cangaceiro ainda se lembra: Naquele tempo, só Deus não se ajeitava.
*Texto de Claudio Bojunga para o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO” – 31/07/73
Um velho entrevado, torto, de 73 anos, tossindo, mal vestido, deve estar muito doente. Só os olhos são ágeis como os olhos de um menino: correm em torno da mesa, encara rapidamente as pessoas para depois se fixar na janela à esquerda, na porta aberta à direita; os olhos de Zabelê, mais de 40 anos depois, conservam a vigilância dos tempos do cangaço. E como se, a qualquer momento, um macaco fosse pular à sua frente ou às suas costas para enchê-lo de bala.
Zabelê, ou Isaias Vieira, um homem totalmente apavorado. É um exemplo dos cangaceiros que, depois da luta, ficaram por aqui mesmo, no Nordeste. Há muitos em todo o sertão, de Alagoas ao Ceará, todos escondidos sob nomes falsos. E eles sabem que não temem fantasmas. A vingança, no sertão, é elaborada com paciência chinesa. É possível, perfeitamente possível que, a qualquer momento, amanhã talvez, um outro velho entrevado descarregue seu revólver sobre o velho Zabelê. Afinal, Zabelê nem sabe quantos matou em um ano de cangaço. Era coiteiro de Lampião desde 1923, na região do Pajeú, até que o coito se tornou evidente demais, e perigoso. Olhando de um lado para outro enquanto fala, o velho conta:
- Lampião: tá descoberto que eu compro coisinha procê. Tô enroscado. Se não sentá praça vou acabar entre as pernas do tenente.
Lampião pensou um pouco. Não era qualquer coiteiro que podia “sentar praça” no cangaço. Zabelê insistiu:
- Tô desmantelado. Sou pai de família, tó desmantelado.
-Desmantelado você já nasceu.
E dito isso, Lampião aceitava um novo “soldado”. Porque era preciso estar mesmo muito “desmantelado” na vida para topar a parada. Zabelê tinha mulher, quatro filhos e muito azar.
Começou a brigar em 1926 e um ano depois estava preso. Participou de um combate importante, o de Serra Grande, naquele mesmo sertão. Como todo ex-cangaceiro, diz que, naquela batalha, morreram uns 30 macacos. Cangaceiro, nenhum. O mesmo truque usado pelos policiais da época. Vários dizem que em Serra Grande morreram um ou dois soldados. O coronel Higino José Belarmino, famoso entre outras coisas por não mentir, nem que a verdade possa “prejudicar” a imagem da Volante, diz que morreram dez soldados em Serra Grande. Cangaceiros, ele não sabe, ninguém sabe.
Isaias Vieira, o primeiro “Zabelê” cumpriu longa pena na penitenciária do Recife. Esta foto é de 29 de dezembro de 1928, quando ainda se encontrava preso.
Foto do Acervo Lampião Aceso, não compõe a matéria original.
Os cangaceiros sempre carregavam os seus mortos e feridos e os eternizavam, batizando um cabra novo com o nome do preso ou do morto: assim, este que apavorado conversa com a gente, é o primeiro Zabelê de uma série. Um toque de misticismo, nem tanto para confundir a polícia, mas o povo. O cangaceiro não morre. Zabelê está preso? Como, olha ele aqui.
Apesar do pavor, Zabelê I ainda ousa revelar, com seu raciocínio lógico de sertanejo, que tudo não se resume a troca de tiros entre grupos ou requintes de crueldade. Até Zabelê, personagem de mínima importância dentro daquela fase da História do Brasil, sabe o que significa corrupção.
-Todo mundo ajeitava. O senhor pode ser naquela época o presidente da nação, ajeitava também. Naquela época só quem não ajeitava era Deus que não aparecia.
Ele quer dizer que grande parte das armas do cangaço foi vendida pela própria polícia que importantes políticos da época, hoje venerandos e com estátua (algumas equestres) no meio das praças, estiveram envolvidos gravemente, pairando sua honra sobre os tiroteios que eles próprios manipulavam.
Zabelê: apavorado, velho, doente, pobre e atualizadíssimo.
Antônio Corrêa Sobrinho / Lampiao aceso
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Se vivo fosse, hoje,Jose Domingos de Moraes,completaria 73 anos.Nasceu em Garanhuns,no agreste setentrional do estado de Pernambuco
Como que arquitetado pelo destino, foi exatamente no dia 13 de dezembro de 2012, data do centenário do Luiz Gonzaga, que Dominguinhos fazia a sua última apresentação, justamente no Exu, cidade onde nasceu o Rei do Baião.
Carlos Machado
"Já ouvi falar muito da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém,Pernambuco, e sei da grandiosidade do espetáculo. Por isso é um motivo de orgulho termos sido convidados para participar nesta temporada. Já tive oportunidade de participar de encenações bíblicas em outras ocasiões fazendo os papéis de Jesus e Pilatos, e, para mim, é sempre uma grande emoção. E agora, atuando no maior espetáculo de Paixão de Cristo do País, não será diferente. Será realmente uma grande honra".
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
CAPOEIRA
Tudo leva a crer que a capoeira, um misto de dança e luta, tenha sido criada e desenvolvida no Brasil pelos escravos e seus descendentes, como meio de defesa, com base em tradições africanas, pois as referências populares e de estudiosos sempre mencionam as capoeiras de Angola e Regional.
O expoente máximo da primeira foi Mestre Pastinha; e da segunda Mestre Bimba que, além de nela introduzir variações sutis, criou os golpes “ligados” e “cinturados”, que não existem na capoeira de Angola, forma original da luta/dança. Segundo Mestre Pastinha, “capoeira é ginga, é malícia”. Ambos têm milhares de seguidores, em todo o mundo. Em seu desenvolvimento, a capoeira tomou uma forma de revide, em resposta às ameaças e agressões físicas sofridas pelos escravos. Como arma de combate, ela utiliza os braços, as pernas, as mãos, os pés, a cabeça, os cotovelos, os joelhos e os ombros. Dos grupos de capoeira participam lutadores, com golpes de ataque e defesa, e instrumentistas. Os instrumentos utilizados na capoeira são: berimbau de barriga, caxixi, atabaque, pandeiro e reco-reco. O berimbau é o mais importante deles, pela sua originalidade e por dirigir o ritmo da luta. Existem vários toques, cada um com sua finalidade.
Destreza, malícia, a dança guerreira.Luta de escravos em busca da liberdade; luta, dissimulada na elegância de gestos quase sagrados, na descontração alegre e galhofeira do espetáculo.
"Todos os movimentos possíveis do corpo humano são admissíveis no jogo da capoeira, desde que realizados a partir do gingado, em concordância com o toque do berimbau, enquadrados no ritual e não acarretem riscos de lesões ou prejuízo moral ao parceiro, aos demais participantes e/ou aos assistentes."
O berimbau é considerado um instrumento sagrado, e é ele que comanda e dirige a roda: os outros instrumentos não podem encobrir-lhe o som; é ele que determina o ritmo ou andamento do jogo – mais lento ou mais rápido; também é ele que determina o tipo de jogo que se deve jogar (jogo de dentro, de fora, de floreio, de combate, de demonstração de habilidades, de desarme etc.). Geralmente, é o mestre quem segura e toca o berimbau, que ocupa a posição central na bateria. Esta, além do berimbau, compõe-se de pandeiro, atabaque e agogô.O JOGO:
O coro e os capoeiristas postam-se em volta da roda; dois capoeiristas agacham-se à frente dos tocadores, ao pé do berimbau, e escutam com atenção a ladainha (veja exemplos em Músicas), que geralmente é a louvação dos feitos e qualidades de capoeiristas lendários, mas pode ainda conter um elogio ou provocação irônica ao parceiro, uma louvação aos presentes, um agradecimento à hospitalidade dos donos da casa ou o relato e comentário de algum acontecido. As ladainhas geralmente contêm lições de vida e transmitem a filosofia da capoeira, servindo de inspiração para o jogo. Antes de iniciar o jogo os praticantes apertam as mãos, demonstrando amizade e respeito, reafirmando que o que ali ocorrerá será apenas um jogo e não uma luta real. Em geral, entram na roda com um "AÚ" (movimento semelhante à "estrela" da ginástica olímpica) e começam o jogo. O jogo de capoeira desenvolve-se a partir da ginga (ou gingado), que consiste em movimentação contínua do corpo de um lado para o outro, visando a confundir o adversário e evitar que este possa aplicar um golpe com eficiência. Ao mesmo tempo, gingando, procura-se um melhor posicionamento para a aplicação dos próprios golpes. Através destes movimentos, sempre ritmados pelo som do berimbau, o capoeirista envolve seu parceiro, procurando nunca confrontar diretamente seus ataques, mas esquivar-se deles e aplicar seus contra-ataques, se possível em movimentos sincronizados com os movimentos do companheiro. Os golpes são executados sem desviar-se de seu objetivo, ou seja, com a intenção de atingir o adversário, mas sempre controlando o tempo dos movimentos, possibilitando tempo para uma resposta adequada, o que garante a continuidade do jogo. Como costuma dizer Mestre Decânio, "quando há algum choque traumático durante o jogo, é erro dos dois jogadores: um, porque não soube parar o pé na hora exata, e o outro, porque não soube esquivar-se a tempo". Dá-se ênfase aos movimentos desequilibrantes, como rasteiras, tesouras e cabeçadas, entre outros, movimentos que podem ser aplicados em alunos com algum grau de aprendizado, quando já aprenderam a cair, sem acarretar qualquer lesão. Quando um capoeirista cai em decorrência de um destes movimentos é incentivado a se levantar e continuar o seu jogo. Dois capoeiristas se benzam e entrem na roda, iniciando o jogo propriamente dito, que é difícil e requer muita atenção, pois pode ser perigoso. O capoeirista tem de ser o mais leve possível, ter grande flexibilidade no corpo e gingar o tempo todo durante o jogo. A ginga é elemento fundamental. Dela é que saem os golpes de defesa e de ataque, não só golpes conhecidos e comuns a todos os capoeiristas, como também os pessoais e os improvisados na hora. |
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Poeta Lourival Batista( O Louro do Pajeu)
Uma noite São José (Para o Mestre Louro do Pajeú)
José Mario Austregésilo Não há como dormir na noite em que a natureza peleja. nos repentes dos cantadores fatigados em busca do verso, da rima, da métrica. Cambaleantes, agarram-se à poesia como náufragos que não morrem antes que a vida se negue a ser poema antes que a viola rompa a última corda nas batidas, dos acordes, do coração, dos motes e das glosas. Nem mesmo o soneto, nos versos do meu avô, me salvou do desafio de Lourival Batista, o Mestre Louro do Pajeú, naquela noite em São José, quando eu, de pé, na porta do cantador ouvi canções de amor, de delírio e de procura. E se não fossem os versos do meu avô como tirar de minha pobreza a poesia, pomba de luz, cálix, para elevar ao Mestre Louro ? que me benzia com seus versos me benzia e exorcizava derramando sobre a minha cabeça uma cuia de estrelas feito mago que cuspia luzes e enchia meu embornal de anéis, punhais de prata e atiçava fogo nos meus olhos encandeando minha alma consolando meu coração fechando meu corpo e me batizava em nome do poeta do aprendiz e do filho do acaso para que eu, que era pobre, guardasse nos bolsos o facho dos mestres e o pó do brilho dos seus olhos... Mestre Louro, naquela noite em São José, Fez-me desafio que lembrou sonetos do meu avô E me deu a magia que vem do canto do cantador E o desafio nada mais era que uma canção de amor (São José do Egito, 29 de abril de 1993, tendo Zeto como testemunha)
Bia Marinho
domingo, 9 de fevereiro de 2014
9 DE FEVEREIRO DIA DO FREVO
Ferver... frevar... há mais de um século o pernambucano conjuga esses dois verbos com a mesma emoção. Seja dançando, cantando, se esbaldando em quatro dias de folia ou no resto do ano. Não há quem fique parado ao ouvir os primeiros acordes de "Vassourinhas", não há quem nunca tenha cantado o refrão de "Madeira que cupim não rói", não há olhar que não se encha de lágrimas ao som de "Evocação nº 1". Não há pernambucano que não tenha um pouco de passista durante o Carnaval. O frevo, que comemora 107 anos no próximo domingo (9 de fevereiro), representa tudo isso e continua fervendo nos corações e nos pés de todo bom folião. Comemore junto conosco nos próximos dias, esse nosso patrimônio cultural, nascido e criado aqui em Pernambuco, mas que é de toda a Humanidade!
O Museu da Cidade do Recife (MCR), no Forte das Cinco Pontas,situado ao lado do viaduto das cinco pontas,bairro de Sao Jose, no Recife, vai abrir as portas neste sábado (8) para a exposição DOS CARNAVAIS SAUDOSOS.
A exposição ficará em cartaz até o dia 28 de fevereiro, de terça a sábado, das 9h às 17h. A entrada é gratuita.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Jornal da Tarde (O estado e São Paulo) 31 de Julho de 1973
A História que nos perdoe. Mas por que não se conta de uma vez a verdade sobre o Cangaço?
Por: Claudio Bojunga
Dizer que Padim Ciço, um santo, fez Virgolino Ferreira um bandido é um sacrilégio. Mas o santo fez o bandido virar capitão, sim, embora historiadores do cangaço omitam esse episódio em seus livros. Há outras omissões. Embora os personagens da História ainda estejam dispostos a depor para a História. Por enquanto, porque estão todos muito velhos.
O coronel aposentado Higino José Belarmino, o homem que mais combates travou com Lampião e seu bando, durante a primeira fase do cangaço, até 1928, desistiu de ler qualquer livro, jornal ou revista que trate desse assunto. Tem dois motivos para isso. O primeiro é pessoal: até hoje, segundo ele, ninguém descreveu corretamente a morte dos dois irmãos de Virgulino Ferreira, Antônio e Livino, considerados por todos como mais violentos, ferozes e ousados do que o irmão. Prova é que morreram logo, em combates com o então tenente Higino.
O segundo motivo – e o que mais irrita o coronel – é a sua obsessão pela minúcia. “Já perdi a conta dos doutores (escritores, jornalistas, sociólogos) que vieram aqui falar comigo. E esta é a segunda vez que trazem a maquininha (gravador)”. A maioria dos entrevistadores do coronel conversava horas – até dias – com ele, anotando um dado ou outro, geralmente datas. “Um negócio feito assim só pode sair torto”, diz ele. O coronel está alertando, com muita seriedade, todos os estudiosos do assunto.
A maioria dos livros históricos – que fique claro: a maioria – ou ensaios sobre cangaceirismo parte de premissas discutíveis (alguns até partem de preconceitos) ou escolhem, a esmo, um determinado ângulo do fenômeno. Então temos livros que, sem maiores explicações, rotulam Lampião de “revolucionário”, vestem-no de Robin Hood, tratam as volantes como “forças opressivas” e, no fundo, descrevem o velho lugar comum que leva o leitor a identificar o bandido como mocinho e vice-versa. Se a intenção é politica, esses escritores perdem, nos seus preconceitos, ótimos detalhes que até ajudariam a defesa de suas teses; que, por exemplo, os métodos usados pela polícia na luta, em nada, mas em nada mesmo, se diferenciam dos métodos dos cangaceiros.
Quando o coronel Higino diz que “eu era um boi”, fica claro sua identificação com os inimigos. A volante, enfim, seria um grupo de cangaceiros funcionários públicos. Igualmente ferozes e ingênuos. Outros pontos: não é possível pesquisar o cangaço sem o conhecimento profundo da República Velha, das condições socioeconômicas do Nordeste, na época, da psicologia do seu povo, das complicadíssimas árvores genealógicas, os clãs, os feudos, as pequeninas máfias. Como falar de cangaço sem o entendimento das relações estado-igreja-povo? A função dos beatos, o messianismo, o compadrismo político, tudo isso contribuindo direta e indiretamente para a formação dos bandos sanguinários, na verdade manuseados por uma série de elementos que vão desde o cínico senhor feudal às relações econômicas do Nordeste com o Centro-Sul. Há um exemplo edificante, de um homem que pesquisa o assunto há mais de vinte anos e ainda não escreveu o seu livro: o paulista Antônio Amaury C. Araújo.
À medida que ele avança no conhecimento do cangaceirismo, mais dados lhe são exigidos. Talvez uma pesquisa dessas, que além de muita cultura e paciência, obriga a gastos inestimáveis de dinheiro, nunca venha a ser feita no Brasil. A solução poderia estar num trabalho de equipe, financiado por uma riquíssima instituição cultural. E alguém teria realmente interesse de esmiuçar tão obsessivamente um período regional da História do Brasil? É fácil concluir que um trabalho assim é impossível, mas não se pode perdoar a desonestidade (ou o despreparo, vá lá) de alguns autores. Como é possível perdoar um “historiador” que, pelo simples fato de venerar o Padre Cícero do Juazeiro, omita da sua “história do cangaço” o episódio da “promoção” de Virgulino Ferreira a “capitão”?
Alguns personagens desta página – todos da primeira fase do cangaço, a mais desconhecida, que vai de 1924 a 1928, quando Virgulino atravessou o rio são Francisco e foi brigar na Bahia – estão dispostos a testemunhar, depor. Ainda podem chegar à minúcia. Mas os historiadores bem intencionados devem se apressar: a média de idade dessa primeira fase está por volta dos oitenta anos.
A arteriosclerose começa a apagar a memória de muitos. A morte natural está bem próxima. E logo agora que se descobre que cangaceirismo está longe de ser um assunto esgotado pela História, como dão a entender os representantes do sensacionalismo escrito, falado, filmado e televisionado.
Créditos para Antônio Correa Sobrinho/Kiko Monteiro(Lampiao Aceso)
Por: Claudio Bojunga
Dizer que Padim Ciço, um santo, fez Virgolino Ferreira um bandido é um sacrilégio. Mas o santo fez o bandido virar capitão, sim, embora historiadores do cangaço omitam esse episódio em seus livros. Há outras omissões. Embora os personagens da História ainda estejam dispostos a depor para a História. Por enquanto, porque estão todos muito velhos.
O coronel aposentado Higino José Belarmino, o homem que mais combates travou com Lampião e seu bando, durante a primeira fase do cangaço, até 1928, desistiu de ler qualquer livro, jornal ou revista que trate desse assunto. Tem dois motivos para isso. O primeiro é pessoal: até hoje, segundo ele, ninguém descreveu corretamente a morte dos dois irmãos de Virgulino Ferreira, Antônio e Livino, considerados por todos como mais violentos, ferozes e ousados do que o irmão. Prova é que morreram logo, em combates com o então tenente Higino.
cel. Higino José Belarmino
Foto: Josenildo Tenório
O segundo motivo – e o que mais irrita o coronel – é a sua obsessão pela minúcia. “Já perdi a conta dos doutores (escritores, jornalistas, sociólogos) que vieram aqui falar comigo. E esta é a segunda vez que trazem a maquininha (gravador)”. A maioria dos entrevistadores do coronel conversava horas – até dias – com ele, anotando um dado ou outro, geralmente datas. “Um negócio feito assim só pode sair torto”, diz ele. O coronel está alertando, com muita seriedade, todos os estudiosos do assunto.
A maioria dos livros históricos – que fique claro: a maioria – ou ensaios sobre cangaceirismo parte de premissas discutíveis (alguns até partem de preconceitos) ou escolhem, a esmo, um determinado ângulo do fenômeno. Então temos livros que, sem maiores explicações, rotulam Lampião de “revolucionário”, vestem-no de Robin Hood, tratam as volantes como “forças opressivas” e, no fundo, descrevem o velho lugar comum que leva o leitor a identificar o bandido como mocinho e vice-versa. Se a intenção é politica, esses escritores perdem, nos seus preconceitos, ótimos detalhes que até ajudariam a defesa de suas teses; que, por exemplo, os métodos usados pela polícia na luta, em nada, mas em nada mesmo, se diferenciam dos métodos dos cangaceiros.
Quando o coronel Higino diz que “eu era um boi”, fica claro sua identificação com os inimigos. A volante, enfim, seria um grupo de cangaceiros funcionários públicos. Igualmente ferozes e ingênuos. Outros pontos: não é possível pesquisar o cangaço sem o conhecimento profundo da República Velha, das condições socioeconômicas do Nordeste, na época, da psicologia do seu povo, das complicadíssimas árvores genealógicas, os clãs, os feudos, as pequeninas máfias. Como falar de cangaço sem o entendimento das relações estado-igreja-povo? A função dos beatos, o messianismo, o compadrismo político, tudo isso contribuindo direta e indiretamente para a formação dos bandos sanguinários, na verdade manuseados por uma série de elementos que vão desde o cínico senhor feudal às relações econômicas do Nordeste com o Centro-Sul. Há um exemplo edificante, de um homem que pesquisa o assunto há mais de vinte anos e ainda não escreveu o seu livro: o paulista Antônio Amaury C. Araújo.
O jovem Amaury
(Cortesia do mestre para ilustrar o artigo)
À medida que ele avança no conhecimento do cangaceirismo, mais dados lhe são exigidos. Talvez uma pesquisa dessas, que além de muita cultura e paciência, obriga a gastos inestimáveis de dinheiro, nunca venha a ser feita no Brasil. A solução poderia estar num trabalho de equipe, financiado por uma riquíssima instituição cultural. E alguém teria realmente interesse de esmiuçar tão obsessivamente um período regional da História do Brasil? É fácil concluir que um trabalho assim é impossível, mas não se pode perdoar a desonestidade (ou o despreparo, vá lá) de alguns autores. Como é possível perdoar um “historiador” que, pelo simples fato de venerar o Padre Cícero do Juazeiro, omita da sua “história do cangaço” o episódio da “promoção” de Virgulino Ferreira a “capitão”?Alguns personagens desta página – todos da primeira fase do cangaço, a mais desconhecida, que vai de 1924 a 1928, quando Virgulino atravessou o rio são Francisco e foi brigar na Bahia – estão dispostos a testemunhar, depor. Ainda podem chegar à minúcia. Mas os historiadores bem intencionados devem se apressar: a média de idade dessa primeira fase está por volta dos oitenta anos.
A arteriosclerose começa a apagar a memória de muitos. A morte natural está bem próxima. E logo agora que se descobre que cangaceirismo está longe de ser um assunto esgotado pela História, como dão a entender os representantes do sensacionalismo escrito, falado, filmado e televisionado.
Créditos para Antônio Correa Sobrinho/Kiko Monteiro(Lampiao Aceso)
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
SANTA CRUZ DA BAIXA RASA
Artigo de Cacá Araújo¹
Baseado em relatos populares
Um vaqueiro vindo do Pernambuco atravessava a Floresta do Araripe. Chegando à Baixa Rasa parou para descansar. Exausto, faminto e fraco, resolveu ali ficar, à espera de que alguém passasse e pudesse lhe ajudar, saciando-lhe a fome e a sede. Sua valentia de sertanejo ainda o ajudou a resistir por alguns dias.
O corpo sem forças. O desespero e a agonia já o dominavam quando, mesmo com a vista turva, conseguiu ver um grupo de homens montados em burros, que seguiam em comboio, certamente transportando mercadorias. Tentou gritar, mas sua voz, quase apagada pela tirania da fome e da sede, produziu apenas um fraco sussurro. Não foi ouvido e os homens seguiram seu destino rumo ao Crato.
Repentinamente um dos comboieiros, numa avivada de consciência, disse aos camaradas que lá para trás tinha visto um homem caído bem na beira da rodagem. Resolveram voltar para ajudá-lo, mas ele já havia morrido. Morte silente, testemunhada pelos pássaros e pelas plantas que pareciam chorar diante daquele quadro de desventura. Encontraram-no sobre folhas secas, a cabeça escorada numa raiz de árvore, os olhos abertos ainda reclamando um sopro de misericórdia. Fecharam-lhe os olhos. Libertaram sua alma. Seu corpo foi enterrado ali mesmo, no palco encantado de seu teatro de agonia. Com varas da mata fizeram a cruz que cravaram em sua cova. Isso aconteceu, segundo relatos, nos idos de 1880. Nascia, assim, o mito da Santa Cruz da Baixa Rasa.
O martírio daquele vaqueiro foi divulgado pelo grupo de comboieiros ao povo da região. Tomados pela compaixão e motivados pela forte religiosidade, os moradores dos arredores passaram a frequentar o lugar e rezar por sua alma, a fazer promessas, a suplicar milagres.
São diversas as histórias sobre a origem do mito. Mas o real é que vários milagres são atribuídos à Santa Cruz da Baixa Rasa, dentre eles o atendimento a uma promessa feita por uma senhora, em 1914, quando uma terrível peste espalhou-se por diversos pontos do Nordeste. Ela, com inabalável fé, pediu que a epidemia não chegasse ao Cariri. Foi atendida e o povo da região ficou livre da doença. Essa senhora era conhecida como Vó Pretinha, matriarca da família Estêvão, família que até hoje mantém a tradição de rezar aos pés da Santa Cruz da Baixa Rasa.
Muitas graças foram e são alcançadas e, todo 25 de janeiro, uma grande romaria de devotos acorre ao local, que fica a cerca de 20 quilômetros da cidade do Crato, dentro da Floresta Nacional do Araripe.
Uma clareira aberta no coração da mata virgem. Ventos soprando a ancestralidade de um povo religioso, que ainda tem o privilégio de conviver com a natureza divina, mãe de todas as crenças e mitos e desejos e esperanças. Um oráculo nordestino onde os filhos da terra procuram respostas que lhes livrem da ação implacável da esfinge que a todo tempo lhes apavora com a possibilidade de condenação ao inferno. A Santa Cruz da Baixa Rasa é magia matuta. É a busca incansável da felicidade. É o céu que se insinua aos impuros que buscam a clemência de Deus.
Purgar os pecados, pagar promessas, cantar, rezar pela cura e por querer ser feliz. Aqui, instala-se um ritual misto de sagrado e de profano: missa, devotos, benditos, vaqueiros, bandas cabaçais, reisados, maneiro pau, penitentes, cantadores de viola, políticos de matizes diversos, pesquisadores, curiosos. É o espírito da devoção e da festa, como no princípio, onde o sagrado e o profano eram um só.
¹Cacá Araújo (texto e foto) é professor, dramaturgo e folclorista, diretor da Cia. Brasileira de Teatro Brincante, radicado em Crato-CE.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Troça Carnavalesca Mista PITOMBEIRA DOS QUATRO CANTOS
Embora haja a controvérsia sobre a data do seu nascedouro, pois alguns relatos datam a origem da agremiação em 17 de fevereiro, A Troça Carnavalesca Mista PITOMBEIRA DOS QUATRO CANTOS, comemora seus 67 anos hoje, 30 de janeiro, com toda pompa de ser uma das maiores representações da nossa folia.
Conta a história, que um grupo de rapazes da rua do Amparo e dos Quatro Cantos, saiu pelas ruas da cidade alta empunhando galhos de pitombeira, cuja safra ocorre nos primeiros meses do ano. Como tudo é motivo pra se fazer uma troça, nascia Pitombeira dos quatro cantos.
De 1947 até 1949, os participantes da Troça não usavam fantasias. Em 1950, o grupo desfilou fantasiado pela primeira vez, vestidos de palhaços sem máscaras.
Hoje, Pitombeira desfila (cem figurantes e doze destaques) com ricas e bem confeccionadas fantasias, disputando anualmente com seu grande rival, o Clube Carnavalesco Misto Elefante, outra tradicional agremiação olindense, fundada em 1952.
Seu estandarte, criado em 1953, é um losango, contendo no centro um trecho da rua Prudente de Morais, nos Quatro Cantos, em Olinda e dois cachos de pitomba nas laterais. As cores da Troça são o amarelo e o preto. O hino foi criado por Alex Caldas, em 1950.
Cultura Viva Pernambuco.
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