quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Livros

O dia em que Graciliano Ramos entrevistouLampião

"Cangaços" traz textos do escritor sobre o banditismo que aterrorizou o Nordeste no início do século passado e inclui uma conversa imaginária com Virgulino Ferreira, editada pela primeira vez em livro



"Aqui no sertão, quando um camarada tem raiva de outro, toca fogo nele. É a justiça mais usada e não falha. Temos também a dos autos, demorada, mas que não é má, porque os promotores se enrascam sempre e os jurados são bons rapazes.” Essa declaração poderia ter sido dita hoje, quando a justiça com as próprias mãos é praticada como decorrência de uma percepção errada das leis e da ação do Estado. Mas veio à luz há 83 anos, numa entrevista imaginária entre o escritor Graciliano Ramos e o cangaceiro Lampião, publicada no dia 16 de maio de 1931. Uma conversa fictícia? Exatamente – e aí está toda a diferença. Além de iluminar o processo criativo do autor de “Vidas Secas” e “São Bernardo”, o curioso texto encomendado pela revista alagoana “Novidade” surpreende pelo artifício utilizado. Entrevistas forjadas são muito comuns atualmente, mas na juventude de Graciliano eram uma ousadia. O bate-papo é um dos escritos inéditos do livro “Cangaços” (Record), que reúne ensaios e crônicas veiculados na imprensa, nos quais o escritor tratou do banditismo sertanejo.


 CRONISTA
Graciliano escreveu artigos para jornais e revistas de
Maceió e do Rio de Janeiro entre 1931 e 1941.

Haviam causado furor as duas “entrevistas reais”, concedidas por Lampião ao jornalista Otacílio Macedo, em março de 1926. Ao imaginar um diálogo por telepatia, Graciliano ataca a imprensa sensacionalista e, com ironia e tom jocoso, questiona o salteador sobre temas gerais. “Quais são as suas ideias a respeito da propriedade?”, pergunta. E o cabra macho: “Isso por aqui é nosso: gado, cachaça, mulher, tudo. É de quem passar a mão, entende?”. Sobre a família: “Pra dizer a verdade, nunca pensei nisso. E o senhor é danado de fuxiqueiro. Quanto à mulher, hoje a gente pega uma, larga amanhã, arranja outra, casa aqui, descasa acolá, e assim vamos indo.” Segundo o professor de editoração da Universidade de São Paulo (USP), Thiago Mio Salla, que organizou o livro ao lado da doutora em literatura brasileira Ieda Lebensztayn, mais que o estilo é a atualidade que surpreende nos 14 textos (foram acrescentados ainda dois capítulos de “Vidas Secas”, que ajudam a dar corpo ao conjunto de escritos reunidos pela primeira vez nessa perspectiva). “Mudam-se os atores, mas a violência é a mesma, estruturante”, diz Salla, acenando para os linchamentos, execuções e desmandos policiais recentes como exemplo de persistência de uma situação que parece estar no DNA nacional.

Ieda chama a atenção para o fato de essa produção, que durou uma década a partir de 1931, só agora ter sido classificada segundo a cronologia, o que possibilita saber o que veio à luz antes e depois da prisão do autor, em 1936, acusado de comunista. “Antonio Silvino”, por exemplo, é de 1938.



 NA MIRA
Lampião e seu irmão Antonio, [em Juazeiro do Norte]: morte prevista
pelo escritor seis meses antes de ser eliminado.

Se não falou realmente com Lampião, a conversa que teve com esse cangaceiro, cujo nome de batismo era Manoel Batista de Moraes, aconteceu de verdade. Silvino entrara para o crime aos 21 anos, após o assassinato do pai, e até os 37 realizou saques e matou muitos. Graciliano encontra-o na cadeia no primeiro ano de sua pena de duas décadas – vai ao presídio junto com José Lins do Rego, que o retrata em cinco livros. É descrito como “um desses pobres-diabos que morrem no eito e não fazem grande falta, aguentam facão de soldado nas feiras das vilas e não se queixam”. Aceitar a opressão sem reclame está, segundo o autor, na origem do conformismo que só precisa de uma coronhada no pé para explodir em revolta cega. Sentimento recorrente, expresso na frase “apanhar do governo não é desfeita”, dita por Fabiano, o retirante preso injustamente em “Vidas Secas”. Na crônica citada acima, o escritor mostra-se aberto à complexidade do que chama de “lampionismo”, já definido em texto anterior como o molde de onde saem sucedâneos em coragem e desventura: “o que transformou Lampião em besta-fera foi a necessidade de viver”, afirma. Como ressalva, registre-se que o autor mais uma vez incorre no preconceito racial ao apresentar Silvino como homem branco não “representante das raças inferiores”.


Publicado originalmente em Revista Istoé
Fonte: Lampião aceso

segunda-feira, 2 de setembro de 2019




Conhecido por sua efervescência cultural, a Bomba do Hemetério é um verdadeiro oásis cultural do Recife. Considerado um dos bairros que mais reúne grupos culturais, o local respira cultura em toda parte. Basta andar a pé e perceber o que o bairro tem para oferecer. Os sons vão se misturando de acordo com os ciclos festivos. Sempre é possível esbarra-se com o batuque do maracatu e o ensaio de alguma quadrilha junina na quadra de uma escola de samba. A população, sempre muito receptiva, faz questão de carregar com dedicação o legado cultural importante que a Bomba estabeleceu. Na gastronomia, o ‘Espetinho da Ceça’, um dos mais badalados points da Zona Norte da cidade, mistura comida boa e claro, o bom atendimento. Ainda é possível conhecer o bar do Tuca Versátil, o Condor e o Barzinho Bar e Choperia. O bairro ainda abriga a sede da Tribo Canidé do Recife - Patrimônio Vivo de Pernambuco, a Escola de Samba Gigante do Samba, TCM Abanadores do Arruda, CCM Reizado Imperial, os Bois Malabá e Teimoso e os Maracatus Encanto da Alegria e Elefante além da OPBH, comandado por @maestroforro. Nomes como dona Juracy Simões (Tribo Canidé do Recife), Alzira Dantas (TCM Abanadores do Arruda) e Ivanise Tavares ( MBV Encanto da Alegria) são personalidades importantes do bairro que se destacaram na cena cultural do estado, deixando um importante legado para a cultura popular. O #rolêcultural de agosto é na Bomba do Hemetério. Vamos bombar na bomba?

quinta-feira, 29 de agosto de 2019


O poeta cantador, repentista e escritor Oliveira de Panelas apresentará no dia 30 de agosto seu novo projeto: "O 2º Voo da Águia", uma noite de celebração com músicas, poesias e convidados.
Somados mais de 50 anos de cantoria pelo Brasil e no exterior, "O 2º Voo da Águia" é um recomeço na sua trajetória. Nesse projeto, o poeta convida o público a mergulhar nesse momento de celebração de sua obra, em um reencontro com seus convidados que fazem parte dessa história.
O poeta repentista traz uma nova roupagem em seu repertório, mesclando entre músicas, poesias, cantorias e cordéis, um olhar renovador do amor sublime, resistência do ser e valorização da cultura popular e nordestina através da arte e suas origens.
Fotografia: Hélio Costa
Informações:
Show: O 2º Voo da Águia
Data: 30 de agosto de 2019
Horário: 20 hs
Local: Sala Vladimir Carvalho - Usina Cultural Energisa
Contato: (83) 99969-7531
INGRESSOS LIMITADOS
Realização Braúnas Produções Culturais

segunda-feira, 26 de agosto de 2019



1º Festival de Bois de Caboclinhos movimentou Vila da Paz, no município de Limoeiro




Roberta Guimarães/Secult-PE

O I festival de Bois de Caboclinho da Vila da Paz também busca dar início a um processo de inclusão cultural na comunidade da Vila da Paz
O Boi Teimoso convidou brincantes e outros grupos para participarem, ontem, domingo (25), do I Festival de Bois de Caboclinhos da Vila da Paz, no município de Limoeiro – conhecida como o berço do boi de caboclinho, manifestação cultural reconhecida por lei municipal como patrimônio da cidade. Na sua primeira edição, o festival fez uma homenagem a Cassimiro e Tota Preto, os mais antigos brincantes da cidade, e terá como convidado o Maracatu Raízes de Pai Adão.
Com apoio do Governo de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura e Fundarpe, o evento teve o objetivo de incentivar a cultura dos bois, valorizar um patrimônio cultural reconhecido por lei municipal, e fomentar a inclusão cultural entre os adolescentes e jovens da comunidade.
O I Festival de Bois de Caboclinho da Vila da Paz também buscou dar início a um processo de inclusão cultural na comunidade da Vila da Paz, bairro localizado no centro de Limoeiro e que mantém as tradições como bois, ursos e coco como forma de inclusão social.
Além do Boi Misterioso,  se apresentaram os grupos: Boi Caprichoso, Boi Carinhoso, Boi Esperança, Boi Imperial, Boi Leão, Boi Pintado, Boi Teimoso, Urso da Última Hora, Urso Esperança, Urso Peludinho, e Urso Pula Quintal.
Confira a programação do I Festival de Bois de Caboclinhos da Vila da Paz
Domingo (25/8)
14h – Abertura
As Crianças brincantes da Vila da Paz
Pirão Bateu do Xambá de Olinda (Convidado)
15h – Boi Caprichoso
15h30 – Urso da Última Hora
16h – Boi Carinhoso
16h30 – Urso Peludinho
17h – Boi Pintado
Maracatu Raízes de Pai Adão (Convidado)
17h30 – Morto Carregando o Vivo
18h – Mano de Baé
18h30 – Urso Esperança
19h – Boi Esperança
19h30 – Urso Pula Quintal
20h – Boi Misterioso
20h30 – Boi Imperial
21h – Boi Leão
21h30 – Boi Teimoso / Encerramento

quarta-feira, 21 de agosto de 2019


Assisão e Cabras de Lampião ministram aula-espetáculo em municípios pernambucanos

O projeto, que conta com incentivo do Funcultura, terá sua primeira parada nesta quarta-feira (21), na Escola Ailton Barbosa, no município de Lagoa do Carro



A aula-espetáculo passará pelas cidades de Lagoa do Carro; Itambé; Goiana, Paulista, São Lourenço da Mata; Mirandiba e Exu
O Xaxado, ritmo tipicamente nordestino, vai ser tema da “Aula Espetáculo Tem Forró na Ribeira”, que, com incentivo do Governo do Estado, por meio dos recursos do Funcultura, percorrerá vários municípios de Pernambuco, a partir desta quarta-feira (21), sob o comando do rei forró Assisão e pelo grupo de Xaxado Cabras de Lampião. A primeira delas acontecerá na Escola Ailton Barbosa, no município de Lagoa do Carro, Mata Norte do Estado. A iniciativa vai percorrer também as cidades de Itambé; Goiana, Paulista, São Lourenço da Mata; Mirandiba e Exu.
O projeto “Aula Espetáculo Tem Forró na Ribeira” vem reafirmar os valores fundamentados na identidade cultural sertaneja, tendo como ponto de partida a musicalidade e o ritmo da obra de Assisão numa interação estética e inovadora com a poesia e a dança do Grupo de Xaxado Cabras de Lampião, resultando num espetáculo emocionante e de singular beleza.
De acordo com a presidente da Fundação Cultural Cabras de Lampião, Cleonice Maria, a união desses dois grandes filhos de Serra Talhada – Assisão e o grupo Os Cabras de Lampião – vem coroar a importância que tem o Xaxado para a região e para a identidade cultural do nosso país. “Além da dança e da música, que demonstram a força do Cangaço e do povo nordestino, o Xaxado atrai ainda uma riqueza de elementos como as indumentárias, as comidas, os hábitos e, principalmente, as histórias, narradas nas letras das canções”, afirmou Cleonice.
Artistas
Assisão - Francisco de Assis Nogueira, Assisão, nasceu no dia 05 de maio de 1941 na Fazenda Escadinha, município de Serra Talhada/PE. Já aos 11 anos de idade começou suas atividades artísticas como compositor. Embora não tenha nenhuma formação em música, pois nunca frequentou nenhuma escola de música, é exímio compositor, tendo sido chamado por Dominguinhos de “O maior sanfoneiro de boca do Nordeste”, tal sua versatilidade em compor sem ter conhecimento musical. Declara Assisão não saber ao certo como faz as músicas. “Quando menos espero, elas já estão prontas, saem naturalmente”. Possuidor de uma enorme sensibilidade, Assisão é capaz de saber antecipadamente quais as músicas que farão sucesso junto ao público. O início de suas atividades profissionais como cantor começou com o lançamento de um compacto e até o presente momento já gravou vários discos. Seus maiores sucessos, no entanto, aconteceram nos anos de 1987, 1988 e 1989. No trabalho de 1987 foram vendidas cerca de 210 mil cópias. Em 1988 foram 180 mil cópias e em 1989, 190 mil cópias. Somente nestes anos foram quase 600 mil cópias vendidas de seus trabalhos em todo país, o que lhe concedeu três “discos de ouro” consecutivos, além do título de “Rei do Forró”. Suas músicas são tocadas em todas as regiões do país. Com a agenda sempre completa, Assisão é um dos artistas mais requisitados do nordeste. Já compôs mais de 600 músicas, destas mais de 200 já foram gravadas, por ele e por muitos outros artistas.
Grupo de Xaxado Cabras de Lampião - O Grupo é o maior divulgador desta dança e mantém a originalidade e autenticidade conforme criada pelos bandoleiros do sertão. Durante esses longos anos eles têm se apresentado em mais de quinhentas cidades e feito participações em documentários, reportagens, entrevistas, séries de TV e produtoras de diversos países: Brasil, França, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Venezuela e Bélgica. É uma trupe de artistas sertanejos que reproduz no palco como os cangaceiros se divertiam nas caatingas, nos intervalos dos combates.
Serviço
Dia / Horário
Município
Escola
21 de agosto, 15h
Lagoa do Carro
Escola Ailton Barbosa
22 de agosto, 10h
Itambé
Colégio Municipal Profº Nivaldo Xavier de Araújo
22 de agosto, 17h
Goiana
Escola Estadual João Alfredo
23 de agosto, 10h
Paulista
ETE – José Alencar Gomes da Silva
23 de agosto, 15h
São Lourenço da Mata
ETE – Governador Eduardo Campos
26 de agosto, 19h
Mirandiba
Escola Municipal Expedito Lopes de Barros
27 de agosto, 15h
Exu
Colégio Municipal Bárbara de Alencar




segunda-feira, 19 de agosto de 2019



Catálogo do Mamulengo Pernambucano será lançado no Eufrásio Barbosa

O lançamento da obra, que conta com incentivo do Funcultura, será nesta terça-feira (20), às 9h.


Divulgação

A obra é resultado de um trabalho coletivo entre Romildo Moreira, Fábio Castro, Alexandre Albuquerque, Diego Amorim e Hans Von Manteuffel
Manhã dedicada ao mamulengo. Nesta terça-feira (20), a partir das 9h, o Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda, abre suas portas com uma programação especial para o Lançamento do Catálogo do Mamulengo Pernambucano, publicação que conta com incentivo do Governo do Estado, por meio dos recursos do Funcultura. Nesse dia, a entrada para o Museu será gratuita.
A ação acontece no Museu do Mamulengo de Pernambuco, único Museu de Mamulengo do Brasil e primeiro da América Latina, que funciona desde julho de 2018 no Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa. E que conta com obras de mamulengueiros como Mestre Saúba e Mestre Zé Lopes – Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco.
“O Museu está em festa. É sempre bom brindar essa manifestação para não deixar o ofício morrer. A publicação é uma forma de perpetuar a arte do mamulengueiro ao mesmo tempo que podemos compartilhar com novos públicos”, ressalta Luciano Borges, diretor do Museu.
O dia começa com a visita guiada de escolas às 9h. Às 10h, lançamento do catálogo Mamulengo Pernambucano, com distribuição de 100 exemplares; finalizando com mestre Miro de Carpina, com a sua famosa companheira de apresentações, a personagem Maria Grande, que tem quase 1,70 de altura, cabeça e boca articuladas. O mestre Miro é criador também do Mamulengo Novo Milênio, grupo de teatro popular em atividade até hoje e que conta com mais de trinta bonecos-personagens.
A feitura dos bonecos em madeira, chita, arame, cola, tinta e massa corrida é um processo que já envolve a terceira geração da família de Miro, que nasceu no dia 7 de abril de 1964. São cerca de cem deles produzidos semanalmente, cujos tamanhos podem ir de 40 centímetros a 1,60 de altura. “Meus bonecos levam felicidade por onde passam e fazem parte da minha família. É como se fosse um ciclo: eu dou vida a eles e eles e elas a mim e quando for para o outro mundo, eu quero ir fazendo bonecos”, assegura o mestre Miro que já levou seus bonecos e a rica tradição dos mamulengos pernambucanos para todo o Brasil e para a Europa.
O Catálogo do Mamulengo Pernambucano é resultado de um trabalho coletivo, com texto assinado pelo ator, autor e diretor de teatro Romildo Moreira; assessoria artística do ator, arte educador e mamulengueiro Fábio Castro, ilustração com trabalhos dos fotógrafos Alexandre Albuquerque e Hans Von Manteuffel; e arte gráfica de Diego Amorim.
Programação
9h – Abertura do evento com a monitoria de escolas e do público visitante no Museu do Mamulengo.
10h – Lançamento do Catálogo do Mamulengo Pernambucano.
10h30 – Apresentação do Mestre Miro de Carpina
Serviço
Lançamento do Catálogo do Mamulengo Pernambucano
Quando: 20 de agosto (terça-feira), às 9h
Onde: Mercado Eufrásio Barbosa (Avenida Doutor Joaquim Nabuco, Varadouro, Olinda – PE)
Entrada gratuita


sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Lampião e Zé Rufino

Os marechais do sertão e outros valentes

Por Raul Meneleu




A comparação desses dois homens que se engalfinharam mortalmente nas caatingas nordestinas, feita por Alcino Alves Costa, em livro bastante controvertido, - Mentiras e Mistérios de Angico - onde teceu algumas argumentações a respeito da história do cangaço, com raciocínios excelentes, desenvolvidos para colocar conflitos nas mentes dos estudiosos da saga. São bastantes criteriosas quando efetua um confronto paralelo de duas personalidades violentas em lados opostos. Um representava a lei e o outro a desordem.

Qual dos dois era mais violento? 

É a aproximação dos dois, em termos entre os quais existiu alguma relação de semelhança, a violência, como metáfora. A comparação, porém, é feita por meio de um conectivo (os homens violentos de além mar) e busca realçar determinadas qualidades do meio termo (liderança, coragem e inteligência) desses dois grandes homens, que viveram uma vida de sobressaltos.

Vamos então mostrar como foi que esse famoso autor da saga cangaceira levou a termo, sua apreciação por esse dois comandantes guerrilheiros:

Na história deste velho mundo, sempre haverá um lugar reservado, um espaço para os predestinados, excepcionais mortais que se destacam em suas atividades e tornam-se históricas personagens que o passar dos anos não consegue levar para o esquecimento; homens que receberam da divindade este DOM que os caprichos da mãe natureza delega aos seus prediletos filhos.

Em todos os campos da atividade humana existem as sumidades: química, física, medicina, enfim em todos os caminhos da vida, e, como não poderia deixar de ser, também existem aqueles que foram sumidades do crime e da violência. Não sei se podemos classificar Lampião e Zé Rufino como astros do crime e da violência. Sou de opinião que ambos deveriam ser classificados como gênios táticos de uma luta onde foram mestres, em uma arte onde eram insuperáveis, heróis que possuíam uma rara e sem igual habilidade em conduzir seus homens nas mais difíceis empreitadas, exercendo uma liderança sobre seus comandados que era qualquer coisa de fazer inveja aos exércitos mais disciplinados.

Os cabras de Lampião e os contratados de Zé Rufino lhes obedeciam cegamente. Eram realmente inacreditáveis as façanhas dos dois chefes, homens praticamente incultos, sem a mínima experiência militar, que mantinham sob seus comandos homens rudes que mais pareciam feras, filhos do sertão bravio, onde a maior lei era o chicote do coronel. Quase todos perversos criminosos, nascidos e criados naquela região hostil, onde não se conhecia o mais elementar costume de boas maneiras e educação, levados por uma estranha e misteriosa força, acatavam até as últimas consequências, até se possível à morte, as ordens e as vontades emanados dos dois grandes comandantes.

Ao acompanharmos, com os detalhes e as minúcias que a complexa história do cangaço requer, e em particular a odisseia Lampião e Zé Rufino, iremos claramente perceber, através dos tempos, os violentos eventos que abalaram o mundo e que mereceram destaque por seus extraordinários efeitos e causas. Muitos desses, ou todos eles, originados pela doentia mente de seus idealizadores, não os retiram da categoria de homens de brilhantes inteligências, tais como Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler e tantos outros que levaram a humanidade aos clamores da guerra, guerreiros que implantaram a tirania escudados pelos fluidos negativos de suas raríssimas inteligências.

Exemplo disto é a guerra particular disputada pelos inigualáveis Erwin Vom Rommel, o famoso e genial marechal de campo do África Korps do exército alemão e o não menos brilhante marechal Bernard Law Montgomery, o célebre Montgomery of Alemain, do exército britânico, que no deserto da África travaram o mais espetacular duelo no jogo de xadrez da guerra nazista, vendo-se de um lado o fenomenal Vom Rommel, com suas temidas e afamadas divisões Panzer, e de outro a refinada técnica do insuperável Mont.

Em que pesem os tributos pagos com vidas humanas, não se pode esquecer a excepcional habilidade dos dois marechais. A luta dos titãs dos países do além-mar, era uma dimensão sem limite, do tamanho do próprio mundo, mas, guardadas as devidas proporções, luta igual foi travada nos campos ressequidos do sertão brasileiro, com bravura, coragem, sabedoria e maestria pelos marechais caboclos Lampião e Zé Rufino.

É claro que não se pode fazer comparações entre as duas causas. Uma a do sertão, era a luta dos fracos, dos injustiçados que, ao sofrerem as piores humilhações, as mais injustas perseguições, rebelaram-se e enfrentaram os donos do sertão de igual para igual, levando, na maioria das vezes, a melhor. A outra, a guerra nazista, o destempero e a loucura de um ensandecido homem, que não titubeou em empapar de sangue toda a humanidade. Verdade seja dita: o sertão, — pode-se perfeitamente dizer, — tem ou teve o privilégio de ter dado ao Brasil e, possivelmente, ao mundo dois de seus maiores estrategistas e guerreiros. É fora de qualquer dúvida que Lampião e Zé Rufino foram, na acepção da palavra, dois gênios na ciência dos combates e na tática de ataque e defesa; dois mágicos conhecedores profundos dos segredos da dura guerrilha que participavam.

Em suma, possuíam os dois fenomenais sertanejos toda a clarividência dos grandes e lendários guerreiros dos remotos tempos. Não se pode, também, desconhecer os anos de suas lutas particulares, quando os dois bravos mestiços travaram o mais espetacular duelo da sangrenta guerra do cangaço nordestino; cangaço que teve seu início nas primeiras vinditas dos clãs povoadores dos sertões, desde os tempos do Brasil Colonial indo até os colonizadores do Inhamuns, nas barrancas do Jaguaribe, em terras do Ceará, passando pelos sertões do Piauí e Paraíba até chegar aos campos desertos e bravios de Pernambuco.

Além desse fator primordial, as vinditas e pendengas, que geraram desafrontas por anos sem fim, varando toda a sertania com esta feroz e sanguinolenta disputa de força, poder e domínio, havia também aquelas disputas pessoais onde o único motivo era o despeito e vaidade de determinado potentado contra o outro.

E assim, todo o sertão foi palco de extraordinárias medições de forças e demonstrações de inimagináveis bravuras que, apesar de muitas vezes trágicas, eram ao mesmo tempo belas, heroicas e românticas. Ficaram nos livros da história sertaneja a valentia desses sanhudos e embravecidos sertanejos que não se cansaram de mostrar todo o valor de suas nunca desmerecidas coragens e o valor e peso de suas temidas armas.

Lamentavelmente, os protagonistas dessa tenebrosa luta, como Lampião e Zé Rufino, não percebiam que viviam a se matar em uma luta sem o menor sentido e sem nenhuma razão de ser; eram heróis, gigantes, verdadeiros titãs que viviam a porfiar, carregando nessa esteira um grande número de inocentes caatingueiros que não atinavam e nem percebiam os perigos a que se expunham nessa tremenda luta.

Infelizmente a matutada não sabia que estava sendo marionete que, a cada dia, mais ficava a mercê dos coronéis, os senhores do sertão.

É difícil imaginar tudo isso no sertão do Padre-Mestre lbiapina, o lendário Padre José Antônio de Maria Ibiapina, antes Juiz de Direito de Quixeramobim e velho protetor dos Maciéis, na luta desses com os Araújos. Deixando a vida de magistrado para tornar-se sacerdote e protetor dos pobres no dia 14 de novembro de 1835, Ibiapina tinha-se demitido de sua condição de Juiz no dia 10 de dezembro de 1834, um ano depois de ter sido nomeado, no dia 12 de dezembro de 1833.

Também é o sertão do grande peregrino Antônio Vicente Mendes Maciel, o Bom Jesus Conselheiro, de Canudos; sem se falar naquele que foi o maior dos sacerdotes dos sertões, o padre Cícero Romão Batista, o protetor do Juazeiro, pelos quais toda a sertanejada nutria o nobre conceito de santos.

Espanta como os sertanejos ainda se deixavam envolver por pequenas intrigas que só beneficiavam os grandes e poderosos coronéis e fazendeiros. Ora, nesse sertão, apesar de inculto e primitivo, havia a palavra altamente acreditada dos pregadores.

Portanto, a fé era criteriosamente programada e intensamente voltada para a fanatização dos ingênuos mateiros, e o que é de se estranhar é que homens, como esses missionários, com tamanho carisma, não tenham conseguido afastar Lampião, Zé Rufino, Luís Mansidão, Cassimiro Honório, Antônio Matilde, Tenente, Sabino Gomes e uma legião de facinorosos e valentões que espalharam o terror e o medo nos campos nordestinos; mesmo sabendo-se que todos esses enegrecidos homens guardavam no fundo de seus corações o mais puro, mesmo que primitivo e embrutecido, sentimento religioso.

A verdade é que todos sentiam verdadeira admiração, respeito e veneração pelos mensageiros de Deus, como assim eles julgavam os pregadores. Era realmente belo e romântico ver os bravos e heróicos bacamarteiros assistirem contritos e ajoelhados, embevecidos e humildes, aos fulgurosos e apaixonantes sermões de então.



Pescado em Caiçara dos Rios dos Ventos / Lampiao Aceso.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Pernambuco das óperas. De 9 a 24 de agosto, o Teatro de Santa Isabel receberá o I Festival de Ópera de Pernambuco. Com direção artística de Wendell Kettle, o festival reúne as obras Leonor, Pagliacci e Carmem Bijet. O evento é de realização da Academia de Ópera e Repertório e a Sifonieta da UFPE. Os ingressos custam R$ 50 e R$ 25 (meia-entrada) e estão sendo vendidos na bilheteira do teatro. Imperdível!

quinta-feira, 8 de agosto de 2019



O novo filme do diretor Marcelo Gomes "Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar" apresenta uma pequena cidade do Agreste pernambucano que é considerada a capital nacional do jeans. O documentário trata da história dos fabricantes de jeans de Toritama, cidade pernambucana conhecida por ser um grande centro comercial, que trabalham sem parar, tirando férias apenas na semana do carnaval. O filme está em cartaz no Cinema do Museu, na Fundação Joaquim Nabuco.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019


Pernambuco celebra o Dia Estadual do Maracatu, com um grande cortejo em Olinda

Dez nações de maracatus comandaram a festa no Sítio Histórico, nesta quinta-feira (1º). A concentração foi às 18h, no Largo do Amparo. Às 19h, os batuqueiros sairam em cortejo até os Quatro Canto


Priscilla Buhr/Secult-PE/Fundarpe

O evento reunirá mais de 200 batuqueiros pelas ladeiras do Sítio Histórico de Olinda
Para celebrar o Dia Estadual do Maracatu, Olinda recebeu, nesta quinta-feira (1º), um grande cortejo de cultura popular que reunirá mais de 200 batuqueiros de dez nações do Estado: Nação Camaleão, Nação Leão Coroado, Nação Luanda, Nação Tigre, Nação Badia, Nação Pernambuco, Nação Maracambuco, Nação Estrela de Olinda, Nação Sol Brilhante e o Maracatu Várzea do Capibaribe. A concentração foi às 18h, no Largo do Amparo e, a partir das 19h, os batuqueiros sairão em cortejo rumo aos Quatro Cantos, onde farão apresentações com suas nações, cantando suas tradicionais loas.
O evento – coordenado pela Associação dos Maracatus (AMO), com apoio do Governo do Estado, por meio da Secult-PE/Fundarpe, e da Prefeitura Municipal de Olinda, através da Secretaria de Cultura e Patrimônio – marca as comemorações do Dia Estadual do Maracatu, instituído pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), em 1997, em homenagem à data de nascimento do mestre Luiz de França, que comandou por quase 40 anos as atividades do centenário Maracatu Leão Coroado, um dos Patrimônios Vivos do Estado, desde 2005.
“A ideia do evento é celebrar a resistência e importância dos maracatus-nação em nosso Estado e, além disso, criar mecanismos de articulação que deem visibilidade ao protagonismo dos mestres e batuqueiros”, conta Nilo Oliveira, presidente do Maracambuco e um dos organizadores do cortejo em Olinda. Na última edição, cerca de seis mil pessoas acompanharam a homenagem, segundo a organização.
DIA NACIONAL DO MARACATU - Por proposição de Luciana Santos, ex-deputada federal e atual vice-governadora de Pernambuco, tramita, no Senado, um projeto de lei que institui o dia 1º de agosto como Dia Nacional do Maracatu. A data, assim como em Pernambuco, visa fortalecer e evidenciar os elementos da cultura do maracatu que, atualmente, se manifestam quase todos os estados brasileiros e em diversos países, como Canadá, Inglaterra, França, Estados Unidos, Japão, Escócia, Alemanha, Espanha, entre outros. No momento, o projeto de lei aguarda a indicação do relator na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado.

quarta-feira, 31 de julho de 2019



Após 25 anos, o álbum ‘Da Lama ao Caos’ será regravado em fita cassete amarela. Considerado um marco na carreira da Chico Science e @nacaozumbioficial, o projeto contém 11 faixas, dentre elas, sucessos que marcaram época como “A Cidade”, “A Praieira” e “Rios, Pontes e Overdrives”, misturando o que existe de melhor do maracatu, rock, hip-hop e funk com letras que sempre abordaram as questões sociais. O relançamento é uma parceria da Polysom com a Sony Music. Os cassetes chegarão às lojas no início de agosto. Uma ótima notícia para os fãs de Chico e da Nação Zumbi, hein?