terça-feira, 23 de maio de 2017

Homenagem aos Poetas mortos- Adalberto de Vital.


           JOÃO MELCHIADES ,O CANTOR DA BORBOREMA


João Melchiades Ferreira,nasceu num 7 de setembro de 1869 na cidade de Bananeiras,no estado da Paraíba.Ficou órfão de pai ainda menino,seus parentes,inclusive a mãe,eram pequenos proprietários de terra na região. O menino João, aprendeu a ler comum dos seus avós,que era ex-seminarista e professor.  Entrou para o Exército  brasileiro  aos 19 anos de idade,ainda na monarquia,foi promovido a sargento em 1893.Combateu nas guerras de Canudos e do Acre em 1903.Retornou de Canudos com perda de audição e do Acre com beribéri.Foi regente da banda de corneteiros do 28º Batalhão de São João da Barra,no estado de Minas Gerais. Deixou o Exército em 1904. A maior parte dos folhetos de joão Melchiades foi publicada pela Popular editora,tipografia do amigo e cordelista paraibano Francisco das Chagas Batista. É desconhecida a data do seu primeiro folheto,mas em 1914 passou a publicá-los regularmente. O poeta lia geografia,história ,mitologia,romances e a Biblia;era muito religioso e amigo de alguns frades. Percorria os sertões vendendo folhetos e participando de cantorias. Viagens feitas em época de safra.As viagens eram feitas sempre a cavalo,levando um alforges com folhetos seus e de Chagas Batista e também terços,livros de missa e "romances de prateleiras". Após sua morte,sua obra e os direitos de publicação foi vendida a Manoel Camilo dos Santos,que passou a editar os folhetos de Melchiades.Entretanto,naquela ocasião os folhetos já era publicados por João Martins de Athayde e, posteriormente,José Bernardo da Silva,princialmente O Romance do Pavão Misterioso.
A disputa entre editores pelos direitos de publicação das obras do "Cantor da Borborema" se estendeu por muitos anos até 2010,quando entraram em domínio público.
  Já foram identificados pelo menos 36 poemas de João Melchiades,porém é provável que esse número seja maior. O folheto mais conhecido é O Romance do Pavão Misterioso(32 páginas)mas existe muitos outros de grande valor para a literatura de cordel,tais como a História de José Colatino e o Carranca do Piauí,História de  Valente Sertanejo Zé Garcia e,principalmente, A Guerra de Canudos,o primeiro cordel sobre Antonio Conselheiro. Com relação a Canudos,é natural que assumisse  a defesa da república,contra a ideologia pregada e praticada por Antonio Conselheiro e seus adeptos. Ao contrário de Euclides da Cunha ,ele não viu nenhum mérito naquele grupo de valentes sertanejo que se insurgiu (e venceu, em algumas ocasiões)o  Exército Brasileiro.
   Seus folhetos são essencialmente pelejas,romances, poemas de época e descrições da Paraíba,da Serra da Borborema e dos proprietários da região.
Os valentes louvados nos poemas de Melchiades  fogem a algumas características dos poemas de folhetos,pois não são pobres vaqueiros e sim  homens de riquezas é o caso  de Cazuza Sátiro,Belmiro costa e Zé Garcia. Se vários poetas aceitavam "cantar ciência" em desafios,João Melchiades recusava-se a falar sobre esse tema e o exemplo mais categórico ocorreu em sua peleja com Francisco Pequeno.Ele dizia que preferia cantar sobre o povo e suas necessidades. O acervo do Cantor da Borborema é de domínio público,a exemplo do que ocorre com outros poetas populares da primeira geração, e foi digitalizado e disponibilizado ao público pela Fundação  e Casa de Rui Barbosa. Há uma controversa  discussão sobre a autoria do Romance do Pavão.Átila Augusto F de Almeida afirma que esse cordel foi plagiado por João Melchiades do original de José Camelo de Melo Rezende,mas essa versão não é partilhada por outros estudiosos,considerando que os dois poetas populares tinham o romance como parte do repertório comum de suas cantorias. A versão de João Melchiades tem32 páginas enquanto a de José Camelo,rara hoje em dia,tem 40 páginas.Há sensíveis diferenças na estrutura das duas histórias e a versão de Melchiades resumida apresenta erros de métricas,características inexistentes na obra de  Camelo.
 Naquela época,a versão do Cantor da Borborema popularizou-se e muitos e por muitos era considerada a original,fazendo mais sucesso do que a de Camelo. De acordo com Expedito Sebastião da Silva,chefe gráfico da Lira Nordestina,esse desgosto motivou o poeta José Camelo a destruir o próprio folheto. João Melchiades Ferreira da Silva é o patrono da cadeira  de número 40 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel(ABLC)ocupada desde 2000 pelo poeta Cearense  Arievaldo Viana.
 Em 2007 Arievaldo Viana e o cartunista /ilustrador pernambucano Jô Oliveira lançaram pela editora Cearense IMEPH o livro "O Pavão Misterioso",uma releitura para o público infantojuvenil dos folheto. ORomanca do Pavão Mysterioso" de João Melchiades e José Camelo de Melo Rezende. Antes mesmo da publicação do livro,as ilustrações de Jô Oliveira do Pavão Misterioso para coleção de selos da Empresa Brasileira de Correios e Telegrafos lhe renderam o ASIAGO(Italia) de melhor selo do mundo,categoria turismo .


Obras selecionadas

  • Romance do Pavão Mysteriozo
  • A besta de sete cabeças
  • A rosa branca da castidade
  • Quinta peleja dos protestantes com João Melchíades
  • Peleja de João Melchíades com Olegário
  • Peleja de João Melchíades com Claudino Roseira
  • História de José Colatino e o carranca do Piauí
  • História de Juvenal e Leopoldina
  • As quatro órfãs de Portugal
  • História do valente sertanejo Zé Garcia
  • O filho que casou com a mãe enganado
  • Peleja de Joaquim Jaqueira com João Melchíades
  • Peleja de Francisco Pequeno com João Melchíades
  • Peleja de Manoel Cabeceirinha com Alexandre Torto
  • Roldão no leão de ouro
  • Victoria dos aliados: a derrota da Allemanha e a influenza hespanhola
  • Os crimes e horrores da Alemanha
  • A Guerra de Canudos
  • Cazuza Sátiro, o matador de onças
  • A cigana esmeralda
  • O marco de Lampião
  • História sertaneja
  • O desabamento do morro Monte Serra

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Inscrições abertas para oficina sobre Patrimônio Cultural

As inscrições são gratuitas e encerram nesta segunda (22). A iniciativa é promovida pelo BNDES

A unidade do Recife do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está com inscrições abertas para a oficina Projetos de Apoio Financeiro à Preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro. A formação acontecerá na próxima quarta-feira (24), a partir das 14h, no Departamento Regional Nordeste do BNDES, que fica no bairro de Boa Viagem, no Recife. A ação visa oferecer aperfeiçoamento para entidades e profissionais que possuem experiência em projetos e trabalhos na área de Patrimônio Cultural. As inscrições são gratuitas e encerram nesta segunda-feira (22).
A oficina abordará os principais aspectos de uma proposta de apoio financeiro não reembolsável no âmbito do BNDES Fundo Cultural, cujas orientações sobre o envio de projetos encontra-se disponível no link do site do BNDES. Entre os pontos a serem discutidos, estão:
  • Diretrizes do BNDES Fundo Cultural para apoio ao Patrimônio Histórico
  • Roteiro para apresentação e quais os principais aspectos de um projeto
  • Contratação, desembolso e prestação de contas
  • Estudo de caso
Os interessados podem realizar suas inscrições através do link.
Outras informações no número (81) 2127.5800.
SERVIÇO:
Oficina Projetos de Apoio Financeiro à Preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro
Data: 24 de maio, das 14h às 18h
Local: Departamento Regional Nordeste do BNDES, Rua Padre Carapuceiro, 858, Boa Viagem, Recife – PE (Centro Empresarial Queiroz Galvão – Torre Cícero Dias)
Inscrições online no site
Entrada gratuita.

quarta-feira, 17 de maio de 2017



Higino Simplício de Almeida ou Higino D´Almeida, como ele prefere ser chamado, é um dos mais populares escultores mineiros da atualidade; considerado por muitos como um dos re-descobridores do fascinante Barroco Mineiro, numa visão mais conteporânea. Ele nasceu em Belo Horizonte no ano de 1958. Sua inspiração para trabalhar com a madeira veio, como no caso de muitos outros artistas deste país, da própria condição de pobreza que viveu durante a infância e a adolescência. Filho mais velho de uma família de sete irmãos, trabalhou como feirante e ambulante, até encontrar a arte que lhe deu sustento. Mas Higino não é daqueles artistas que simplesmente vivem da sua arte, ele é a sua arte. Começou a esculpir sem muita pretensão, sem saber muito onde ia dar, desde então, nunca mais parou, embora reconheça que ultimamente diminuiu um pouco seu ritmo.


Higino cresceu no bairro belo horizontino Primeiro de Maio. Tinha o hábito de freqüentar a Mina da Biquinha, onde pegava água para abastecer sua casa. Na mina também apanhava argila, pois foi com esse material que começou sua produção artística; “... eram figuras que vinham na minha imaginação”, conta. A grande maioria destas peças era dada aos amigos, pois para ele, “não tinham nenhum valor”. Incentivado por um escultor chamado Joãozinho, Higino começou a talhar a madeira, usando como ferramenta apenas um canivete. Eram peças figurativas diversas, variando entre humanos e animais. Ele diz que usava a imaginação para ocupar o seu tempo.

 Higino, Belo Horizonte (2010)

Depois de conhecer o renomado escultor Maurino Araújo, também morador do bairro Primeiro de Maio, Higino deu novo impulso a sua arte. Incentivado pelo mestre, passou a criar em formões, enquanto perseguia seu estilo próprio. Maurino, ao mesmo tempo em que lhe ensinava a técnica da escultura, instigava-o a busca seu estilo próprio, em vez de copiá-lo. “Ele incentivou meus sonhos de ser alguém e me ensinou a técnica. Assim pude elaborar mais peças”, conta Higino; uma das primeiras que esculpiu foi um negro de senzala.

Em meio aos ensinamentos do mestre Maurino, Higino se dedicou ao estudo; pesquisou sobre a obra de mestres maiores, como Francisco Xavier de Brito e o incomparável Aleijadinho. Percorreu bibliotecas e museus nas cidades de Sabará, Ouro Preto e Congonhas; queria estar mais perto destes mestres. Foi aí que surgiu a influência do barroco na sua obra. Com mais de 30 anos de carreira, Higino reuniu um acervo de mais de 2.000 obras que agora fazem parte de coleções particulares em vários países e de alguns museus e galerias de arte brasileiras.

 Higino D´Almeida, Santana, madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.

Suas obras são mulheres, anjos, santos, escravos, soldados, etc, todos plenos de nobreza em suas formas barrocas de cores suaves, elementos enaltecedores de umas das mais ricas e expressivas tradições de Minas Gerais, a dos santeiros. Uma tradição da qual Higino faz parte como um dos mais importantes e expressivos representantes.

 Higino D´Almeida, Anjo, madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.

 Higino D´Almeida, Nossa senhora, madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.

Higino D´Almeida, Pietá, madeira policromada. Coleçao particular Mario Pinheiro Filho. Foto: Bianca Aun. Reproduçao fotográfica Catálogo 40 anos do Centro de Artesanato Mineiro, Belo Horizonte: SEBRAE-MG, 2010.


Higino D´Almeida, título desconhecido, madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.
As obras de Higino carregam também, além da influencia barroca, uma inconfundível influência negra; as figuras têm lábios grossos e narinas salientes. Algumas das mulheres negras trazem os cabelos alisados, numa tentativa do artista de se identificar ao máximo com a realidade das pessoas que esculpem. Outra marca de suas obras é o fato de que ele explora todos os lados da peça de madeira. A escultura pode ser duas mulheres ou anjos superpostos ou uma imagem de Nossa Senhora com anjos ao seu redor, todas com as costas bem definidas em formas perfeitas.


 Higino D´Almeida, Anjo, madeira policromada. Reproduçao fotográfica Galeria Pontes, Sao Paulo (www.galeriapontes.com.br).


 Higino D´Almeida, Madona grávida, madeira policromada. Coleçao pessoal.


Higino D´Almeida, Madona grávida (detalhe), madeira policromada. Coleçao pessoal.


Higino participou de inúmeras exposições individuais e coletivas pelo Brasil. Segundo ele, a reação mais comum do público diante de sua obra é de impacto. Isto porque, em sua opinião, não são muitos os artistas trabalhando com técnica tão próxima do barroco.


 Higino D´Almeida, Anjo, madeira policromada. FOTO: arquivo pessoal.

 Higino D´Almeida, Tres faces, madeira policromada. Coleçao particular BDMG. Foto: Bianca Aun. Reproduçao fotográfica Catálogo 40 anos do Centro de Artesanato Mineiro, Belo Horizonte: SEBRAE-MG, 2010.

Suas peças podem ser adquiridas em galerias de arte de algumas cidades brasileiras ou diretamente com o artista. Ele continua morando em Belo Horizonte em um bairro próximo ao Primeiro de Maio e para satisfação nossa como admiradores de sua obra, continua trabalhando.

Contato com Higino
e-mail: higino.simplicio@gmail.com
Site: http://www.wix.com/higinodalmeida/higinodealmeida 
Higino D´Almeida, São Francisco, madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.


Higino D´Almeida, título desconhecido, madeira policromada. Reproduçao fotográfica Galeria Pontes, Sao Paulo (www.galeriapontes.com.br). 
 Higino D´Almeida, Lágrimas do divórcio, madeira policromada. Acervo do Museu Saul Martins, Vespasiano, MG. Foto: Bianca Aun. Reproduçao fotográfica Catálogo 40 anos do Centro de Artesanato Mineiro, Belo Horizonte: SEBRAE-MG, 2010.


Higino D´Almeida, Nossa Senhora da Conceiçao, madeira policromada. Coleçao particular.Reproduçao fotográfica Em nome do autor, Proposta Editorial, Sao Paulo, 2008.


 Higino D´Almeida, sem título, madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.


 Higino D´Almeida, título desconhecido, madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.


 Higino D´Almeida, título desconhecido, madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.


 Higino D´Almeida, São Francisco, madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.


 Higino D´Almeida, Sao Francisco (detalhe), madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.


 Higino D´Almeida, título desconhecido, madeira policromada. Coleção particular. Foto: arquivo pessoal do artista.


 Higino D´Almeida, título desconhecido, madeira policromada. Coleçao particular. Foto: arquivo pessoal do artista.

Arte Popular do Brasil


terça-feira, 16 de maio de 2017

                           MANOEL XUDU

Do amigo Ésio Rafael!


Manoel Xudu Sobrinho
Ave Maria!
por Ésio Rafael

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranqüilo
A lua fica chorosa
Por não poder mais ouvi-lo
(Manoel Xudu)

Na cantoria de viola existem certos detalhes que personalizam determinados cantadores. Isso vem a ocorrer evidentemente, em outras categorias de artistas. Claro que os cantadores estão sempre preparados para enfrentar várias modalidades típicas da profissão, acrescentando aí, as regras impostas pelos Festivais de Violas que acontecem em alguns Estados da Federação. Mas, alguns se caracterizam tanto pela voz, como pelo toque da viola, ou por gostarem mais de desenvolver temas, como: martelo, sextilhas, sete linhas, mourões, etc.


foto: acervo do blog 
No pé da parede

Os chamados, “ouvintes de cantoria”, que também são poetas, apesar de não fabricarem os versos, exercem, e como exercem, uma cumplicidade com os cantadores. Eles sabem das histórias dos poetas, declamam seus versos de pé-de-parede, passam pra frente além de ter um passado histórico de imortalizar os vates mais consagrados. Ainda tem um detalhe fundamental relacionado à categoria dos “ouvintes”: eles inspiram os cantadores no momento em que criam os motes já com uma dosagem forte de um poema. Quando Manoel Filó dá o mote: - Uma gota de pranto molha o riso/ Quando o preso recebe a liberdade. Ou então: - O espinho é o vigia/Da inocência da flor. Eis aí, uma possibilidade real do cantador se inspirar, para produzir “pérolas”.

Manoel Xudu Sobrinho foi um homem simples, generoso, eternamente, cavalheiro, incapaz de um ato ríspido, mesmo nas horas em que sua tranqüilidade corresse o risco de ser ameaçada. Nem por isso deixou de ser um poeta atormentado, de permeio, entre “o mundo e o nada”, o pranto e o riso. Natural da cidade de Pilar, na Paraíba, conterrâneo de José Lins do Rego e de João Lourenço, violeiro em plena atividade profissional.

“A obra de Xudu exige um conhecimento maior desse gênio do repente. Cada estrofe é um monumento de Arte, a expressar uma cascata de emoções que despenca em uma alma profundamente humanística”.

Xudu preenche as exigências da categoria, no que concerne, o cantador, o poeta, e o repentista. O cantador canta em qualquer estilo, atende ao mercado, espreita os acontecimentos diários. O poeta não se explica, graças a Deus! Tudo tende à emoção. É o Arquiteto dos sonhos e da metáfora. O repentista é simplesmente maravilhoso! É a marca registrada do repente. É quem pega o fato no ar, muitas vezes sem saber nem o que vai dizer. Ele pega de bote.

Xudu era tudo isso, dentro de uma simplicidade tamanha, ele abordava os temas mais profundos, com a maior presteza:

A MULHER QUE EU CASEI
ALÉM DE LINDA É BREJEIRA
DAQUELAS QUE VAI À MISSA
NO DOMINGO E TERÇA-FEIRA
DAS QUE FAZ UMA SOMBRINHA
COM UM PÉ DE CARRAPATEIRA.

A arte do improviso alimentava corpo e alma deste poeta, do “Pilar”. Bom tocador de viola, o que é um tanto raro dentre os repentistas. Ele e Severino Ferreira quando se deparavam, o “cancão piava”, no desafio só de viola. Gostava de uma “branquinha”. Meu Deus! Às vezes os próprios colegas o prendiam num quarto, até de motel, contanto que ele estivesse bom para o desafio noturno dos “Festivais”.

Xudu colocava a mulher em uma sextilha, onde ela era cúmplice dele, e ainda era quem dava a “chave”. Mas, isso não bonito?

EU ESTAVA NA PRECISÃO
QUANDO ME CASEI COM NITA
NADA TINHA PRA LHE DAR
DEI-LHE UM VESTIDO CHITA
ELA OLHOU SORRINDO E DISSE
OH! QUE FAZENDA BONITA!

Mas, por falar em mulher, nada melhor do que chamar Xudu. Claro, todos somos Freudianos:

MAMÃE QUE ME DAVA PAPA
ME DAVA PÃO E CONSOLO
DAVA CAFÉ DAVA BOLO
LEITE FERVIDO E GARAPA
MAS UMA VEZ DEU-ME UM TAPA
E DEPOIS SE ARREPENDEU 
BEIJOU AONDE BATEU
DESMANCHOU A INCHAÇÃO
“QUEM NÃO TEM MÃE TEM RAZÃO
DE CHORAR O QUE PERDEU”.

E então? Veremos agora, o Xudu autobiográfico. Revelando uma trajetória de vida no sacrifício, na porrada. Particularmente, nunca tinha visto uma autobiografia, tão sincera, com todas as etapas da vida do poeta. Genial:

DIA 13 DE MARÇO TERÇA-FEIRA
ANO MIL NOVECENTOS TRINTA E DOIS
POUCO TEMPO DEPOIS QUE O SOL SE PÔS
MAMÃE DAVA GEMIDOS NA ESTEIRA
NUMA CASA DE BARRO E DE MADEIRA
MUITO HUMILDE COBERTA DE CAPIM
EU NASCI PRA VIVER SOFRENDO ASSIM
MINHA DOR VEM DOS TEMPOS DE MENINO
VIVO TRISTE POR CAUSA DO DESTINO
E A SAUDADE CORRENDO ATRÁS DE MIM.

Daqui vai um alerta para aqueles que conhecem outras versões de alguns versos que por acaso constem nesta matéria. É que, os próprios ouvintes de cantoria, os cantadores, os livros (e são muitos), têm versões diferentes, no que concerne às mudanças constantes nas linhas ou estrofes, ou até relacionados à autoria de um verso. Eu mesmo, já presenciei contradições de versos dentro da casa do próprio Lourival Batista, cuja autoria era atribuída a ele. Isso é literatura oral. Portanto, o mais importante, é que ao alterarem estrofes dos versos, nunca se fere o princípio básico do que o autor quis passar para os ouvintes. Na sextilha do poeta, João Paraibano: - Eu estava no sertão/ Balançando em minha rede/ Vendo o açude vazio/ Com dois rachões na parede/ E as abelhas no velório/ Da flor que morreu de sede. Pois bem, este açude, coitado! Nessas alturas, já vai com mais 100 rachões na parede...

Manoel Xudu tinha o olho biônico. Seus versos eram recheados de carinho, paixão, desde quando necessários. O mote que ele recebeu, foi o seguinte: Pode ir lá que está gravado/ O nome de Ana Maria:

O NOME DA MINHA AMADA
ESCREVI COM EMOÇÃO
NA PALMA DA MINHA MÃO
NO CABO DA MINHA ENXADA
NO BATENTE DA CALÇADA
E NO FUNDO DA BACIA
NA CASCA DA MELANCIA
MAIS GROSSA DO MEU ROÇADO
“PODE IR LÁ QUE ESTÁ GRAVADO
O NOME DE ANA MARIA.

E agora? Agora vamos terminar esse papo, com Manoel Xudu Kafkiano. Pôxa! E Xudu sabia o que era Surrealismo? Então, para os leitores mais engajados:

A PRISÃO ONDE ESTAVAM OS CONDENADOS
NA ANTIGA CIDADE DE BEZETA
ERA TODA PINTADA À TINTA PRETA
E TRANCADA POR FORTES CADEADOS
GUARNECIDA POR TRINTA E DOIS SOLDADOS
CADA UM COM DOIS METROS DE ALTURA
E ALÉM DE SE LER A AMARGURA
NO SEMBLANTE DAS MUDAS SENTINELAS
QUEM OLHASSE PRAS GRADES DAS JANELAS
TAVA VENDO O RETRATO DAS TORTURAS.



ÉSIO RAFAEL é poeta, professor e pesquisador da cultura popular esio.rafael@uol.com.br

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Aniversário do Mestre Baracho é celebrado com festa em Abreu e Lima

Mestre teria completado 110 anos no último 10 de maio, data em que se comemora o Dia Municipal da Ciranda

Divulgação
Divulgação
Uma das atrações da programação são As Filhas de Baracho, grupo formado por Dona Biu e Dulce Baracho, que seguem divulgando o trabalho do pai
Se estivesse vivo, Antonio Baracho da Silva, mais conhecido como Mestre Baracho, um dos ícones da cultura popular pernambucana, teria completado 110 anos na última quarta-feira (10). Com a preocupação de manter vivo este legado e de celebrar o Dia Municipal da Ciranda, a Prefeitura Municipal de Abreu e Lima realizou uma programação na cidade até o sábado (13), quando acontecerá na Praça São José um cortejo do Maracatu Piaba de Ouro e shows da Orquestra Criança Cidadã, Antonio Baracho, André Rios, Nena Queiroga, Maestro Spok e As Filhas de Baracho.
Mestre Baracho nasceu em Nazaré da Mata, Zona da Mata de Pernambuco, mas ainda criança mudou-se para Abreu e Lima, onde passou a maior parte da vida. Foi também mestre de maracatu de baque solto e um grande compositor de cirandas, como a famosa Lia de Itamaracá, cujos versos mais conhecidos são Essa ciranda quem me deu foi Lia / Que mora na ilha / de Itamaracá.
Também é atribuída ao mestre a autoria dos versos Ó cirandeiro / cirandeiro ó/ a pedra do seu anel/ brilha mais do que o sol/, que foram utilizados na música Cirandeiro, de Edu Lobo e Capinam, sem que Baracho fosse citado como autor. Ele faleceu em 1988, aos 81 anos.
Em 2005, o governo municipal de Abreu e Lima instituiu o Dia Municipal da Ciranda, comemorado no dia 10 de maio com manifestações culturais nas praças e palestras nas escolas e intitulando Abreu e Lima como a real cidade da ciranda no Brasil.
Uma das atrações de destaque na programação são As Filhas de Baracho, Dona Biu e Dulce Baracho, que continuam num trabalho incansável de preservação de divulgação dos trabalhos do pai e com reconhecimento pelo mundo afora. Além dos shows, está sendo gravado um documentário que contará a historia de Antonio Baracho, sem data de lançamento, numa parceria com o Governo do Estado de Pernambuco. A ideia é que o filme seja lançado no Cinema São Luiz.

sexta-feira, 12 de maio de 2017


Exposição no Recife celebra 30 anos do Mão Molenga Teatro de Bonecos


Mais de 50 bonecos que ajudaram a contar a história do povo brasileiro na inesquecível série “Brasil 500 anos”, exibida originalmente na TV Escola entre 1998 e 2003, foram restaurados e poderão ser apreciados pelo público pernambucano a partir desta quarta-feira, 10 de maio. Figurinos, imagens, vídeos e fotografias compõem ainda a mostra “Mão Molenga – Cenas de uma história”, que celebra no Recife os 30 anos do grupo pernambucano. Com curadoria de Marcondes Lima, a exposição conta com incentivo do Governo de Pernambuco, por meio do Funcultura, apoio da Massangana Multimídia Produções e é fruto de uma parceria da companhia com o SESC no estado.
Carla Denise/Divulgação
Carla Denise/Divulgação
Bonecos da princesa Leopoldina e de José Bonifácio integram a exposição
A série “Brasil 500 anos”, atualmente disponível na internet, contou com quatro temporadas: Um Novo MundoBrasil ColôniaBrasil Império e Brasil República, totalizando 30 episódios. Mais de 800 personagens, todos bonecos idealizados pelo Mão Molenga, ajudaram a contar a história do Brasil desde o tempo dos navegadores até os anos 2000, quando o país comemorou 500 anos.
Entre os bonecos que integram a exposição estão os personagens da família real, como Dom Pedro I, Dom Pedro II em várias fases, a princesa Leopoldina, dona Maria I, além de nomes como José Bonifácio, Zumbi dos Palmares, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco. Há ainda personagens que existiram somente na ficção, para ajudar a recontar a história sob a perspectiva do cidadão. É o caso da vedete Virgínia, que não era uma personagem histórica, mas recebeu destaque e terá o cenário que aparecia na série recriado na mostra.
Divulgação
Divulgação
A vedete Virgínia é apresentada em sua cenário original
“Para cada personagem, era desenhado um ou mais croquis. Fazíamos uma pesquisa para saber as roupas de cada época, além de um estudo que envolvia desde a criação do boneco até a sua relação e as especificidades com a linguagem audiovisual”, explica Carla Denise, uma das integrantes do Mão Molenga, que assinou a direção de manipulação e dublagem durante toda a série. O Mão Molenga Teatro de Bonecos é formado pelos mesmos artistas desde a sua criação, em 1986: o encenador Marcondes Lima, a roteirista Carla Denise e os bonequeiros Fátima Caio e Fábio Caio. Os bonecos que compuseram a série de TV eram manipulados através de uma técnica mista, de luva e vara. Parte deles foi confeccionado em papel machê, e os corpos feitos de espuma, couro e metal. Entre as curiosidades, algumas delas: os bonecos mediam, em sua maioria, entre 50 e 60 centímetros; eram pintados com tinta de parede, porque não podiam brilhar no vídeo; muitos experimentos foram realizados para simular as cores de pele de portugueses, indígenas e negros; os bonecos precisavam ser maquiados com produtos feitos para humanos; e a peruca era um dos itens mais caros na composição.
A exposição é dividida em quatro etapas. O processo de criação e execução dos bonecos, desde a pesquisa até a finalização, vão compor o primeiro estágio. Algumas peças estarão à disposição para serem tocadas pelos visitantes. No segundo momento, os bonecos serão mostrados como objetos de arte, representando diferentes etnias e o universo dos personagens históricos. Uma linha do tempo de figurinos, desde o período colonial até os anos 2000, será montada nesse espaço. No terceiro trecho da mostra, o espectador terá contato com os bonecos em atuação: imagens em vídeo e fotografias estarão expostas. E, por fim, há um registro dos profissionais envolvidos na série. Cerca de 60 atores pernambucanos participaram do projeto como dubladores, como Irandhir Santos, Marilena Breda, Luciana Lyra, Leidson Ferraz, Quiercles Santana e Nilza Lisboa. A direção geral da série contou com Luiz Felipe Botelho, Fátima Accetti, Cynthia Falcão e Nilza Lisboa. A direção de arte reuniu nomes como Marcondes Lima e Walter Holmes, além de Maria Pessoa e Beto Martins na direção de fotografia.
Durante a temporada da mostra, o Mão Molenga vai realizar uma programação paralela, com oficinas, rodas de conversa, sessões especiais de três espetáculos do repertório do grupo (Babau, O fio mágico e Algodão doce), além de exposição virtual.
“Mão Molenga – Cenas de uma história”, em cartaz na Corbiniano Lins, terá trechos acessíveis a espectadores surdos ou com baixa audição, e cegos, ou com baixa visão, e poderá ter visitas guiadas sob agendamento para esses públicos específicos, sob a supervisão de Andreza Nóbrega, profissional da área de acessibilidade.
Mão Molenga Teatro de Bonecos
O primeiro espetáculo do grupo Mão Molenga Teatro de Bonecos foi o Retábulo da Barafunda, que ficou em cartaz na então Galeria Metropolitana de Arte Aloísio Magalhães, em 1987. Dedicado ao teatro de animação, especificamente ao teatro de bonecos, o grupo possui 18 espetáculos no seu repertório, em 31 anos de atividade ininterrupta. O Mão Molenga já se apresentou em todas as regiões do Brasil, em projetos como o Palco Giratório e inúmeros festivais, como o Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos.
Serviço:
Exposição “Mão Molenga – Cenas de uma história”
Abertura: 10 de maio, às 17h
Visitação: De segunda a sexta, das 9h às 17h, até 28 de julho
Onde: Galeria Corbiniano Lins (Sesc Santo Amaro – Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro)
Quanto: Entrada gratuita
Informações e agendamentos: (81) 3216-1728
Programação paralela:
Oficina Dramaturgia do movimento no teatro de animação
Quando: de 2 a 9 de maio; e de 6 a 9 de junho
Horário: 19h às 22h
Onde: Sesc Santo Amaro
Gratuita
Inscrições: Sesc Santo Amaro ou pelo telefone (81) 3216-1728
Oficina Construção de bonecos
Quando: 20 de maio a 17 de junho, aos sábados, das 9h às 12h
Onde: Sesc Santo Amaro
Quanto: R$ 40 e R$ 20 (comerciários e dependentes)
Inscrições: Sesc Santo Amaro ou pelo telefone (81) 3216-1728
Roda de Conversa: 500 anos, a série. Os bonecos no audiovisual pernambucanoQuando: 23 de maio, às 19h, no Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro). Entrada gratuita
Debate sobre teatro de animação em Pernambuco.
A atividade integra a Mostra Pernambucana de Teatro de Bonecos
Quando: 31 de maio, às 19h, no Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro). Entrada gratuita
Lançamento da exposição virtual
Quando: 30 de junho, às 17h, na Galeria Corbiniano Lins (Sesc Santo Amaro)
Espetáculos
Babau
Quando: 27de maio, às 16h, no Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro)
O fio mágico
Quando: 28 de maio, às 16h, no Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro)
Algodão doce*
Quando: 28 de julho, às 10h, no Teatro Marco Camarotti
*Nos 20 anos do Palco Giratório
Ingressos para os espetáculos:
R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação indicativa dos espetáculos: 6 anos