quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Fernando Zacarias gostava de brincar carnaval com parentes e amigos em frente à casa de número 91 onde morava, na Rua Maria Digna, bairro do Fundão, no Recife. Aos nove anos, fez um estandarte, tipo de bandeira usado por agremiações carnavalescas, com papel de seda e um cabo de vassoura. A criança que sonhava ser porta-estandarte precisou de poucas palavras e muito carisma para concretizar o desejo. Em 1973 foi levado, através de um amigo, para a troça recifense Abanadores do Arruda e, no mesmo ano, saiu como porta-estandarte pelas Pás [de Carvão], que foi campeã entre os clube.
Em 1978, Enéas Freire fundou o Clube de Máscaras Galo da Madrugada e estava procurando o porta-estandarte ideal, quando ouviu falar de Zacarias. São mais de 40 anos ininterruptos levando o maior símbolo do Galo. Para Zacarias, o seu maior diferencial é o zelo pelo figurino, tudo à la Luís XV, rei da França no século 18. O porta-estandarte já prepara o terreno para o seu sucessor: o neto Vinicius Artur Zacarias, de 17 anos. Desde os seis, ele é o porta-estandarte do Pinto do Galo, e vem acompanhando o avô no dia do Galo. Um dos personagens principais da nossa festa, Fernando Zacarias, assim como eu e você, é a cara do Carnaval de Pernambuco. Os clarins já anunciam. É hora de Fernando tomar conta das ruas.
Foto: Leonardo Vila Nova

terça-feira, 28 de janeiro de 2020




Prefeitura do Recife anuncia a programação do Carnaval 2020

Festejos terão mais de 2.700 apresentações distribuídas em 46 polos.


Felipe Souto Maior/Secult-PE

2020 marca a volta de Lenine ao Marco Zero na segunda-feira de Carnaval
A Prefeitura da Cidade do Recife divulgou, nesta quarta-feira (22), a programação cultural promovida em toda a capital pernambucana. Entre os destaques deste ano, o Recife inaugura o sábado do protagonismo feminino no principal palco da cidade numa noite comandada apenas por mulheres com Dita Curva, Nena Queiroga, Gaby Amarantos e Elza Soares. Na noite de abertura, o tão amado brega recifense ganha protagonismo no Marco Zero com apresentação da Banda Musa. O ano marca ainda a volta de Lenine ao Marco Zero na segunda-feira de Carnaval e a chegada de um novo polo, no Poço da Panela.
Até o dia 25 de fevereiro, a Prefeitura do Recife fará jus à grandiosidade do evento, que enaltece a força do frevo e da cultura popular através dos homenageados, o maestro Edson Rodrigues e o Bloco das Flores. No período, 46 polos e mais de 2.700 apresentações irão espalhar alegria por toda a cidade.
Leo Caldas/Secult-PE

Nação Zumbi também fará parte do Carnaval do Recife 2020
Pelos polos artistas da terra como Nação Zumbi, Spok, Maestro Forró, Nena Queiroga, Almir Rouche, Maestro Ademir Araújo, André Rio e Silvério Pessoa. Ainda participam da folia recifense nomes nacionais como Lecy Brandão, Pitty, Zélia Duncan, Jorge Aragão, Skank, Jota Quest, Falcão, Fundo de Quintal e Monobloco. Nação Zumbi fará a alegria dos fãs em dois palcos.
Os bairros que terão polos este ano são: Brasília Teimosa, Linha do Tiro, Alto José do Pinho, Ibura de Baixo, Várzea, Cordeiro (Rua da Lama), Lagoa do Araçá, Campo Grande, Coelhos, Jordão Alto, UR-05 (Ibura), IPSEP, Roda de Fogo, Iputinga, Joana Bezerra/ Coque, Mustardinha, Barro, Santo Amaro/ Frei Casimiro, Areias, UR-2 (Ibura), Jardim São Paulo, Bomba do Hemetério, Chão de Estrelas, Nova Descoberta (Pátio da Feira), Casa Amarela e Poço da Panela.
Victor Jucá/Secult-PE

Priscilla Senna, a Musa, fará barte da noite de abertura no Marco Zero
Outro destaque fica por conta da ampliação da parceria entre a Prefeitura e o mais contemporâneo dos polos Carnavalescos, o Rec Beat. No aniversário de 25 anos de um dos festivais mais importantes da cena nacional, o polo da Alfândega ganha a ação “Frei Caneca FM” convida, na qual a emissora trará ao palco duas das atrações que marcaram a história do festival, que serão anunciadas em breve.
O espetáculo de abertura do Carnaval do Recife será comandado pelo músico Antônio Carlos Nóbrega que comandará um grupo músicos, dançarinos e artistas circenses em uma homenagem aos temas do imaginário popular nordestino. “Celebraremos o encontro da tradição e do contemporâneo, numa tentativa de recriar o universo popular”, diz o artista.
Nóbrega leva ao palco do Marco Zero uma apresentação que reúne música e dança, referenciada na cultura popular brasileira, do caboclinho ao cavalo marinho, passando pelo maracatu rural. O artista estará acompanhado de 10 músicos, que já costumam atuar com ele por suas andanças, 20 integrantes do grupo recifense Matulão de Dança, oito artistas circenses e quatro bailarinos que também fazem parte da trupe de Nóbrega.
Em seguida, os homenageados do Carnaval 2020, maestro Edson Rodrigues e Bloco das Flores saúdam o reinado de Momo com muito frevo. Maestro Forró dá continuidade à festa, com toda a sua irreverência e animação e a noite será encerrada pela Banda Musa, que irá colocar o Marco Zero pra dançar ao som do brega.
Confira a programação do Polo Marco Zero no Carnaval do Recife 2020:
Sexta (21)
Abertura
Maestro Edson Rodrigues e Bloco das Flores
Espetáculo de abertura – Antônio Nóbrega
Maestro Forró e convidados
Banda Musa
Sábado (22)
Dita Curva
Nena Queiroga e convidadas
Elza Soares
Gaby Amarantos
Domingo (23)
Karynna Spinelli
Gerlane Lops e o Samba de Bambas
Mariene de Castro
Segunda (24)
Almir Rouche
Skank
Pitty
Terça (25)
Lenine
Alceu Valença
Elba Ramalho
Spok e convidados
Orquestrão
Algumas atrações em outros polos do Carnaval do Recife 2020:
Arsenal: Zélia Duncan, Lecy Brandão, Banda de Pau e Corda, Lia de Itamaracá, Flayra Ferro e Quinteto Violado
Várzea: Paralamas, Fim de Feira, Falcão, Nena Queiroga, Maestro Forró
Pátio de São Pedro: Gabi do Carmo, Devotos, Geraldo Azevedo, Café Preto, Zélia Duncan e Lia de Itamaracá
Alto José do Pinho: Lenine, Josildo Sá, Devotos, Isaar e Maestro Forró
Campo Grande: Gaby Amarantos, Fundo de Quintal, Monobloco e Los Cubanos
Lagoa do Araçá: Fafá de Belém, Mombojó, Geraldinho Lins e Café Preto
Casa Amarela: Jorge Aragão e Elba Ramalho
Cordeiro: Lecy Brandão, Alceu Valença, Mariene de Castro e Silvério Pessoa
Ibura: Banda Musa, Fundo de Quintal e Fafá de Belém
Poço da Panela: Jorge Aragão, Silvério Pessoa e Benil
Brasília: Nação Zumbi e Falcão





Fernando Zacarias gostava de brincar carnaval com parentes e amigos em frente à casa de número 91 onde morava, na Rua Maria Digna, bairro do Fundão, no Recife. Aos nove anos, fez um estandarte, tipo de bandeira usado por agremiações carnavalescas, com papel de seda e um cabo de vassoura. A criança que sonhava ser porta-estandarte precisou de poucas palavras e muito carisma para concretizar o desejo. Em 1973 foi levado, através de um amigo, para a troça recifense Abanadores do Arruda e, no mesmo ano, saiu como porta-estandarte pelas Pás [de Carvão], que foi campeã entre os clube.
Em 1978, Enéas Freire fundou o Clube de Máscaras Galo da Madrugada e estava procurando o porta-estandarte ideal, quando ouviu falar de Zacarias. São mais de 40 anos ininterruptos levando o maior símbolo do Galo. Para Zacarias, o seu maior diferencial é o zelo pelo figurino, tudo à la Luís XV, rei da França no século 18. O porta-estandarte já prepara o terreno para o seu sucessor: o neto Vinicius Artur Zacarias, de 17 anos. Desde os seis, ele é o porta-estandarte do Pinto do Galo, e vem acompanhando o avô no dia do Galo. Um dos personagens principais da nossa festa, Fernando Zacarias, assim como eu e você, é a cara do Carnaval de Pernambuco. Os clarins já anunciam. É hora de Fernando tomar conta das ruas.
Foto: Leonardo Vila Nova

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Arlindo Rocha

Uma entrevista com o matador do cangaceiroSabino Gomes

Por:José Tavares de Araújo Neto

Retrato artístico de Arlindo Rocha
Acervo Denis Carvalho

Arlindo Rocha, (nascido em 23 de março de 1883 e falecido em 07 de outubro de 1956), na condição de delegado da cidade de Salgueiro, Pernambuco, tinha sob sua guarda o indivíduo conhecido por Antonio Padre, suspeito de ter cometido um crime na região. Inocentado, Antonio Padre roga um emprego ao delegado, que o leva para trabalhar em uma de suas fazendas de nome Barrocas, onde reside com sua família. Nessa relação próxima à família, nasce em Antonio Padre uma forte paixão por uma das filhas de patrão, que chega a propor que a jovem fuja com ele. Ao ter conhecimento da intenção do seu empregado, Arlindo o expulsa imediatamente de sua propriedade.

Injuriado pela humilhação a que foi submetido, Antonio Padre declara guerra ao seu ex-patrão, e vai em busca de proteção junto ao coiteiro Francisco Pereira de Lucena, o temível e poderoso Chico Chicote, proprietário da fazenda Guaribas, no município Brejo dos Santos (hoje Brejo Santo), localizado no cariri cearense, na divisa com Pernambuco e Paraíba.

Antonio Padre, vez por outra, enviava bilhetes extorsivos e recado ameaçadores dizendo que além de roubar a filha, iria “partir a MELANCIA, aterrar as BARROCAS e derrubar as CAEIRAS”, referências as três propriedades de Arlindo Rocha. Diante dessas ameaças, Arlindo Rocha forma um grupo armado, com pessoas de sua extrema confiança, constituído por parentes e agregados, pois sabia da alta periculosidade do seu antigo empregado, agora um afamado bandoleiro do bando do famigerado Lampião.

Em meados de 1924, Arlindo articula uma bem-sucedida emboscada contra o subgrupo de Antonio Padre, ocorrendo uma forte troca de tiros, no episódio que ficou conhecido como o “Fogo de Pilões”, que resultou nas mortes de Antonio Padre e Gavião. Em 26 de novembro de 1926, já promovido tenente, Arlindo Rocha participa da sangrenta Batalha de Serra Grande, considerada a mais importante vitória de Lampião sob as forças volantes.

Nesta batalha, que havia dito que os cangaceiros iriam comer bala, foi acertado por disparo na boca que quase lhe destruiu a mandíbula, que lhe trouxe problemas de mastigação e cicatriz pelo resto da vida, sendo então chamado pelos cangaceiros pelo apelido pejorativo de “Queixo de prata”. Em fevereiro de 1927, Arlindo comanda uma as das volantes no histórico cerco a Fazenda de Chico Chicote, evento que ficou conhecido como o “Fogo de Guaribas”, no qual é morto o temível fazendeiro e coiteiro cearense.

Em 13 de março de 1928, três forças volantes, comandadas pelos tenentes Arlindo e Eurico Rocha e o bravo sargento nazareno Manoel Neto, intensificam o cerco ao bando de Lampião no cariri cearense, precisamente no município de Macapá, atual Jati, na fazenda Jati, do fazendeiro Antonio Teixeira Leite, o celebre coiteiro Antonio da Piçarra. Já era tarde da noite, sob forte chuva, o céu entrecortado por raios e trovões, que um dos soldados da volante de Arlindo Rocha deflagrou um tiro certeiro no vulto de uma pessoa que atravessava um passadiço, pondo fim a vida do célebre Sabino Gomes, o mais importante cangaceiro do bando de Lampião, que, em entrevista em Juazeiro/CE, já o havia apontado como seu potencial sucessor.

 Capitão Arlindo Rocha e seu filho Edmar
Cortesia de Otavio Cardoso

Após a malfadada tentativa de Lampião de atacar a cidade de Mossoró, no oeste potiguar, ocorrida em 13 de junho de 1927, os governos do Estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará e Pernambuco, uniram esforços no intento de eliminar definitivamente o cangaço dos seus territórios. A bem-sucedida “Campanha de 1927”, comandada pelo oficial cearense major Moisés de Figueiredo, em solo cearense, mas que também contava com contingentes policiais militares advindos do Rio Grande do Norte e da Paraíba, promoveu baixas, forçou deserções e fugas de cangaceiros rumo ao Estado Pernambuco. Em 21 de agosto de 1928, Lampião e seu bando, reduzido a apenas seis componentes (Ele; Ezequiel, seu irmão; Virgínio, seu cunhado; Luiz Pedro; Mariano e Mergulhão), em fuga, atravessam o Rio São Francisco e vão se homiziar na Bahia.

Em 20 de outubro de 1929, o Jornal Pequeno, de Recife/PE, veiculou uma entrevista concedida pelo tenente Arlindo Rocha, que reveste-se de importante documento para se entender melhor o mundo do cangaço.

Segue abaixo a transcrição integral da entrevista:

O tenente Arlindo Rocha, anteontem chamado ao Recife, é atualmente o comandante da forças pernambucanas no sertão.

Vimo-lo ontem, à noite, na chefatura, conferenciando demoradamente com o dr. Eurico de Sousa Leão. As indicações que se prestava, no mapa todo assinalado da Repartição Central da Polícia, e o justo renome que usufrui aquele policial em todo o sertão nordestino, levaram-nos a procurá-lo no intuito de conseguirmos um testemunho seguro da situação do cangaceirismo, afora o prazer natural de ouvir um homem que, anos a fio, dia e noite, tem batido cerrados e caatingas numa luta de vida e morte contra os mais ferozes bandoleiros. O tenente Arlindo Rocha é um homem moreno, alto e magro, muito tímido e que não fala nunca; tem que ser provocado então. Na face esquerda ostenta uma cicatriz profunda: uma bala de rifle em pleno rosto, às duas e meia da tarde, no dia 26 de novembro de 1926, no combate de Serra Grande.

 

 Arlindo no centro, sentados Theophanes Torres e 
Eurico de Souza Leão.
S. José do Belmonte, 1928.

Onde foi esse combate? Perguntamos logo, com nossa curiosidade despertada!

_ Serra Grande fica perto de Custódia. Comandava as forças o bravo tenente Hygino José Belarmino. Foi o início da campanha do atual governo estando no poder o saudoso Júlio de Melo contra Lampião. Este tinha, ao tempo, sob seu comando 125 homens. Estavam todos entrincheirados no alto da serra. A brigada começou as 8 da manhã e terminou as 6 horas da tarde. Nós tínhamos duas metralhadoras que Antonio Ferreira, irmão de Lampião, procurou cercar três vezes e gritava: _ Hoje tomo uma costureira dessa.

E tomou?

_ Não. Parece que tomou foi uma bala, pois morreu três dias depois do tiroteio. Os bandidos fugiram e desde então começou a debandada. O grupo fragmentou-se em quadrilhas que operavam em zonas diferentes. Ferido, nesta luta, acrescentou o tenente Arlindo, só escapei devido a meu irmão que me amparou. Os cangaceiros me alvejaram a pouco passos de distância, no momento em que eu chamava por Manoel Neto, ocupado em botar uma retaguarda.

Mas foi esse, tenente, o seu primeiro encontro com Lampião?

O tenente Arlindo riu e respondeu, a voz pausada:
_ Não. Eu já tinha brigado há tempos. Desde em que era subdelegado em Salgueiro, quando fui atacado e procurei tomar desforra. Mas isso no tempo em que, no sertão, cada qual se defendia por si mesmo. Eu e meus parentes demos uma brigada em Pilões. Brigada boa, aquela. Morreram de Lampião dois cangaceiros dispostos: Gavião e Antonio Padre. De lá p´ra cá tem sido essa marcha. Mas, de verdade, só melhorou a coisa com os drs. Estácio de Coimbra e Eurico de Sousa Leão. Foram eles quem me ajudaram, fizeram minha carreira militar; e é pór isso também que venho combatendo satisfeito sempre.

_ O sr. pode alto e bom som, disse o tenente Arlindo Rocha, que o sertão do Pernambuco está livre de cangaceiros. Pode acrescentar mais: os crimes de sangue e os assaltos a fortuna alheia se acabaram de vez.

E Lampião, tenente?
_ Lampião é, agora apenas, uma lembrança dos outros tempos. Dos tempos em que fora o rei do cangaço, dominando de Vila Bela a Salgueiro, do Ceará às margens do São Francisco. Avalie que eu mesmo, de uma feita, ao sair de Vila Bela com 12 homens, fui atacado na estrada pelos cangaceiros. Eram 26. Foi uma emboscada que me deu trabalho. Agora, no atual governo, jamais se viu Lampião procurar as forças para lutar.

Sempre na emboscada?

_ Nunca. É a fuga pela caatinga. O trabalho dos contingentes é todo para alcançá-lo e dar-lhe combate. Agora devemos argumentar com deficiência de comunicações, de aviso, de transporte e de víveres, etc. Entra-se pela caatinga adentro cinco, dez dias, um mês inteiro sem descanso. A comida é fruta e garapa de açúcar. E a cama é de pedra – um pedaço de jurema ou angico como travesseiro.

Mas onde anda Lampião? Inventam tantas coisas, às vezes ...

_ Bem sei, dr. Mas há muita mentira. O sr. argumente pelo pelos fatos da capital. Dá-se um conflito ali na esquina e na outra rua os mortos e feridos já estão triplicados. Basta notar o seguinte: seis meses atrás, Lampião com seis homens, pretendeu atravessar Pernambuco com direção ao Ceará. Não o pode fazer. Perseguimos o reduzido grupo um mês em Alagoas com o concurso esforçado e leal das forças daquele Estado. Encurralado, o bandido fez uma coisa que sempre se arreceara:

Atravessou o São Francisco, rumo à Bahia. As nossas fronteiras, de acordo com o plano traçado pelo dr. Chefe de Polícia, se acham inteiramente resguardadas de um impossível retorno dos bandoleiros. O próprio Lampião, por onde passa, diz que em nosso Estado não poderia mais viver. Na Bahia mesmo, a perseguição lhe foi terrível. Nossas forças como as daquele Estado, lhe moveram uma guerra tenaz. Na última corrida que lhe demos fomos pelo alto sertão baiano botá-lo a uma distância de mais de 100 léguas além de Juazeiro.

_ Quando Estive em Juazeiro da Bahia, contou-nos o tenente Arlindo, o prefeito perguntou-me porque sendo eu um homem doente e Lampião já em completa fuga, não mandava eu os meus homens em perseguição do bandoleiro e me arriscava aos percalços da caatinga. Respondi-lhe: É um entusiasmo que tenho pelo meu governo; quero ajudá-lo, assim de perto, cumprindo o meu dever. Lampião só tem cinco cangaceiros, segundo corre pelos sertões baianos, o seu objetivo é alcançar Goiás. E diz que não se entregou às nossas forças porque não tinha certeza se o trataríamos bem.

 

 Arlindo Rocha (esq.) e sua volante

Sabe quais os cangaceiros que vão com ele?
_ Sei. Ezequiel Ferreira, seu irmão; Virgínio Fortunato, seu cunhado; Mariano; Menino Oliveira e Luiz Pedro do Retiro.

E o famigerado Sabino?
_ Afirmam que morreu em Piçarra, no Ceará, num combate com minhas forças. O choque foi a meia noite. Debaixo de muita chuva e muita trovoada. Era um velho inimigo meu, o terrível Sabino. Lembro-me que num tiroteio ele gritava pra mim: “Arlindo das Barrocas, já te arranquei um queixo, quero levar o resto”.

Mas não levou, tenente ...
_ Não. Nem se cumpriram as promessas de Lampião, que me mandava dizer nos seus tempos folgados:
  - Quando passar na tua casa só deixo o chão molhado.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020


Hoje, nosso quadro que reforça o protagonismo negro conta a história do compositor e carnavalesco João Santiago dos Reis. Nascido no bairro recifense da Torre, em março de 1928, João Santiago, em parceria com seu pai, José Felipe, transformou situações curiosas em alegres marchas de bloco, em sua maioria, inspiradas no dia-a-dia da agremiação do seu coração: o Batutas de São José. Fez curso no Conservatório de Música de Pernambuco, e posteriormente, organizou uma orquestra que projetou diversos músicos, entre os quais, José Bartolomeu, Edson Rodrigues e José Amaro. Em 1973, o Quinteto Violado gravou o “Hino dos Batutas de São José”, um dos seus maiores sucessos. Desenvolveu atividades em variados blocos, fez arranjos para o Inocentes do Rosarinho e dirigiu a orquestra do Bloco Rebeldes Imperial. João Santiago não é tão lembrado como deveria, mas a energia dos blocos de pau e corda, que faz transcender o lirismo nas ruas das cidades, gritam, a plenos pulmões, versos escrito pelo compositor negro que carregou consigo a alma dos nossos frevo, a voz da nossa principal referencia, o frevo.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020



Tendo se originado das festas de coroação dos Reis Congo, os maracatus nação constituem uma manifestação da cultura popular pernambucana em que se percebe que o brinquedo de carnaval é permeado por uma série de rituais que envolvem uma pluralidade simbólica e significados diversos. Muita gente não sabe, mas em 1980, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no bairro de Santo Antônio, no Recife, através do Padre Miguel Cavalcanti, realizou a coroação da ialorixá Elda Viana, a Rainha e Presidente do Maracatu Nação Porto Rico. A igreja católica, no processo de romanização, proibiu em certos períodos que manifestações da cultura popular acontecessem no interior dos templos católicos. Era o possível fim da proibição que fez de Elda Viana a última Rainha de maracatu coroada dentro de uma igreja católica. Outras coroações foram realizadas sem a presença de líderes da igreja católica. Dona Marivalda, Rainha do Maracatu Nação Estrela Brilhante do Recife e Dona Ivanise (em memória), Rainha do Macaratu Encanto da Alegria, foram coroadas por grupos e líderes religiosos em frente à Igreja do Rosário e de Nossa Senhora do Terço, respectivamente. Um marco importantíssimo da nossa cultura.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020



Com mais 90 atrações, Janeiro de Grandes Espetáculos dá início à sua 26ª edição

Com incentivo do Funcultura, o festival acontece de 8 de janeiro a 3 de fevereiro no Recife e mais seis cidades.


Roberta Guimarães/Secult-PE/Fundarpe

O cantor Xico de Assis apresenta seu novo show no palco do Teatro Arraial Ariano Suassuna, no dia 1º de fevereiro, a partir das 20h
Há 26 anos, o mês de janeiro é sinônimo de arte, cultura e grandes espetáculos em Pernambuco. Em 2020, o maior festival de artes cênicas e música do Estado, o Janeiro de Grandes Espetáculos (JGE) ocupa os principais teatros do Recife, de 8 de janeiro a 3 de fevereiro, com mais de 90 atrações de teatro, dança e música. A efervescente produção artística pernambucana responde pela maioria da programação. Ultrapassando as divisas do Estado, companhias/artistas da Bahia, Paraíba, São Paulo e Rio Grande do Sul foram escalados. Da China, Eslováquia e de Portugal, virão quatro espetáculos. Oito teatros da capital vão virar palco para o JGE: Arraial Ariano Suassuna, gerenciado pela Secult-PE/Fundarpe, Santa IsabelApoloBarreto Júnior,Boa VistaHermilo Borba FilhoLuiz MendonçaMarco Camarotti. O evento conta com incentivo do Governo do Estado de Pernambuco, por meio dos recursos doFuncultura.
Algumas montagens serão apresentadas nos espaços alternativos Casa Maravilhas, Manhattan Café Teatro, Sesc Casa Amarela e Espaço Fiandeiros, que também recebem oficina, exibição de documentário e palestra. Além da capital, seis cidades integram o Janeiro. Em parceria com o Sesc, os municípios de Caruaru (Teatro Rui Limeira Rosal), Garanhuns (Teatro Reinaldo de Oliveira), Goiana (Igreja Matriz de Nossa Sra. do Rosário) e Jaboatão dos Guararapes (Teatro Samuel Campelo). Camaragibe (Casarão de Maria Amazonas) e Serra Talhada (Espaço Cabras de Lampião) também abrem as cortinas para o festival.
A programação do Janeiro de Grandes Espetáculos, realizado pela Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco), está disponível no www.janeirodegrandesespetaculos.com. Os ingressos podem ser adquiridos antecipadamente através do site Sympla e quiosques da Ticket Folia nos shoppings Recife, RioMar e Tacaruna – alguns eventos têm entrada franca ou bilhetes trocados por 1 kg de alimento.
Cinco serão os homenageados da 26ª edição. Na categoria Teatro, o ator e diretor Zé Manoel. No quesito Técnica, que retorna, será reverenciado Joca, há mais de 40 anos trabalhando no Teatro de Santa Isabel. O maestro Edson Rodrigues, Mestre-Vivo do Frevo, é o homenageado na categoria Música; a bailarina e coreógrafa Cecília Brennand, em Dança; e a Família Marinho, em Poesia.
NOVIDADES – Pela primeira vez, abriu-se um edital para formar uma comissão de avaliação dos espetáculos de teatro e dança de Pernambuco. A curadoria deixou de ser feita exclusivamente pela Apacepe e foi compartilhada com o grupo formado pela produtora Danielle Valentim, atriz e arte-educadora Milena Marques, estudante de Licenciatura em Teatro Natália Gomes e pelos jornalistas Renato Contente e Talles Colatino. Também pela primeira vez, um conselho consultivo foi criado. André Filho (ator e diretor), Fátima Aguiar (atriz e produtora), Paulo de Pontes (ator) e Toni Rodrigues (produtor e diretor) juntaram-se ao presidente da Associação, Paulo de Castro, para debater temas estratégicos do JGE ao longo dos últimos meses.
Tem mais novidades: em 2020, o festival volta a premiar os melhores espetáculos pernambucanos que estiveram em cena. Após um hiato de dois anos, a premiação ganha nome e sobrenome: Prêmio Copergás de Teatro, Dança e Música de Pernambuco.
OS ESPETÁCULOS – O Janeiro dá oportunidade ao público de assistir a estreias e montagens de sucesso. Entre as obras que serão encenadas pela primeira vez, estão “Berço Esplêndido – Uma Comédia Necropolítica” (Pedro Portugal) e “Deusas da Noite” (Real Cia de Teatro). “Duelo” ganha remontagem, 25 anos após sua estreia, com o elenco original: Pedro Henrique, Júlio Rocha, Mario Miranda, Carlos Lira, Ana Medeiros e Paulo de Castro. “As Bruxas de Salém” (Célula de Teatro), que estreou em 2019 e fez excelente temporada, e “Auto da Compadecida” (Cênicas Cia de Repertório) são destaques ao lado do projeto Trilogia Vermelha, do Coletivo Grão Comum, com três produções sobre Dom Helder Câmara, Glauber Rocha e Paulo Freire. De Portugal, desembarcam “A Estrada”, monólogo com a atriz Elsa Pinho, e “Beatriz e o Peixe-Palhaço”, uma reflexão acerca de relações sociais. Para a criançada, clássicos como “Os Três Porquinhos” e “Chapeuzinho Vermelho” e produções locais – entre elas “Haru – A Primavera do Aprendiz”, com Rapha Santacruz, “Canções, Cancionetas e Caçarolas”, da Cia 2 Em Cena, “A Batalha da Vírgula contra o Ponto Final”, da Cia Omoiós de Teatro, “O Segredo da Arca de Trancoso”, do Cênicas Cia de Repertório.
Música vem ganhando cada vez mais espaço, com importantes estreias, como o show dos pernambucanos Almério e Martins, e homenagens, a exemplo do lançamento do CD “Natureza Sonhadora”, tributo ao forrozeiro Accioly Neto. De fora do Estado, estarão cá a baiana Belô Velloso, o trio As Bahias e a Cozinha Mineira (SP) após apresentação no Rock In Rio, e Edu Falaschi, que virá com show acústico, revivendo a época em que integrou a banda de metal Angra. Tem ainda “Festa Eslovaco-Pernambucana”, um show de cordas com músicos da Eslováquia e do nosso Estado. Montagens de dança compõem a grade, entre elas o incrível “Ano Novo Chinês – Festa da Primavera”, cuja entrada é 1 kg de alimento. Direto da China, mistura acrobacia, artes marciais e dança. E mais: “Às Vezes eu Kahlo”, do Rio Grande do Sul, e Planta do Pé, de São Paulo.
TEATRO ARRAIAL ARIANO SUASSUNA - Às margens do Rio Capibaribe, o equipamento cultural recebe, nesta 26ª edição, os espetáculos: Mãeee… O Que É Sexo?, no dia 12/1 (domingo), às 18h30; Sonia Sinimbu Canta Mercedes Sosa, no dia 18/1 (sábado), às 20h; Breu, no dia 19/1 (domingo), às 17h; Cássio Sette & Betto do Bandolim, no dia 25/1, às 19h; Retratos de Chumbo – As Rosas Que Enfrentaram Os Canhões, no dia 26/1 (domingo), às 18h; Xico de Assis em Mistérios: Encanteria e Resistência, no dia 1º de fevereiro (sábado), às 20h.
Serviço
26º Janeiro de Grandes Espetáculos
Quando: de 8 de janeiro a 3 de fevereiro de 2020
Programação completa: www.janeirodegrandesespetaculos.com
+ Ingressos antecipados: www.sympla.com.br e quiosques da Ticket Folia nos shoppings Recife, RioMar e Tacaruna. Nas bilheterias dos teatros/espaços, à venda duas horas antes de cada sessão.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

BANDIDO OU PATRIMÔNIO CULTURAL E TURÍSTICO?

Repercussão do Plebiscito da estátua de Lampião em Serra Talhada em 1991

Rostand Medeiros – IHGRN
Sou de uma família que foi vítima da ação de cangaceiros, através de um assalto ocorrido no dia 1 de fevereiro de 1927, na zona rural do município de Acari, na região do Seridó do Rio Grande do Norte. Sou bisneto de Joaquim Paulino de Medeiros, o conhecido “Coronel Quincó da Ramada”, proprietário da gleba Rajada, atacada nesse dia pelo bando do paraibano Chico Pereira e seus homens.
Desde tenra idade esse tema foi algo muito presente em diálogos familiares e em momentos de recordações sobre a nossa história familiar. Mas em 1991 o meu conhecimento sobre o Cangaço, esse tema tão específico da história do Nordeste, se limitava a alguns filmes, matérias televisivas e alguns poucos livros, que até hoje se encontram na estante da minha casa.





Nessa época, como até hoje, eu buscava aprender mais sobre o Cangaço e tentava compreender porque meus antepassados foram atacados. Mas era então tudo muito limitado.
Foi quando em 1991 aconteceu algo que chamou muito a minha atenção – A notícia da ocorrência de um plebiscito na cidade pernambucana de Serra Talhada, onde a sua população deveria decidir sobre a colocação, ou não, de uma estátua para o cangaceiro Lampião, em uma área pública do município.



A Serra Vermelha, no caminho para a Passagem das Pedras , na zona rural de Serra Talhada, área onde nasceu Lampião– Foto – Rostand Medeiros
A ideia partiu de uma fundação local, que desejava com isso prestar uma homenagem ao maior bandoleiro nordestino, nascido na antiga Vila Bela, atual Serra Talhada. Mas as famílias das vítimas de Lampião, algumas delas das mais tradicionais da cidade, rejeitaram a proposta.
Com toda a polêmica que se seguiu, a prefeitura local buscou promover uma consulta pública para que a população decidisse sobre o caso.



Cangaço – História e cultura nordestina

Morando em Natal em uma época onde a internet ainda era limitada, tentei acompanhar da melhor maneira todo o desenrolar do processo, inclusive através dos jornais, TV e rádios. Mas as informações eram difíceis. Logo surgiu outra surpresa – O alcance da repercussão e de todas as polêmicas do caso junto à imprensa nacional!

Os principais jornais, revistas e emissoras de televisão no Brasil colocaram o tema na pauta e a cidade de Serra Talhada foi alçada as manchetes dos principais meios de comunicação.




No dia 7 de setembro de 1991 houve o processo de votação. Ao final a Justiça Eleitoral, que se envolveu no plebiscito, declarou que 76% dos eleitores votaram pelo “sim”, contra 22% do “não” e 0,8% de abstenções. Mas a estátua de Lampião, da forma como foi pensada em 1991, nunca foi construída.
Para alguns essa votação buscou criar o uso mercadológico da memória de Lampião e do Cangaço naquela cidade. Entretanto foi inegável que para alguém como eu, que vivo há quase 600 km de Serra Talhada, aquele processo despertou em mim um maior interesse por estudar e conhecer mais sobre esse tema. Desejava sair urgentemente da simplória questão “-Lampião foi herói, ou bandido?” Um amigo sociólogo já tinha me dito que “Para entender o Cangaço eu precisava fugir desse discurso rasteiro e polarizado e sair pelas estradas do sertão”. Tinha razão!



Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução
Não foi a toa que um dos primeiros lugares que viajei para fora do Rio Grande do Norte com esse intuito tenha sido a área de Serra Talhada e Triunfo. Lugares para onde voltei muitas vezes, continuo com vontade de retornar e fiz ótimas amizades. E nem me chateei quando descobri que toda essa onda de plebiscito para colocação da tal estátua, foi inicialmente uma ideia da fundação para vender turisticamente a cidade de Serra Talhada. Parece que os resultados positivos extrapolaram muito o que se desejou.
Nessa busca por conhecer mais e mais sobre o Cangaço eu não perdi nada. Acabei descobrindo muito além das polarizadas polêmicas que tratam das sangrentas lutas dos cangaceiros.



Junto ao Sr. Antônio Belo, do Sítio Tigre, no pé da Serra de São José, Luís Gomes-RN. Em agosto de 2009 esse Senhor me deu um fantástico depoimento sobre a passagem da Coluna Prestes na sua região em 1926 e sobre a entrada do bando de Lampião no Rio Grande do Norte em 1927.
Descobri as belezas e os problemas da minha região. Descobri a força da nossa gente, do colorido do Nordeste, bem como as histórias de Padre Cícero e de Leandro Gomes de Barros. Descobri Canudos, o belo Rio São Francisco, muito mais do Seridó e das minhas raízes. Descobri também Luiz Gonzaga e Exu, o Beato José Lourenço do Caldeirão, o Pajeú, o Piancó, a Missa do Vaqueiro de Serrita. Descobri Clementino Quelé, Jesuíno Brilhante e Patu, o Saco dos Caçulas em São José de Princesa, a rota de Lampião no Rio Grande do Norte para atacar Mossoró e muito mais.



No alto da Serra Grande, onde ocorreu o maior combate da história do Cangaço em 1926.
Independente das polêmicas envolvidas em 1991, do resultado final da votação, da ideia de quem ganhou e de quem perdeu com o pleito, ou se a imprensa manipulou negativamente o plebiscito, ou das consequências para a política local, para o turismo da região e para a identidade da cidade de Serra Talhada, eu acho que aquele evento eleitoral, que logo completará 30 anos, teve como maior mérito colocar toda uma comunidade nordestina debatendo sobre uma determinada figura histórica e sobre um período de sua história.



Foto colorizada de cangaceiros. Realizada a partir de um original em preto e branco, é uma arte do professor Rubens Antônio, que realiza um primoroso trabalho nesta área.
Não sei se esse tipo de situação ocorrida em Serra Talhada foi um episódio inédito no Nordeste e nem sei dizer se houve nessa parte do Brasil outros debates sobre temas históricos que tenham gerado tanta movimentação. Por isso acho que vale a pena comentar e recordar o que ocorreu no sertão de Pernambuco em 1991.



Fino trabalho de Mestre Aprígio, de Ouricuri, Pernambuco, fotografado na Loja do Vaqueiro, em Caruaru – PE – Foto – Sérgio Azol.
Concordo quando dizem que a memória de um lugar não é para se tornar mercadoria barata e nem ser mercantilizada de qualquer jeito. Mas não posso esquecer que não foi só na cidade de Serra Talhada que Lampião se transmutou de bandido para patrimônio cultural e turístico. Um exemplo está no meu Rio Grande do Norte. Mesmo sem plebiscito, a cidade potiguar de Mossoró também buscou uma utilização cultural e turística em relação a memória do ataque que sofreu do bando de Lampião em 13 de junho de 1927. Essa iniciativa até hoje é um sucesso!



Combatentes de Mossoró em junho de 1927.
Por esses dias, mexendo nos meus antigos, amarelados e preciosos papéis sobre história da minha região, encontrei uma página do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, que muito chamou a minha atenção na época. Adianto para os que conhecem mais sobre o tema Cangaço que a jornalista Letícia Lins cometeu deslizes em relação à história de Lampião. Mesmo assim eu decidi transcrever para os leitores do TOK DE HISTÓRIA esse texto, para trazer um pouco da efervescência que envolveu aquele plebiscito em 1991.
ESTÁTUA DE LAMPIÃO DESPERTA AMOR E ÓDIO NO SERTÃO
Texto – Letícia Lins
JORNAL DO BRASIL, domingo. 11 de agosto de 1991, 1º Caderno, página 17.



S E R R A T A L H A D A. PE — “Nem herói, nem bandido, é história. Diga sim a Lampião”. Petista, fã de Karl Marx. Che Guevara e Fidel Castro, o ator Anildomá Williams, autor da inscrição pichada nos principais muros de Serra Talhada, já decidiu: com roupa azul, adornada com lenço vermelho no colarinho, embornal, cartucheira, chapéu de couro e rústicas sandálias, vai fazer boca de urna para ninguém menos que Virgulino Ferreira, o famoso Lampião, em plebiscito no próximo dia 7 de setembro, nesta cidade sertaneja, a 497 quilômetros do Recife.
O plebiscito, coordenado pela Casa de Cultura de Serra Talhada, tem um objetivo simples: consultar a população para saber se Lampião, o filho mais polêmico da terra, tem direito a estátua em Praça Pública, na cidade de onde partiu quase menino para o cangaço e a fama. A iniciativa movimenta gente como Anildomá, divide os 100 mil habitantes de Serra Talhada, desperta controvérsias nas cidades vizinhas, provoca irados editoriais em jornais de Pernambuco, Bahia, Alagoas e fez chegar uma enxurrada de cartas à Casa de Cultura, algumas de estados distantes, como o Pará. Não é Para menos: agitador do início do século, homem destemido que enfrentou a polícia e os coronéis de sete estados nordestinos, entre caminhos trilhados a pé no meio dos espinhos da caatinga, Lampião ainda hoje desperta ódios e paixões. É tido como um justo pelos sertanejos, às vezes, como um demônio. Outras, como um deus.
Cinquenta e três anos após sua morte seus conterrâneos falam dele como uma lenda viva, e não escondem a expetativa diante do plebiscito, do resultado ainda imprevisível, com muita gente a favor, muitos contra e quase ninguém neutro. Pesquisa do jornal mensal Correio do Vale, na qual não foram computados os votos brancos nem nulos, mostrou que 55,06% da população se posicionam a favor da estátua, enquanto 4,94% se colocam contra. Não é preciso apelar para os números. Uma circulada pelo Fórum, igreja, praças e sítios mostra que a divisão está em todos os lugares, até mesmo na prefeitura. “Tenho oito secretários e só dois são contra a estátua, porque suas famílias foram perseguidas por Lampião”, diz o prefeito Ferdinando Feitosa (PFL), sem esconder um elogio rasgado ao cangaceiro: “Mais do que um bandido, ele foi um produto do seu tempo, espezinhado e maltratado por seus ricos vizinhos fazendeiros”. Ardoroso defensor da colocação da estátua em praça pública, o vice-prefeito Giovani Santos de Andrade Oliveira diz que os motivos que empurraram Lampião para o cangaço ainda hoje fomentam inimizades no Nordeste; “Terra e honra no sertão viram questão”, justifica. Os dois receberam sinal verde do principal líder político da cidade, deputado federal Inocêncio Oliveira (PFL-PE), para apoiar o pleito.






FOTO – Sérgio Azol.
De fuzil em punho — Lampião é história, só que fez a história de forma diferente, de fuzil em punho — afirma Tarcísio Rodrigues, presidente da Casa de Cultura e organizador do plebiscito. A consulta popular já despertou o protesto do juiz José Machado de Azevedo, que promete lavar as mãos; — Uma estátua de Lampião é uma apologia do crime. — Diz que sua atuação se limitará a fenecer urnas virgens para o pleito, de consequências imprevisíveis, segundo ele.
É ruim exaltá-lo numa terra onde andar com revólver na cintura ainda é simbolo de status e demonstração de machismo. 0 promotor Euclides Ribeiro de Moura Filho, um cearense que anda com uma cópia da certidão de nascimento de Lampião na bolsa, discorda do juiz: — Não se pode olhar a figura de Lampião apenas à luz do direito. É necessário considerar-se o momento histórico em que ele viveu, quando as volantes da polícia que desbravavam o sertão também despertavam o medo na população — encerra o representante do Ministério Público.



Um sertanejo nordestino, seu filho e seu jumentinho com os caçuás – Fonte -http://portaldoprofessor.mec.gov.br

Lampião – Da briga com os Nogueira ao cangaço
“Cabra macho, que merecia morrer na ponta do fuzil, e não na covardia”, para o ex-volante Luís Flor, que lutou contra o cangaço durante quatro anos; “menino bom. Mas doido”, para o padre Cícero Romão, e um “príncipe”, para Antônio Silvino, cangaceiro que durante quase duas décadas reinou absoluto no sertão, Virgulino Ferreira era o terceiro de uma prole de oito irmãos, cinco homens e três mulheres. Nasceu na localidade de Serra Vermelha, antigo município de Vila Bela, Hoje transformado em Serra Talhada.
Como todos os pequenos proprietários do sertão do Pajeú, o patriarca José Ferreira e sua mulher viviam do plantio de milho, feijão e de algumas cabeças de gado. A produção era alternada; colhia-se nos anos de bom inverno e se perdia tudo durante a seca. Mas isso não chegava a desanimar os Ferreira, principalmente Virgulino. Ao ver o roçado esturricado, ele juntava 14 burros e saia cortando as estradas poeirentas do sertão, vendendo mercadorias de cidade em cidade, voltava com os caçuás (cestos de cipó) vazios, mas de bolsos cheios. A profissão, ainda hoje, é conhecida no Sertão e tem dois nomes: tropeiro ou almocreve.
Por esse motivo, desde menino Lampião começou a chamar a atenção dos pais, dos vizinhos e dos sete irmãos. Pouco a pouco foi mostrando outras habilidades, não só de bom mercador. Confeccionava artesanato em couro, principalmente arreios de montaria, e vendia nas feiras. Foi um pequeno episódio, comum no sertão, onde qualquer besteira se transforma em questão de honra, que fez tudo mudar, segundo lembram, hoje, não só os Ferreira, como os Nogueira, o clã inimigo.



Zé Saturnino – Arquivo do autor
Chocalhos — Ferreira e Nogueira eram vizinhos. Um parente dos Nogueira, José Saturnino, se mostrou “despeitado” quando viu que o gado dos Ferreira andava na caatinga com uns chocalhos bonitos, dourados, comprados em Juazeiro do Norte, no Ceará. Até então, todos os chocalhos que chegavam à fazenda Serra Vermelha eram negros e sem graça. No sertão — onde o gado é criado sem cercado — o chocalho funciona como um meio de o vaqueiro localizar bois, vacas e cabras. Saturnino amassou o chocalho do gado dos Ferreira, que perderam bois e vacas. Para não ficar por baixo, os Ferreiras deram o troco, amassando chocalhos do seu gado. Saturnino não gostou; capou o cavalo de Virgulino. Virgulino cortou os rabos das vacas de Saturnino. A briga cresceu e o juiz de Vila Bela obrigou os Ferreira a se mudarem. Foram morar no distrito de Nazaré, hoje Carqueja, com uma condição; nem visitavam Serra Vermelha, nem Saturnino entrava em Carqueja. Saturnino quebrou o acordo e os Ferreira não gostaram.
Começaram a fazer arruaças em Carqueja. Foram obrigados a se mudar, desta vez para Alagoas, onde um amigo de Saturnino — a pedido deste — matou o pai de Virgulino e feriu um irmão. Virgulino decidiu vingar-se. Integrou-se ao bando do cangaceiro Sinhô Pereira e depois começou a agir por conta própria, com seu próprio bando. Seu poder cresceu, ele passou a ser temido até pelos governadores. Em 1926, chegou a propor ao governo de Pernambuco dividir o estado em dois: à capital caberia a administração do litoral, enquanto ele reinaria, sozinho, no Sertão. De cangaço em cangaço, Lampião terminou por ter a cabeça colocada a prêmio por 50 contos de réis. Em 1938, seu bando foi desarticulado, ele e seuscompanheiros foram degolados e suas cabeças exibidas em praça pública.



Voto a favor do compadre
Ela tem 92 anos, quase não anda, não gosta de falar muito, mas há um assunto que sempre a empolga e sobre o qual, dependendo da disposição e da saúde, discorre horas seguidas: a vida e morte do compadre Virgulino Ferreira, seu querido Lampião. Ela quer mais é ver a estátua dele na principal praça da cidade, ou no topo da montanha mais alta da serra que dá nome ao município.
— Não botaram a estátua do padre Cícero no Juazeiro? Por que não Lampião aqui? Ele não era tão bom quanto o padre Cícero — diz Especiosa Gomes de Luz, que nunca apareceu em jornal, revista, nem foi ouvida por sociólogos, antropólogos, que costumam derramar ciência e erudição sobre o Cangaço. Para ela, Lampião não passou de um justiceiro: “Ele tirava de quem tinha muito para dar a quem não tinha nem um pouco”. Conta que costumava costurar para o bandido e o bando, e que ele nunca se utilizou da amizade para pedir abatimento no preço das roupas: “Ele pagava muito e bem, e ainda dava os retalhos para fazer calções para os meninos”.



Lampião
Especiosa guarda boas recordações do Cangaço: “Quando Lampião chegava com seu bando, era uma festa, os pais confiavam, davam as moças para os rapazes dançarem com elas, e Lampião nunca descasou nenhuma”. Ela mostra que as volantes – forças policiais do governo que combatiam o cangaço – despertavam mais medo e eram mais violentas que cangaceiros; “Quando eles vinham, faziam incêndios, acabavam com tudo”. Relata que muitas vezes Lampião deu dinheiro a quem não tinha – Para festa de casamento, batizado e até compra de terra – e diz que não chorou quando soube da morte dele: “Já estava degolado, não adiantava chorar. Só fiz rezar por ele”.





Marca de bala depõe contra
Luís Alves Nogueira tem 86 anos, anda com dificuldade, com auxílio de UMA bengala, já não enxerga por um olho e tem alguns lapsos de memória. Mas há um fato que presenciou a 65 anos que ele recorda com a nitidez de um filme em cores; a invasão da Fazenda Serra Vermelha por Lampião e seu bando, quando os Nogueiras reagiram a tiros contra os cangaceiros, em uma luta sangrenta que durou sete horas.



 — Eles bandalharam tudo, queimaram a casa da fazenda, incendiaram o gado ficou tudo uma carniça só — conta, na casa grande da Fazenda Serra Vermelha, que ainda hoje ostenta nas paredes as perfurações de bala daquele tempo, e que guarda como troféus de resistência os torrões de barro que sobraram do ataque a fogo a sua residência. Domingos, filho de Luís, é contra a estátua de Lampião cm Serra Talhada: “Por que não a de padre Cícero? Indaga ele, que costuma visitar com o pai a cova do avô, morto por Lampião dia 26 de fevereiro de 1926.




Aquele foi o resultado da volta do cangaceiro às terras da qual praticamente havia sido expulso por influência do fazendeiro José Saturnino, na década de 10. O patriarca José Ferreira e os oito filhos foram obrigados a se mudar para a localidade de Nazaré hoje distrito de Carqueja, município de Floresta. Depois, mais vez foram tangidos para Alagoas, onde o tenente José Lucena – amigo de Saturnino – matou o pai e feriu um amigo de Lampião. Foi a gota d’água. Virgulino, que já havia se integrado ao bando de Sinhô Pereira, outro histórico cangaceiro, e jurado por ter a pistola como advogado — por não ter encontrado um que o defendesse nas questões de terra de Serra Talhada, resolveu se vingar.

Fonte: Tok de historia/Lampiao aceso.