sábado, 30 de novembro de 2013



30 de novembro

Aniversário de 50 anos do Teatro Municipal Severino Cabral – Uma das mais importantes casas de espetáculos de Campina grande comemora 50 anos de inauguração no dia 30 de novembro. Para festejar a data, a Orquestra Sinfônica Jovem da Paraíba apresenta concerto em homenagem ao Teatro Severino Cabral. O solista da noite será o trompista Robson Gomes. A OSJPB será regida pelo maestro titular Luiz Carlos Durier. A apresentação terá início às 20h e a entrada é gratuita. Ainda na noite festiva, a diretoria da casa entrega troféus a pessoas que fizeram parte desses 50 anos de história e também lança a revista Teatro Municipal Severino Cabral. A comemoração encerra com o Baile dos Artistas, que será conduzido pela música do DJ Diogo, a partir das 23h.


Um novo Fenart para um novo Espaço Cultural
Lau Siqueira¹



Somente a memória poderá nos salvar do abismo. Digo isto para falar do Festival Nacional de Artes – FENART que no próximo ano chegará à sua XIV edição e terá como tema a história do seu berço, o Espaço Cultural José Lins do Rego, Joao Pessoa,Paraiba ,o segundo maior do mundo, somente perdendo para o Centro Cultural George Pompidou, na França. Digo que somente a memória poderá nos salvar do abismo porque depois da tragédia acontecida na Boate Kiss, em Santa Maria e de outras tragédias semelhantes espalhadas poelo mundo, devemos entender que o grande festival é a vida. Considerando que antes dos últimos FENARTs corriam rumores pela internet dos perigos de uma estrutura que necessitava de reparos urgentes, podemos dizer que o alto investimento do Governo do Estado na recuperação dos equipamentos culturais é que é o grande FENART do governador Ricardo Coutinho. O Espaço Cultural José Lins do Rego estava em estado de choque, principalmente pelo alto grau de comprometimento das suas estruturas hidráulicas e elétricas. Não foram poucas vezes que artistas tiveram que se afastar, para dar lugar à chuva que caia em pleno palco. O Espaço Cultural estava ficando cada vez mais uma gambiarra perigosa. Todavia, mesmo numa situação de crise econômica (ainda mascarada pelo Governo Federal) e diante da maior seca das últimas décadas o Governador decidiu pela requalificação dos equipamentos culturais.No entanto, não me parece que o próximo FENART deva ser apenas mais um FENART. Ou que seja um evento para não marcar esta primeira gestão de Ricardo Coutinho sem o nosso maior festival. Não podemos reduzir o debate porque a gestão do Espaço Cultural, no comando de Lu Maia, resgatou políticas importantes como as publicações e outras tantas. As edições FUNESC estavam adormecidas à longos 16 anos. Ninguém mais reclamava sua ausência. O XIX FENART deve marcar, sobretudo uma nova era para o Espaço Cultural. Inclusive com a intensa reflexão sobre o que é, o que foi e o que poderá ser o FENART e o próprio Espaço Cultural. O que nos parece lógico é que aquele espaço público não pode ser tratado como um “elefante branco”, como um espaço de degradação física e de conteúdo frágil. O novo FENART terá a missão de nos apontar um novo caminho e uma nova perspectiva para as políticas públicas na Paraíba. Este novo caminho, entendemos, passa por novas estratégias, como a implementação de experiências permanentes de Economia Criativa e Solidária. Passa pela inclusão da produção cultural das diferentes regiões do Estado no cotidiano daquele centro cultural que é maior, inclusive que o Centro Cultural São Paulo.A Paraíba tem uma posição privilegiada. Fica exatamente no centro do Nordeste e na alça de mira da Europa. Estamos na terra de grandes ícones da cultura brasileira como Jackson do Pandeiro e Sivuca. Na terra de grandes pensadores da América Latina, como Celso Furtado. Temos uma produção contemporânea compatível com a história das artes no mundo. Em todas as áreas, em todas as linguagens, temos identidade e talento. Por que não usar isso como foco estratégico de uma política de desenvolvimento? Podemos gerar trabalho e renda para milhares de jovens, artistas, intelectuais, artesãos ou produtores culturais espalhados pela terra de Pedro Américo. Não é pouca a capacidade do povo paraibano de inventar caminhos. Talvez somente seja compatível com o tamanho da nossa capacidade de sonhar. O XIV FENART deve pautar esta inquietação. Não pode ser apenas um período marcado no calandário cultural. Isso não revelará absolutamente mais nada e nós queremos muito mais. Mais que isso: precisamos de mais e podemos ir mais longe.Para o próximo FENART não necessitaremos de grandes somas em dinheiro para garantir as atrações nacionais. As atrações convidadas deverão dialogar com este novo momento. O centro de tudo é a Paraíba e a sua diversidade cultural e se não for assim, não valerá a pena fazer mais um evento e minguar atitudes durante os próximos 12 longos meses. Estamos discutindo o FENART por aí. Vamos realizar uma Roda de Diálogo específica para discutir o evento e queremos construir propostas imediatas para problemas que se arrastam por décadas. Não se trata apenas de programação A ou B. Não vamos querer o debate fora do interesse público e fora de uma perspectiva de futuro. O que está passando diante de nós agora e é de inteira responsabilidade desta geração é a história. É na história que devemos consolidar ou não as mudanças necessárias, as transformações, as transgressões dos acomodamentos de vaidades. O novo Espaço Cultural abrigará o FENART, mas também deve se transformar em campo de extensão universitária. Deve ser um permanente espaço de convívio dos artistas paraibanos como o povo e com os sonhos coletivos. Somente assim valerá a pena. Mas, não entendemos isso, senão enquanto processo. Um plantio permanente para uma colheita segura. Por isso estaremos plantando mudas de tamarindo, oriundas do tamarindeiro do Pau D’Arco, que inspirou Augusto dos Anjos num dos seus poemas mais conhecidos. O FENART terá esse simbolismo e acontecerá com a reinauguração do Espaço Cultural. Sua mobilização e as suas definições já estão tomando as ruas, os becos, os sítios... na serra, no Sertão, no Seridó, no Cariri, no Curimataú e em nosso generoso litoral. Na verdade, a vida é que é nosso imenso festival e a história não nos poupará de um justo degredo, caso nos omitirmos diante dos maiores desafios.¹Lau Siqueira é poeta e escritor, gestor cultural e atual Presidente da Fundação Espaço Cultural José Lins do Rego.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013



                        José Walter Pires



Poeta de cordel, cronista e contador de causos, natural de Ituaçu, radicado em Brumado (BA). Sociólogo, advogado e educador Seus folhetos tem caráter social, educativo. Busca, principalmente divulgar as técnicas de elaboração da criação poética voltada para a metodologia da literatura de cordel. Produtor e escritor incansável de livretos de literatura de cordel. Com diversos títulos publicados, sobre temas variados, incluindo o folclore, fatos cotidianos, históricos, políticos, ambientais, educativos, sendo estes o seu principal foco 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013


O Cine Chinelo NoPE começa nesta quinta-feira (28/11) com programação que além de cinema, traz música, literatura e artes visuais, tudo ao ar livre e gratuito na Rua da Alfândega, no Bairro do Recife. A mostra prima pela espontaneidade. Não se sabe o que será exibido na tela, pois não há curadoria. Na sessão Caldo de Cana, qualquer pessoa, seja profissional ou amador, pode levar um vídeo (com até vinte minutos de duração), se inscrever gratuitamente para a sessão do dia e aguardar a recepção do público.

Em 2013, o evento abriu inscrição também para o envio de vídeos via correspondência e criou a Sessão Caldo de Cana Nacional, que acontece nesta quinta-feira (28/11). Com um total de 25 produções inscritas, nove estados brasileiros terão seus filmes exibidos. Os materiais só serão abertos no horário da sessão, às 20h30, como garantia da não curadoria. Na sexta-feira (29/11) e domingo (30/11) serão destinados aos vídeos inscritos presencialmente no mesmo dia, das 17h às 20h, no Bar Recanto da Moeda (Bar do João).




Programação da VI Mostra Interestadual do Cinema Paraibano - PB | RJ - "Encontro de Gerações" na UFRRJ, Campus Nova Iguaçu, nos dias 28 e 29 de novembro, das 18h às 21h. 

Após as sessões, haverá debate! Entrada Franca.

Uma ação do Projeto Cinestésico (UFPB), coordenado pela Profª Virgínia Gualberto, aliando pesquisa, ensino e extensão em cinema e educação. Uma iniciativa que traz reflexão, produção, exibição e debate da arte cinematográfica. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013



O secretário de cultura Chico César conta como sofreu racismo e participa da campanha "RACISMO UM CRIME QUE SE SENTE NA PELE" do Governo do Estado da Paraíba.

Foto: Kleide Teixeira



                                             Patrimônios Vivos


Fruto de um trabalho que desvela seres humanos comuns, mas que trazem como maior riqueza arte e conhecimento pulsando nas veias, "Pernambuco Vivo" - publicação que rendeu dois cadernos especiais no Jornal do Commercio e uma exposição homônima, na Torre Malakoff - acaba de virar e-book.

No material, a história dos 33 Patrimônios Vivos de Pernambuco, em narrativas que trazem à torna a importância e a contribuição de cada um deles para manter vivas as nossas tradições culturais. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013


                                    Como se diz aqui no sertão; A morte é um doido limpando mato.
                         Esse ano ela vem passando a roçadeira no que tínhamos de melhor nas artes...


 lamentamos a morte de um dos mais expressivos artistas plásticos pernambucanos, Gilvan Samico. Com trajetória e reconhecimento nacional, o mestre da gravura faleceu nesta segunda-feira por complicações decorrentes de um câncer, contra o qual lutava há vários anos.


O gravurista, desenhista e pintor aderiu ao Movimento Armorial na década de 1970, atendendo ao convite de Ariano Suassuna. Ao longo do tempo, sua obra foi depurada em linguagem própria, trazendo uma contribuição original ao acervo de gravuras do Brasil, sempre evidenciando o movimento de resgate do romanceiro popular e a literatura de cordel.



Algumas de suas gravuras, marcadas pelo apuro técnico da mistura de cores, luzes e texturas que ilustram personagens bíblicos, animais fantásticos e míticos integram o acervo do Museu de Arte Contemporânea, em Olinda.



                                         Carimbó

O carimbó ou curimbó, segundo consta, é fruto da criatividade dos índios tupinambás. Inicialmente, o ritmo indolente e lento trouxe pouco entusiasmo aos praticantes da dança. Com a chegada dos negros à região, estes foram introduzindo ritmos de andamentos rápidos, sincopados e movimentados, influindo na música e na coreografia da dança, que passou a ser agitada, cheia de giros e requebrados dos quadris. Os responsáveis pela mudança rítmica e empolgação da música são dois tambores, um mais longo e esguio, de sonoridade mais aguda, e outro maior em comprimento e largura, de som mais grave. Reunidos em seus contrastes, provocam uma batida que empolga, tendo a dança sido conhecida como limpa-bancos, pois ninguém conseguia ficar assentado.

O nome curimbó é de origem tupi (korfbo’), formado por duas palavras: curi que significa “pau oco” em,bó, que significa “furado”. Assim, temos curimbó como pau furado que produz som. Posteriormente o próprio povo foi trocando as letras de curimbó para corimbó (como ainda é chamado no município de Salinópolis) e para carimbo, como ficou nacionalmente conhecida a dança.
A dança do carimbo é de origem negra, brasileira, típica das regiões da Ilha do Marajó, no Soure, onde é conhecida por carimbo pastoril, e em Santarém, conhecida como carimbo rural. No município de Marapanim, arredores de Belém, estão alguns dos melhores grupos de carimbo da região, que guardam a fama de serem os maiores difusores do ritmo e da dança no Estado do Pará. Juntamente com os tambores, a música é realizada com a presença de outros instrumentos, como o banjo, que dá a marcação rítmica e serve de sustentação da dança, maracás, flautas, ganzás, reco-recos e pandeiros. A união desses instrumentos deu à música do carimbo um ritmo único, envolvente e extremamente sensual.


A dança, sempre em roda, tem passos característicos que imitam animais. Em determinados momentos, um casal vai ao centro da roda e a dançarina procura envolver com a sua saia o rapaz, que, imitando os movimentos de conquista de um peru, tenta fugir. Se a moça conseguir encobri-lo, continua dançando no centro, enquanto o rapaz é obrigado a sair e, envergonhado, deixa que outro entre na roda em seu lugar.
Em outra brincadeira, a dançarina coloca um lenço no chão, e o desafio está lançado: o dançarino que conseguir pegá-lo sem colocar as mãos ou o corpo no chão, e usando apenas a sua boca, conquistará a sua parceira e poderá dançar com ela a noite inteira. O carimbo é a dança mais difundida no Pará, e não existe data específica para ser dançado, embora sempre aconteça nos festejos juninos e nas festas típicas do Estado.

Nesta dança, as mulheres usam blusas que deixam ombros e barriga à mostra, muitos colares e pulseiras, rosas ou arranjos nos cabelos e saias com rodas largas e coloridas, normalmente de chitão, uma influência das danças do Caribe, de origem negra. Os homens vestem calças curtas até os joelhos, como os pescadores. Podem estar sem blusa ou com ela amarrada na frente. Ambos apresentam-se cheios de colares de sementes da região.
Fonte: CÔRTES, Gustavo Pereira. Dança, Brasil!: festas e danças populares. Belo Horizonte: Leitura, 2000.
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013


Fotógrafo Gilvan Barreto retrata a dualidade sertaneja no “O Livro do Sol”

Publicação é resultado de reflexão a partir da poesia de João Cabral de Melo Neto. Projeto teve incentivo do Funcultura.

O Sertão nordestino é retratado há anos em livros, filmes, na TV, matérias jornalísticas e fotografias como lugar de seca e miséria. O fotógrafo pernambucano Gilvan Barreto viajou ao sertão sem roteiro certo, justamente no auge da maior seca dos últimos 60 anos, mas buscava algo além da escassez. Sua inspiração inicial foi a poesia de João Cabral de Melo Neto. A partir da produção de imagens e da reflexão sobre a região inspirada na literatura, Gilvan Barreto construiu “O Livro do Sol”, obra com lançamento nesta quinta-feira (21/11), às 19h, no Capibaribe Centro da Imagem. A publicação foi organizada pela editora Tempo d’Imagens, com edição de Geórgia Quintas e do próprio Gilvan, projeto gráfico de Ricardo Gouveia de Melo e texto da jornalista Adriana Victor. O projeto teve o incentivo do Funcultura, do Governo de Pernambuco.

O livro traz os retratos sertanejos e as contradições da região: as relações entre água e seca, abundância e escassez, fotografia e literatura. O embate entre o homem a natureza, o concreto e o imaginário também estão presentes nas imagens. “Fiz um road book, ou melhor, um livro de “rodagem” como diriam os sertanejos. Peguei a estrada sem cartas nas mangas, sem objetivos predefinidos. Viajava apenas com duas ideias fixas: a água e a poesia de João Cabral”.

A ideia do livro surgiu a partir da celebração dos 70 anos de lançamento de “Pedra do Sono”, livro de estreia do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Apesar da centelha despertada por Cabral, a obra de Gilvan assumiu vida própria: “Não me interessava fazer um diário fotográfico. Não queria um livro de estrada, com anotações no caderninho, diário de bordo repleto de casualidades”.
“O Livro do Sol” é a segunda publicação criada pelo fotógrafo Gilvan Barreto. O primeiro livro foi “Moscouzinho”, lançado no ano passado, também com incentivo do Funcultura. Gilvan ainda explica o porquê do título. “Apesar do que o título pode sugerir, aqui não é o sol nascente que interessa. Mas o sol que evitamos, o sol que seca e destrói as coisas por lá: ‘O Monstro do Sertão’ (título de xilogravura de J. Borges). Uma fotografia que opera nas sombras pesadas desse sol. Este é um livro dos contrastes”.

Além das fotografias de Gilvan, o livro traz um texto de João Cabral de Melo Neto, cedido pela família do poeta. A ilustração da capa é um sol criado pelo escritor Ariano Suassuna, que também participou de conversas sobre o sertão com a equipe do livro.

Capibaribe Centro da ImagemInaugurado recentemente, o espaço funciona como galeria de artes visuais com foco em fotografia e como laboratório de revelação analógica e de impressão fine art com equipamentos de alta tecnologia. A iniciativa é do fotógrafo Chico Barros, referência no mercado profissional da região, com seu estúdio Sala de Foto.

Gilvan Barreto Fotógrafo pernambucano, que reside no Rio de Janeiro há oito anos. Participou de exposições coletivas no Brasil e no exterior, como em “Amrik – Um Retrato da Presença Árabe na América Latina”, mostra apresentada em mais de 20 países. É autor de “Moscouzinho” (Tempo D’Imagem, 2012). A publicação traz uma narrativa poética sobre a reinvenção de sua cidade natal, uma Rússia tropical e nordestina. O livro recebeu Menção Honrosa no POY Latam 2013. Foi finalista no prêmio Conrado Wessel de Arte deste ano. 

domingo, 24 de novembro de 2013



                                                                      Satwa



O raro ‘Paêbirú’ com Zé Ramalho é clássico, mas ‘Satwa’, desta vez com Lailson, é outra obra-prima do pernambucano Lula Côrtes, que não merece a obscuridade a que foi submetida por três décadas.Gravado em 1973, o disco traz a dupla tomada por uma lisergia pós-Woodstock, capaz de assustar incautos ouvintes em pleno 2001.
 Músicas como ‘Alegro Piradissimo’, ‘Valsa dos Cogumelos’ ou ‘Blue do Cachorro Muito Louco’ não deixa dúvidas sobre o conteúdo do vinil tosco, mas com ótimo som.Instrumental, com pequenas incursões vocais, o disco traz dez canções "produtos mágicos das mentes e dedos de Lailson e Lula", como diz na contra-capa do álbum, produzido pela dupla, mais Kátia. Além dos de Lula e Lailson, Robertinho de Recife também faz uma ponta no disco, tocando ‘lead guitar’ em 'Blue do Cachorro Muito Louco’, um blues lento e viajandão.O som predominante do disco, no entanto, é um folk nordestino/oriental, resultado da mistura da cítara popular tocada por Lula, e da viola de 12 cordas de Lailson.
 Algo como uma sucessão de ragas ou mantras, interpretadas por Cego Aderaldo movido a incenso, cogumelos e outros "expansores da musculatura mental", como diz Arnaldo Baptista.Fruto da cena nordestina pós-tropicalismo e/ou psicodélica, ‘Satwa’ foi "curtido" nos Estúdios da Rozenblit, em Recife, entre os dias 20 e 31 de janeiro de 1973.
 Participam do disco, ainda Paulinho Klein, que divide com Lula as "curtições fotográficas" e o engenheiro de som Hercílio Bastos (dos Milagres).Com tiragem limitada e distribuição basicamente regional, o disco desapareceu tão logo surgiu, permanecendo como uma lenda para o restante do país. Sem reedição em vinil, e inédito em cd, ‘Satwa’ ainda não entrou para o catálogo informal de cdrs que, mal ou bem, 
democratiza o acesso à história musical do país.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013




Em comemoração ao Dia da Música, celebrado nesta sexta (22/11), o cantor e instrumentista Siba Veloso,ex integrante da Banda Mestre Ambrosio,  apresenta o seu álbum"Avante", no Conservatório Pernambucano de Música (CPM),Rua Joao de Barros,Boa Vista,Recife,Pernambuco. O show acontece no Palco Mangueira, a partir das 16h30, e faz parte da Maratona da Música, evento promovido pela CPM em homenagem à data.

Também se apresenta, às 20h, a Orquestra de Rock do CPM, sob regência de Sergio Barza.



                                             Mestre Naninho

Naninho foi registrado com o nome de Martiniano Moreira de Carvalho, mas na comunidade de Bichinho, onde ele nasceu em 1962 e onde vive até hoje, todo mundo só o conhece pelo seu apelido. Bichinho (Vitoriano Veloso) é um povoado de aproximadamente 1000 habitantes, pertencente ao município mineiro de Prados e que fica há apenas 7 Km da famosa cidade de Tiradentes.

Quando era criança Naninho fazia seus próprios brinquedos amassando barro no quintal de sua casa. Bois, cavalos, porcos e galinhas de barro, eram seus brinquedos no tempo de criança.

O leitor pode perceber que a maioria dos artistas citados nesse blog, quando eram crianças tinham esse mesmo costume, o de brincar com o barro. Isso até então não revelava nada dos artistas que eles viriam a se tornar, era apenas uma brincadeira de criança pobre, mas que certamente eram os primeiros indícios da arte, começando a se expressar entre seus dedos.

Com Naninho foi assim, a brincadeira de criança estava longe de revelar o grande artista que ele viria a se tornar. Mas o caminho não foi simples, nem fácil. Aos 13 anos Naninho já fazia algumas pecinhas de madeira, mas teve que abandonar essa pratica porque, segundo ele, não tinham nenhum valor na região onde morava. Já adulto, começou a trabalhar como pedreiro na vizinha cidade de Tiradentes. Com o desemprego crescente, voltou para Bichinho.

Foi aí então que tudo começou. Era quase Semana Santa e a comunidade de Bichinho estava ameaçada de não poder realizar a procissão do senhor morto, porque uma igreja de Tiradentes não podia emprestar uma de suas imagens, como fazia todos os anos. Foi aí que Naninho arriscou o que nunca havia antes tentado: esculpir na madeira um Cristo para a procissão da Semana Santa. Ele conseguiu; de uma tora de madeira fez surgir um Cristo vergado pelo sofrimento. Segundo ele, tudo aconteceu sem nenhuma orientação... “fui fazendo e pronto”, diz. Segundo a família, “um milagre!”. Desde então, Naninho nunca mais parou.

 Naninho em seu ateliê. FOTO: Francisco Ribeiro do Vale.

Naninho diz que aprendeu com o barro e com o Toti (Antonio Carlos Bech), artista plástico paulista que “desembarcou” em Bichinho em 1991 e fundou a Oficina de Agosto, um projeto que tinha como objetivo garantir a sustentabilidade ambiental e da comunidade, através da valorização da criatividade artística individual e do trabalho coletivo. Atualmente, são 25 oficinas espalhadas pelas ruas do povoado repletas de turistas.

Naninho esculpe diversas peças na madeira: vai desde santos católicos a personagens mineiros. Seu estilo lembra muito o incomparável Aleijadinho, mestre do barroco mineiro. Mas sua peça mais emblemática é o Divino Esplendor (uma pomba esculpida em madeira, rodeada de raios, representando o Divino Espírito Santo), que foi criada por ele há mais de uma década. Antes os Divinos só eram encontrados nas igrejas de Minas Gerais... “hoje todo mundo faz, mas se olhar bem vai notar as diferenças”, diz.

 
 NaninhoDivino Esplendor. Madeira. Coleçao pessoal.

Naninhodetalhe Divino Esplendor. Madeira. Coleçao pessoal. 

Naninho, Agnus Dei. Escultura com tricotomia. Foto: Bianca Aun. Reproduçao fotográfica Catálogo 40 anos do Centro de Artesanato Mineiro, Belo Horizonte: SEBRAE-MG, 2010.

Hoje, aos 48 anos, Naninho emprega toda a família em seu ateliê. Seu genro Amilton Trindade Narciso foi o que alcançou maior destaque e hoje tem sido considerado por muitos como seu sucessor natural.

Contato com Naninho:
Av. Samuel Possa, 263 – Bichinho
36320-000, Prados-MG
Tel: (32) 3353-7013


Fonte Bibliográfica:
- Lima, Beth & Lima, Valfrido. Em Nome do Autor. Proposta Edital, São Paulo-SP, 2008.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013




               D. Expedita do São Gonçalo 


Nascida na cidade de Tianguá,municipio encravado na microrregiao da Ibiapaba,mesorregiao do noroeste do estado do Ceará num distante 9 de outubro,do ano da graça de 1939, Expedita Moreira dos Santos ou D. Expedita como é conhecida na redondeza, desde os 10 anos de idade, foi incentivada por sua mãe,uma brincante do folguedo popular,Dona  Dina Faustina da Rocha, participa das festividades e Dança de São Gonçalo, no distrito de Croatá. A dança é realizada pelas mulheres da comunidade, tendo a Mestre Expedita como “Mariposa” que organiza o grupo e dirige a manifestação ha 64 anos no Sitio Croatá.No ano de 2009 teve o reconhecimento da sua importancia para a cultura popular,quando foi agraciada pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceara,como Patrimonio Vivo da Cultura Cearense.   

terça-feira, 19 de novembro de 2013


Artesanato

Abriu hoje (19/11), no Galpão da Estação Ferroviária, em Caruaru a exposição “A arte de um povo”, com peças de artesãos do Alto do Moura, Arcoverde e Olinda. Dentro da programação da Semana da Consciência Negra, promovida pela prefeitura da cidade com apoio do governo do Estado, a mostra pretende buscar as raízes de nossa cultura.

A curadoria realizada pela Assessoria de Artesanato da Fundarpe e Secult junto à gestão do Museu do Barro de Caruaru (Mubac) buscou focar em artistas que tragam elementos da cultura afro em suas peças ou levantem a discussão da integração racial de alguma maneira. “Procuramos abordar uma observação das raízes, mostrando peças de artistas que tenham um pensar ou um agir relacionado à questão racial, independente se de serem negros ou não” , afirma Breno Nascimento, gestor da Assessoria de Artesanato

Integram a exposição a peça “O navio negreiro”, de Zé Alves, artesão consagrado de Olinda famoso por seus quadros e bonecos de madeira e as xilogravuras de Cacau de Arcoverde, que utiliza em seus trabalhos símbolos religiosos da cultura afro, além das peças dos artesãos de Caruaru.

Serviço:

Exposição “A arte de um povo” dentro da Semana da Consciência Negra
Local: Galpão da Estação Ferroviária, Centro de Caruaru
Dias: 19 a 23/11, das 14h às 22h.

                    Manoelzinho Salustiano

A palavra “paixão” aparece diversas vezes nas respostas de Manoelzinho Salustiano e, na maior parte delas, acompanha “cultura popular” e “maracatu” de um jeito arrebatado. Aos 42 anos, ele foi, até pouco tempo, presidente da Associação de Maracatus de Baque Solto e do Maracatu Piaba de Ouro. É também artesão reconhecido no mundo inteiro por seus bordados nos estandartes e golas de caboclo. Manoel Salu é o que podemos chamar de um cuidador da cultura popular. Abriu mão de viver nos terreiros, brincando maracatu, em nome da manutenção dessa mesma paixão. Seu pai, o famoso Mestre Salustiano, observou logo cedo que o menino Manoelzinho sabia “dar grito” dentro do brinquedo, que tinha talento pra administrar. E assim ele assumiu a função de cuidar dos grupos, dos brincantes e da memória, especialmente dos que fazem parte da cultura da Mata Norte pernambucana. “Ele soube deixar cada um com seu dom. Talvez se eu brincasse podia ter algum buraco nessa questão. Talvez eu não tivesse chegado onde cheguei, com a consciência do que é a cultura popular”, conta, falando sobre a sensibilidade do pai, Mestre Salu, e a clareza que hoje tem do seu papel nessa grande história. “Durante os três dias de Carnaval, por exemplo, meu trabalho é cuidar dos outros”.
Fpnc.org – Qual a sua lembrança de infância mais forte, mais presente?
Manoelzinho Salustiano – A minha primeira lembrança de infância é a minha mãe me levando pra brincar de Catirina. Ela colocava duas quengas de coco nos seios. No passado, na época em que eu era criança com meus 7 pra 8 anos, o pessoal dava dinheiro à Catirina, e minha mãe, no Carnaval, ganhava dinheiro brincando. Ela me levava e tirava brincadeira dizendo que o dinheiro era pra dar de comer à filha de Catirina. Então, eu ia vestido de Catirina também. Muita gente pensa que, por ser filho de Mestre Salustiano, meu início foi com meu pai, mas não foi, foi com minha mãe. Minha mãe foi a primeira esposa que se casou com ele, mas depois se separaram. Então, quando eu venho aprender mesmo com meu pai é por volta dos 14 anos, que é quando eu volto a morar com ele, e é quando eu aprendo, começo, vou pra faculdade de verdade da cultura popular. A partir dos 14 anos, é impossível não acompanhá-lo. Porque pra estar ao lado dele, era preciso acompanhar. Uma das coisas que ele sempre falava pros filhos é que se o cabra não tem um bom estudo tem que ser artista. Se não for artista, vai ser peão, vai ser empregado. Então, ele sempre passava isso pros filhos. E hoje a maioria dos filhos é artista, e dentro da cultura popular.
Fpnc.org – E o primeiro brinquedo?
Manoelzinho – O primeiro foi o maracatu, que sempre foi a minha paixão. Aí eu fui brincar de Balizeiro, que é um personagem do Maracatu de Baque Solto, depois fui brincar de Arreia-Mar, depois brinquei umas vezes de Caboclo, mas achei pesado e não quis mais. Aí fui brincar de Catita, que é a Catirina. Catirina é dentro do bumba-meu-boi e do cavalo marinho, e a Catita é dentro do Maracatu de Baque Solto. Aí fui brincar de Catita, brinquei uns seis anos. Comecei a brincar de Catita no Criança Olindense, que era um Maracatu Infantil que foi fundado pelo meu pai, e que depois eu tomei conta. Aí deixei o infantil e vim pra dentro do Piaba de Ouro já de Catita. Depois eu deixei de brincar, porque já tava muito envolvido dentro da Associação de Maracatus de Baque Solto, e não tinha mais tempo de ficar brincando Carnaval. Já estava administrando. Hoje em dia, eu só administro. Eu sou o Presidente do Piaba de Ouro, só posso bordar, e durante os três dias de Carnaval, por exemplo, meu trabalho é cuidar dos outros. Meu pai dizia que eu conseguia dar grito dentro do brinquedo. “Dar grito” é administrar.
Fpnc.org – Você sente falta de brincar?
Manoelzinho – Sinto, sinto. Muita falta. Pra mim, uma das coisas que eu mais queria era só bordar e brincar, mas infelizmente cada um tem sua função, e meu pai soube fazer isso com os filhos. Ele foi embora, mas os filhos todos se respeitam, cuidando do que ele deixou. Ele soube deixar cada um com seu dom. Talvez se eu brincasse podia ter algum buraco nessa questão. Talvez eu não tivesse chegado onde cheguei, com a consciência do que é a cultura popular.
Fpnc.org – E como começou a sua história com o bordado?
Manoelzinho – O bordado é minha paixão, é o que eu não consegui deixar até hoje. E eu tive sorte nisso, porque eu tive um amigo que era fundador do Piaba de Ouro. Ele não era um bom artesão do bordado, mas ele era um cabra cuidadoso. Um dia eu estou na sede, moleque, e ele está lá enfeitando um chapéu de baiana com lantejoula e miçanga, e me chama pra ajudar. Ele botava muita cola no chapéu, e quando eu ia botar lantejoula eu furava os dedos, achava ruim. Era o Manoel Mauro. Meu primeiro contato com o bordado foi com ele. E aí quando foi um tempo depois, eu o vi fazer uma gola, e a gola dele era com uns quadrados. Pensei: se alguém desenhar pra mim, eu vou conseguir bordar. Aí pedi pra meu tio desenhar uma arara numa roupa de Arreia-Mar, que era o meu personagem na época. “Minha gola vai ser uma arara”, eu disse. Quando eu bordei, foi aí que meu pai me deu o maior incentivo. Ele disse: “A partir de agora você não vai trabalhar mais na pá do caminhão”. Porque meu pai tinha um caminhão e a gente trabalhava enchendo com metralha, era um serviço pesado. Aí ele disse: “Não, você não vai fazer isso mais não. Você é um artista. Você vai fazer a gola do Piaba”. E aí o que eu ganhava em cada gola equivalia a três semanas no caminhão, porque ele incentivava, pagava bem. Ele era muito esperto com essas coisas. Então com o incentivo do meu pai, com o apoio das pessoas que estavam ali ao redor, eu comecei a desenvolver técnicas de gola. Meu pai me levava pra ver João Calumbi, o rei da gola! O homem que melhor bordou gola no mundo foi João Calumbi! É um cara que tem uma técnica de precisão. Onde colocar cada lantejoula você não via brecha.

Manoelzinho Salustiano bordando (Foto: João Rogério/divulgação)





















Fpnc.org – Você costuma dizer que o melhor horário para bordar é das 10 da noite às 5 da manhã. Por quê?
Manoelzinho – Porque a sua mente está calma. Eu acho que a noite é o melhor horário pra se concentrar. Quando você consegue ter inspiração, é quando seu corpo está pronto, está limpo. Durante o dia um telefone toca, alguem lhe chama, mas à noite não. À noite é o silêncio. Se você se concentrar ali, acabou. Depois que você for dormir lá pras 6, 7 da manhã, se você dormir seu sono tranquilo e ninguém atrapalhar, à noite você volta de novo. É que a arte requer calma. Porque não pode estar agitado. Se estiver agitado, não produz. Você pode ser o bordador mais fera do mundo, mas se você não estiver calmo, a gente encontra falha.
Fpnc.org – Qual a lembrança mais forte que você tem do seu pai?
Manoelzinho – Rapaz, são muitas. Meu pai era muito presente com os filhos, que eram 15. Eu tenho lembrança de ele chegar de 8 horas da manhã na minha porta, me chamando: “Negão, negão, passarinho não deve nada a ninguém e essa hora já tá acordado!”. Isso é uma coisa que eu nunca me esqueço dele. Uma das coisas fortes é que a paixão dele era a rabeca. Ele tinha uma paixão muito forte pela rabeca. Pro meu pai, se tivesse uma pessoa pra ouví-lo tocar, pra ele era como se tivesse uma multidão. Ele tinha prazer de tocar. Então, quando eu via meu pai sentado na frente de casa com uma rabeca, era uma coisa muito forte, porque mostrava pra gente a paixão que ele tinha pela cultura. São lembranças de ver meu pai numa Quarta-feira de Cinzas comer peixe salgado com farinha, e ter botado um maracatu tão rico na rua. Como é que o homem tinha todo dinheiro ontem e hoje não tem o que comer? São coisas fortes, e isso fortalece os filhos. E isso ajuda a manter o que ele fez.
Fpnc.org – E qual a importância dele pra sua formação como artista?
Manoelzinho – O incentivo, a educação. Ele soube me educar. Eu agradeço a Deus todos os dias por ter me dado um pai e uma mãe como eles. Apesar dos dois terem se separado, eles souberam educar os filhos. Minha mãe era muito rígida em relação a responsabilidade, e meu pai era muito mais. Os dois não alisavam, eles souberam fazer. Uma das frases do meu pai quando ele estava perto de ir embora, no hospital, era que o maior orgulho que ele tinha na vida era nunca ter tido que buscar um filho na delegacia. Isso não é fácil. Eu quero que alguém diga assim: “Vi alguém fazendo alguma coisa errada dentro da cultura popular”. A cultura popular é pura, não tem maldade, não. As pessoas é que fazem maldade. Mas a cultura popular é uma coisa que vem de berço, é sangue. Dentro da cultura popular você se torna gente de verdade. Porque dentro da cultura popular hoje você é uma Catirina, amanhã tu é o Mateus, mas depois tu pode ser um rei, uma rainha, tu pode ser um presidente. A gente é polícia, capitão, coronel. A gente cria nossas fantasias e aí a gente se torna autoridade. A cultura popular é uma coisa muito boa pra quem nasceu dentro. Cultura popular não é pra quem quer ir pra ela, você tem que ter no sangue. Se você não tiver não tem paciencia, não. Porque nós somos muito ricos, as pessoas não percebem.
Fpnc.org – Quando é que uma pessoa se torna mestre?
Manoelzinho – Ninguém se torna mestre, não. Isso é uma coisa criada. A pessoa se torna brincante, sabe? E o brincante tem a obrigação de repassar um ao outro, que é pra gente não deixar morrer a nossa história. Aí dizem que o cara que repassa é mestre. Mas eu não vejo dessa forma, não. Aí às vezes o pessoal me chama: “Mestre, mestre!”. Eu não. Agora meu pai, sim, era um mestre, pronto. Meu pai era um mestre. Meu pai ensinava muito, ele tinha prazer de repassar. Eu não me considero um mestre. Me considero um brincante, um apaixonado pela cultura. Às vezes, tem gente que me chama de mestre, principalmente depois que meu pai se foi. Mas eu não aceito, não. Manoelzinho, só isso. Eu sou só Manoelzinho.
Fpnc.org – E como você se sente sendo uma peça tão importante, como um cuidador dessa cultura, um articulador? Como é esse papel que você assumiu?
Manoelzinho – Quando eu tô fora do terreiro é muito triste, quando eu tô dentro do terreiro, eu me sinto forte, porque eu sei que não tô sozinho.

>> A MATA NORTE
Fpnc.org – Agora no Festival Pernambuco Nação Cultural da Mata Norte, você é a pessoa que está por trás da programação de cultura popular, articulando as pessoas, os grupos. Fale um pouco desse trabalho. 
Manoelzinho – Eu sempre falava: ou a gente cuida do terreiro, ou a gente vai perder os mestres. Porque o mestre se forma no terreiro. Aí o ano passado, Fernando Duarte me chamou pra uma conversa e eu disse isso pra ele. Aí ele depois me chama e diz assim: “Manoelzinho, vamos fortalecer os terreiros. Traga uma ideia”. Eu rascunhei uma ideia da gente fazer onde já existia. A gente só ia fortalecer, na verdade a gente não tava fazendo nada. Eu não criei nada, a Fundarpe não criou nada, a Secretaria de Cultura não criou nada. As pessoas têm uma mania de pegar o mestre de cavalo marinho e trazer pro Recife, botar ele em um palco ou numa rua. Eles se apresentam e vão embora. E por que não no terreiro desse mestre, a gente pagar pra ele brincar lá? E aí tem um público que é fiel. Ali vai estar um vendedor de picolé, um vendedor de churrasco, de cerveja, de refrigerante. O próprio dono da casa vai se sentir fortalecido, porque a comunidade tá indo pra porta dele, e eles vão voltar a enxergar ele de novo. O pessoal aceitou a ideia, e no ano passado foi muito bom. A gente só fez assim: a gente tá enxergando vocês. Só isso.
Fpnc.org – Como você vê a existência de um festival como esse da Mata Norte, que vai congregar tantas manifestações tão diferentes, em um período de tempo tão curto? Qual a importância disso pra região e pra Pernambuco?
Manoelzinho – Primeira coisa: você já imaginou que numa região só, numa noite, vão acontecer sete sambadas de maracatu de baque solto? Tem uma noite que vão acontecer três encontros de  cavalo marinho? Vai ter à noite encontro de cirandeiro, encontro de mamulengo. Isso prova o quanto a gente tem tanta coisa boa e o quanto ninguem tá repetindo nada, tá tudo acontecendo ao mesmo tempo. É a prova de que cultura ainda está forte, ainda está rica. Eu vejo isso como um ganho, como um grande incentivo.
Fpnc.org – Me parece que a Mata Norte é um lugar que tem muita cultura popular, que é muito rico.
Manoelzinho – Dentro da Associação de Baque Solto, nós temos 115 maracatus. Aí você vai encontrar Mestre Zé Galdino, que é um mestre de maracatu que canta ciranda e canta viola. Você vai encontrar Bio Caboclo, que canta coco e canta viola. Você vai encontrar Messias, mestre de maracatu que toca sanfona. Você vai encontrar Biu Passinho que canta ciranda. E aí vai. Você vai encontrar Borges Lucas, que é mestre de cavalo marinho. Mestre Grimário, que é mestre de cavalo marinho, e ele é de maracatu. Como a Mata Norte é muito rica e o folguedo mais forte é o (maracatu de) baque solto, você tem um contato com todo esse povo e a conversa é a mesma. Só muda que no Carnaval a gente faz o maracatu. Quando passa o Carnaval, a gente vai falar de mamulengo, de forró, porque tá chegando o São João. E aí vão se passando os folguedos e a gente vai falando, e são as mesmas pessoas! São simplesmente 12 mil brincantes de baque solto, e esses caras são que fazem os folguedos da Mata Norte.
Fpnc.org – O que faz da Mata Norte um terreno tão fértil, com tantas manifestações diferentes de cultura popular?
Manoelzinho – Eu acho que tem dois motivos: a mistura do índio que já tava ali, com o negro e o branco, e por estar próximo ao litoral. Eu acho que isso foi que fez essa cultura tão forte ali, dentro dos engenhos, essa mistura do branco com o negro e com o índio.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013


Lampião que vale um milhão

Obras de Cândido Portinari e Iberê Camargo ficam entre as dez mais valiosas em leilão nos EUA

Brasileiros ficam acima da estimativa na Christie's. Di Cavalcanti, José Pancetti, Roberto Burle Marx e Vik Muniz são vendidos na Sotheby's

 Dois leilões de arte latinoamericana foram realizados em Nova York e o Brasil teve representantes mais de uma vez na lista dos dez mais valiosos. No leilão da Christie’s, realizado na terça e na quarta, “Lampião e Maria Bonita”, pintado por Cândido Portinari em 1947, foi arrematado por U$S 482.500 (R$ 1.011.079).



Foto pescada in "O Estadão"

Ainda na Christie’s, a obra “Jogo de carretéis”, pintada por Iberê Camargo em 1967, foi arrematada por US$ 422.500 (cerca de R$ 884.715) e bateu o recorde de venda em seu acervo. A estimativa era de qua a pintura alcançasse um valor entre US$ 120 mil e US$ 180 mil.

Já nos leilões da Sotheby’s, realizados nos dias 19 e 20, "Fumo", obra pintada por Portinari em 1938, foi vendida por US$ 374.500 (R$ 784.765). Já "Caçador de onça", do mesmo autor, foi arrematada por US$ 98.500 (R$ 206.308), bem acima da estimativa, entre US$ 35 e 34 mil. O leilão também vendeu peças de Di Cavalcanti, José Pancetti, Roberto Burle Marx e Vik Muniz.

Com uma arrecadação de U$S 938.500 (R$ 1.965.219), “Horse”, de Fernando Botero ficou em primeiro lugar na Christie’s. O pintor ainda apareceu em quinto lugar com “Nun eating an apple”, de 1981, com um valor de US$ 602.500 (R$ 1.261.936).

Além de Camargo, Arnaldo Roche Rabell, Tomás Sánchez, Olga de Amaral, Carmen Herrera e Oscar Muñoz também conquistaram novo recorde mundial. No total, a Fundação Christie’s arrecadou US$ 13.614.800 (R$ 28.515.000) - veja todos os resultados da Christie's aqui.

A Sotheby's vendeu um total de US$ 23.130.251 (R$ 48.446.000).

domingo, 17 de novembro de 2013




                            João do Pife



Para João Alfredo Marques dos Santos, o pífano é a alegria transformada de forma artesanal. Com quase 60 anos de prática, ele pega a tora de taboca, serra, marca a escala, fura, toca. A partir daí, em qualquer canto que chega bota todo pra mundo dançar. “Alegria se faz assim, com um pedaço de madeira”, diz o músico e artesão, conhecido como João do Pife.
O que ele chama de dom foi herdado do pai e mestre Alfredo, quando moravam no pé da serra, em Riacho das Almas, a 18 km de Caruaru. No meio de bodes, ovelhas, dentro dos matos, na roça, plantando milho e feijão, quando a chuva dava.
Nos fins de semana, João saía pelos sítios tocando nas tradicionais novenas e romarias com os ternos de zabumba, como eram chamadas as bandas de pífano antigamente. E assim, ao lado do pai e de Severino, um dos seus sete irmãos, ele foi tomando gosto. E tocava na novena de Seu Mané, e tocava na novena de Seu Pedro.
O tempo foi indo e indo e o pai de João adoeceu, ficou cansado e entregou o terno de zabumba aos dois irmãos: “Ói Severino e João, vocês são pifeiros muito bons e nós gostamos. Eu tou cansado, mas não deixem acabar o terno de zabumba, que é uma tradição nossa. ”

Seu Alfredo ainda ficou muito tempo vivo, sempre acompanhando e admirando o trabalho dos dois filhos. Ainda mais quando um deles resolveu ganhar a cidade e saiu de um Riacho das Almas ainda sem energia elétrica.
“Se a gente ficar aqui no pé da serra, na roça, vai chegar um tempo que as novenas vão se acabar. Tenho que ir pra um lugar maior, pra ver se a gente fica mais conhecido”, pensou João do Pife. Enquanto ele escolheu ir, o compadre e irmão Severino quis ficar. “Eu chego lá e invento qualquer coisa”, disse um. “Eu não saio daqui pra Caruaru sem saber fazer nada lá”, disse o outro, emendando: “Mas, precisou de mim, mande recado que eu vou.”
Aí, lá se foi João. Novo. Matuto. Corajoso.
Alugou uma casinha no Salgado – bairro onde mora há 40 anos – e ficou pensando em como levar a vida. Começou a fazer pífanos para vender na feira de Caruaru, numa barraquinha ao lado do Mestre Vitalino. Chegava às 9h e quando dava 13h, estava cheio de turista do Recife, de São Paulo, da Europa. Tocava e o povo se surpreendia. Aí João conseguia o dinheiro da feira e juntava o do aluguel.
Começou a correr o boato de que o matuto estava muito bem. “João tomou conta da feira”. “João é desenrolado mesmo”. “É parada”. Nesse tempo, foi chamado para tocar no Recife, ficou numa ansiedade tão grande… Depois disso, foi ao Rio de Janeiro, a Salvador, a São Paulo, a Brasília, sempre levando junto o irmão.
Um dia bateram na porta:
– João do Pife?
–Tá falando com ele.
– Sou mandado aqui da Fundação Joaquim Nabuco para registrar você para ir pra Portugal.
– Poxa. E onde é isso?
Na outra semana, ligaram pro telefone da vizinha pra confirmar. João nem dormiu na noite anterior aos 14 dias que passou em Portugal com a banda. “Uma surpresa para matuto que nem a gente. Eu fui conhecer só Caruaru e cheguei bem mais longe”, lembra.
Aos 68, João só pede a Deus mais um bocadinho de vida pra desfrutar mais ainda o Brasil, a Europa, os amigos, o pífano e gravar seu segundo CD. E dentro da sua oficina continua a planejar maneiras de fazer vivo o som agudo do pife, que carrega no nome. Mesmo com as novenas se acabando, João adapta seu repertório e toca no Carnaval, no São João… Dos oito filhos que teve, quatro são músicos e participaram do primeiro CD.
Uma das histórias que João conta é que quando Jesus andava pelo mundo, Nossa Senhora resolveu fazer uma procissão. Mas, para não ficar só na reza, decidiu que tinha que ter uma musiquinha acompanhando. “Um cabra chegou com uma sanfona, um triângulo e uma zabumba e ela não aceitou. Depois, chegou outro numa viola, para acompanhar, e ela disse ‘Não’. Chegou uma coisa e outra, sempre recusadas. Até que chegou a banda de pífano e ela disse: ‘É essa mesmo. Com isso aí é que a gente vai fazer a procissão’”.
Se Nossa Senhora ouvisse o sopro de João, ela ia ter certeza de que não tinha errado. É novena, xaxado, xote, valsa. Tudo guardado na cabeça e tocado com maestria. Quando termina parece que o sorriso que ele dá é nota musical.

Chico Ludermir (texto) | Ricardo Moura (foto)