segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

                                                                               Em sua casa em Olinda: artista ganha show em que nomes como Ney Matogrosso releem suas obras


CELEBRAÇÃO A  ALCEU VALENÇA NO CARNAVAL  DO RECIFE


Nascido há 65 anos, na pequena cidade de São Bento do Una, no interior de Pernambuco, Alceu Valença se mudou com a família para Recife aos 9. E lá descobriu uma música tão fascinante quanto os aboios, as emboladas e o canto dos violeiros que ouvira na sertaneja primeira infância. Afinal, ele fora morar na Rua Palmares, um verdadeiro carnavalódromo.
— Eu via passar a maioria dos blocos que iam para o centro da cidade — conta o cantor, que ali então tomou contato com frevos, maracatus e caboclinhos que, anos mais tarde, fariam parte de sua música. Essa mesma que, em 2012, será homenageada pelo carnaval multicultural de Recife.
No ano em que completa 40 de carreira (que serão marcados também pelo lançamento de um DVD ao vivo e de seu primeiro filme como diretor e roteirista), o autor de frevos e de sucessos que viraram hinos da folia, como "Bicho maluco beleza", "Coração bobo" e "Estação da luz", ganha, dia 17, sexta-feira de carnaval, no Marco Zero, um show no qual Ney Matogrosso, Pitty, Criolo, Lenine, Otto, Lirinha e Karina Buhr irão reler suas composições.
— Vamos mostrar um Alceu mais inserido no contexto das novas gerações, que não o conhecem tão bem — conta Pupilo, baterista da Nação Zumbi, diretor musical do espetáculo.
Alceu, por sua vez, faz no carnaval uma maratona de shows por Recife, que começa no Baile Municipal (sexta) e segue pelo Galo da Madrugada (sábado), pelos polos de Ibura (domingo) e do Chão de Estrelas (segunda), fechando no Marco Zero (terça). É um agito a mais para quem está acostumado a acompanhar os festejos de Momo da vizinha Olinda, na sacada de sua casa, a "sede Olinda", que há muito virou ponto turístico da cidade. Passando por lá, o povo grita "Alceu, Alceu, Alceu!" quando ele aparece na janela.
— Um dia, um cara subiu numa escada que estava sendo usada para pintar uma sacada e apareceu no primeiro andar para fotografar a minha casa! — diverte-se.
Ele vê toda essa festa no carnaval como um grande tributo a Pernambuco, terra da qual se considera "um espelho que deu certo".
— Eu divido essa homenagem com os maestros Duda, Clóvis Pereira, Nelson Ferreira, Menezes, Formiga... e com o povo pernambucano, que luta pela sua maneira de se exprimir. Porque as rádios de Pernambuco não tocam mais a música de Pernambuco — alerta. — O que se toca aqui é muita música sertaneja, muita música baiana. Há 15 anos, assim que acabava o réveillon, começava o carnaval. Agora, só tocam a música de carnaval no dia em que ele começa. Música nenhuma será sucesso desse jeito.
O problema, diz Alceu, é que "o bailão tomou conta do sertão".
— O Brasil está com uma trilha sonora ridícula. O que se ouve em rádio não tem nada a ver com o Brasil. Ou vai para o lado americanalhado, dos cantores que ficam fanhosos para parecerem texanos, ou da obrigatoriedade de ser brega, de ter mau gosto — fuzila.
Por trás da dureza das críticas, está um artista com horror a modismos e dogmatismos.
— Na faculdade, existia uma briga muito grande entre chiquistas e caetanistas. Nunca me envolvi, porque os dois são bons — diz ele, que celebra em 2012 os 40 anos do lançamento do primeiro LP, com o cantor Geraldo Azevedo.
Os dois se conheceram no Rio, onde Alceu tinha arrumado emprego e apenas flertava com a música. Após ouvir algumas composições do iniciante, Geraldo o convidou para ir à sua casa no dia seguinte.
— Lá, ele me mostrou uma música e eu saí psicografando a letra, de uma canetada só. Era "Talismã" — conta Alceu.
Só quem não gostou dela foram os militares, que chamaram o cantor para uma conversa sobre a letra. Nela, o nome Joana aparecia perto da palavra "viagem", o que, segundo a lógica da Censura, constituía uma evidente menção à proibida marijuana.
— Aí eu dei uma sugestão: pode ser Diana, a caçadora? Diana perto da "viagem" não é maconha, não é mesmo? — recorda-se, às gargalhadas, pelo absurdo da situação.
E por falar em um quase-absurdo, Alceu avisa que "Luneta do tempo", o musical de longa-metragem iniciado há 12 anos, já está montado, faltando apenas a finalização para chegar às telas em 2012.
Com Irandhir Santos e Hermila Guedes nos papéis de Lampião e Maria Bonita, "Luneta" ainda tem um personagem, Severo Filho (Ari de Arimatéa), que sonha em ser Luiz Gonzaga. O que lembrou Alceu de que o velho Lua completaria seu centenário esse ano. Boa oportunidade para reler a obra do amigo, que conheceu em Juazeiro ("Ele disse que meu conjunto com guitarras parecia uma banda de pifes elétrica") e que gravou uma música sua ("Plano piloto", especialmente encomendada).
Em março, Alceu grava ao vivo, no Marco Zero, o DVD "Lua e eu".
— Esse show já está no meu computador há muito tempo, tenho toda a ordem das músicas — diz Alceu. — Os elementos da cultura que Luiz Gonzaga ordenou e levou para a indústria são os mesmos que eu tenho nas minhas músicas. Ele fala em lua em "Estrada de Canindé" ("que bom, que bom que é/ uma estrada e a lua branca/ no sertão de Canindé") e eu em "Solidão" ("a solidão dos astros/ a solidão da lua"). Será um DVD conectado.
Alceu atenta para o fato de que "esse ano vão aparecer dezenas de pessoas fazendo coisas pra Gonzagão". E pede coerência.
— As coisas têm que ter uma lógica. Eu não participaria, por exemplo, de um DVD sobre Roberto Carlos. Eu o admiro muito, mas não tenho nada a ver com a música dele!

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