quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014




                   Nuca de Tracunhaém (Mestre Nuca)

Manoel Borges da Silva, Nuca de Tracunhaém ou Mestre Nuca, nasceu no dia 5 de agosto de 1937 no Engenho Pedra Furada, município de Nazaré da Mata, Pernambuco. Considerado um dos mais importantes e expressivos artistas populares de Pernambuco, Nuca vive em Tracunhaém, cidade localizada na zona da mata norte pernambucana, distante 72 km do Recife. O município é um dos mais importantes pólos de produção de cerâmica artística e utilitária do Brasil. Segundo uma frase famosa “Em Tracunhaém ou barro vira santo ou vira panela”. A cerâmica artesanal é a principal atividade econômica da cidade.

O mestre Nuca se mudou com a família para Tracunhaém em 1940; seu pai era agricultor e se mudou para a cidade para trabalhar num roçado que a família havia comprado. Em Nuca, o gosto pela arte da cerâmica começou muito cedo; influenciado pelo trabalho de mestres como Lídia Vieira e Zezinho, ainda criança fazia no barro brinquedos inspirados em figuras do seu cotidiano, os quais eram vendidos na feira de Carpina, cidade vizinha a Tracunhaém. Em 1960 Nuca se casou com Maria Gomes da Silva, com a qual teve seis filhos. Foi somente em 1968, quando esculpiu seu primeiro leão, que Nuca passa a ser considerado um artista. No começo não vivia da sua arte; continuou trabalhando na roça, plantando para sobreviver.

Profissionalmente tudo começou quando um antiquário do Recife encomendou ao mestre um leão de cerâmica. O resultado foi uma grande e bela escultura de um leão sentado, com uma postura imponente de guardião, apresentando uma grande juba encaracolada feita com dezenas de fragmentos circulares, a qual se tornou posteriormente sua marca registrada. Desde então a arte de Nuca foi se tornando progressivamente conhecida e prestigiada. Ele afirma que a escultura do leão surgiu de uma idéia dele com a esposa Maria. O mestre conta que a idéia do leão foi dele, mas o cabelo foi dela; talvez inspirados pelos leões de louça portuguesa que decoravam os jardins e varandas de muitos casarões antigos do Recife. Porém, longe desta representação realista, estes animais nos remetem antes aos primeiros séculos da antigüidade clássica, onde representavam guardiões de lugares sagrados.

 Mestre Nuca e um dos seus leões. Foto: Alexandre Severo

       Mestre Nuca, leao, ceramica. Acervo da Coleçao Janete Costa. Foto: Marcelo Pereto

Os leões de Nuca resultam de uma concepção harmoniosa de volume e tratamento das superfícies, às vezes lisas, às vezes trabalhadas com jubas de pêlos encaracolados, ou então, sulcadas a faca. Outras peças também muito características da sua obra são as bonecas com as mãos cheias de flores e os cabelos cacheados. O mestre produziu ainda outras figuras como anjos, pinhas, peixes, galinhas e outros animais. O barro utilizado é de Cupiçura, na Paraíba, e as peças, queimadas em forno a lenha, não são esmaltadas, decoradas ou pintadas. O reconhecimento nacional da obra do mestre Nuca começou quando ele participou de uma feira organizada pela EMPETUR (Empresa Pernambucana de Turismo, ligada à Secretaria de Turismo do Estado) em 1974 na capital paulista. Sua obra ultrapassou as fronteiras brasileiras quando em 1980 expôs seus trabalhos em Lima no Peru e em 1987 participou da mostra Brésil, Arts Populaires em Paris, França.


  leoes, ceramica. Acervo da Coleçao Domigos Giobbi. Reproduçao fotográfica Pinacoteca do Estado de Sao Paulo.

Hoje infelizmente o mestre Nuca está impossibilitado de trabalhar com o barro. Em 2005 ele sofreu um acidente vascular cerebral que o deixou com lado esquerdo do corpo paralisado. Sua esposa Maria também já não trabalha; diabética, além de enxergar pouco, teve que amputar as duas pernas devido a complicações provocadas pela doença. Atualmente se locomove numa cadeira de rodas. Dos seis filhos que teve, três seguem o ofício do pai: Marcos Borges da Silva (Marcos de Nuca), José Guilherme Borges (Guilherme de Nuca) e Marcelo Borges. As obras dos três se confundem com a de seu pai e representa a esperança concretizada de que o trabalho do Mestre não terminará com ele.

As obras do mestre Nuca estão espalhadas em antiquários, coleções particulares, galerias de arte, museus e em alguns espaços públicos, como a Praça do 1º Jardim em Boa Viagem e a Praça Tiradentes, no Recife, e nos jardins do Sítio Burle Marx, no Rio de Janeiro.

Mestre Nuca é considerado “Patrimônio Vivo de Pernambuco”, título outorgado a ele em 2005 pelo Governo do Estado.


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