quarta-feira, 7 de agosto de 2013


                                    SEU  BENEDITO

Quando me apontaram à mesa, disseram: “É ele!”. Fui levado para cumprimentá-lo, e ele, prontamente e muito atencioso, apertou minha mão e se dispôs a conversar, logo mais. Fiquei por alguns minutos na dúvida se realmente era dele que falavam. E, na sequência, veio a confirmação: “É ele, sim!”. Surpresas à parte, vamos à apresentação: Benedito Manuel dos Santos tem 94 anos e é considerado o sanfoneiro de oito baixos mais velho do Brasil. Ele esteve, nesta sexta (2/8), em Triunfo, durante o FPNC, para receber uma belíssima homenagem. Ganhou uma nova sanfona de oito baixos para continuar fazendo o que sempre gostou em toda a vida: tocar!

É espantoso como a aparência e o vigor não entregam a idade que seu Benedito tem. Agilidade e firmeza de gestos, boa conversa (daqueles que começam a contar histórias e todos ficam em volta, ouvindo) e um jeitão caloroso de ser. Natural de Flores (município vizinho a Triunfo), seu Benedito não se lembra ao certo quantos anos tinha quando começou a tocar, mas sabe que era muito jovem. “Eu aprendi sozinho. Fui lá, peguei e toquei”, conta, sem cerimônias, sobre sua desenvoltura com o instrumento. “Já toquei muito nos cabarés por aí, nos forrós. Hoje em dia, não toco profissionalmente, mas se tiver uma dança, eu vou lá e toco!”. Ele considera muito fácil tocar sanfona. Na família, apenas um filho sabe tocar, mas, com um porém. “Ele toca outra sanfona. A de oito baixos, só eu mesmo”.
Entre aqueles que já viram o dedilhar de seu Benedito, um foi Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, que conhecia o seu pai. “Lampião era gente boa, mas seus cangaceiros, não. Se você tivesse um troquinho de nada, era capaz deles baterem em você, pra tomar!”, relembra, entre as histórias que conta do bando. Seu Benedito é uma dessas joias raras, que a família cuida com zelo, inclusive atendendo ao seu apelo por uma lapadinha de cana. “Bebida não faz mal. Sempre tomei!”, diz ele, após um gole bem disposto, para aquecer os dedos e se preparar para tocar. Ele tem um xodó, que é sua sanfona, comprada em 1942, em Triunfo, a seu “Antônio Migué”. Ela custou 150 mil réis, segundo Seu Benedito. O ciúme com ela está na cara. Ela vive trancada, a cadeado, numa pequena maleta de metal. Só ele pode tocá-la e ela vai com ele para onde ele vai. Só ele manuseia a maleta e faz questão de tirá-la de dentro e guardá-la.  ”Menino só serve pra bulir!”, explica seu Benedito sobre deixar a sua sanfona tão bem escondida.

Mas, dessa vez, uma nova sanfona chegava até ele. Uma Ronner alemã, modelo beija-flor, que recebeu das mãos de Anselmo Alves e Lêda Dias, do programa O Fole Roncou. Ao ganhar o presente, não se fez de rogado e pôs, literalmente, o fole pra roncar. Cercado por dezenas de curiosos, amigos e admiradores, ele fez o que melhor sabe. Entre algumas músicas, tocou “Chorão” de Luiz Gonzaga, e “O canto da ema”, de Jackson do Pandeiro. Seu Benedito é daqueles que se anima e não consegue mais parar. Empolgado que só ele, já prometeu até servir um bode gordo, em agradecimento àqueles que lhe presentearam.
No primeiro contato com a nova sanfona, ele, curioso, analisava cada detalhe e comentava aspectos técnicos de forma natural e espontânea. Disse que ainda ia aprender como se tocava nessa nova. Que nada! Alguns segundos e já estava ele, desfiando músicas a torto e a direito. “Eu não tenho muito costume com essa, não, mas o som é bom. A bichinha é aprumada!”. Pronto! Sanfona aprovada. Agora, seu Benedito tem todo o tempo pela frente pra tocar nessa e na sua sanfona velha de guerra. E nós, daqui, ficamos admirando esse verdadeiro artista.

POR LEONARDO VILA NOVA.

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