quinta-feira, 13 de julho de 2017




                                       CARA A CARA,DADÁ E ZÉ RUFINO

Maio de 1968. Jeremoabo, Nordeste da Bahia. Uma rua lamacenta, uma casa humilde. Aqui vive José Osório de Faria, Zé Rufino, de cama, meio paralítico por causa dos cinco enfartes que já sofreu. Ele sabe que Sérgia da Silva Chagas, a Dadá, vem vê-lo, como toda a cidade também sabe, pois as notícias correm de boca em boca, com a rapidez do telégrafo. Também deve saber o que Dadá quer dizer-lhe: que ele na matou Corisco em batalha, mas numa emboscada, traição.

No entanto, o que deveria ser um encontro feroz, de ódio, de palavras duras, acaba sendo uma troca de abraços comovidos, um pouco de alívio para um homem acabado, perto do fim. No quarto do doente, entra um moreno alto, forte, fardado:

- É você mesmo, Dadá?

Os dois se abraçam, Zé Rufino sorri. O homem fardado é Zé Rochão, soldado que participou da morte de Corisco. Chega mais gente que quer conhecer Dadá, a mulher de Corisco. Zé Rufino enxuga lágrimas com um lenço branco, os olhos estão baços da velhice.

- Eu não queria matar...

- Mas por que o senhor entrou para a volante?

- Com medo de morrer. Tinha medo dos cangaceiros e tinha medo da Polícia. A Fôrça me batia porque meus parentes acoitavam cangaceiros. Se eu ajudasse os cangaceiros, apanhava; se não ajudava, morria. Lampião chegou a me chamar para ir junto com ele. Não, não podia ir, era preciso ter coragem, não apreciava aquela vida, não. Não sabia o que fazer, acabei entrando para as volantes.

Zé Rufino, embora tranquilo, assusta-se quando a fotógrafa abre a maleta de couro para retirar um filme. Nesses trinta anos, a ideia de que algum filho de Corisco viesse vingar a morte do pai nunca lhe saiu da cabeça. Maria de Lourdes, a mulher de Rufino, conta que muitas vezes ele acordava sobressaltado de madrugada, revólver na mão, atirando.

Há três anos, discutiu com um soldado e teve o primeiro enfarte. De lá para cá, teve mais quatro. Nos últimos meses, tem piorado. Hoje, tem título de coronel. Ele olha para Dadá, sem uma perna que perdeu ferida pela mesma metralhadora que matou Corisco:

- Dadá, você nasceu errado, devia ser homem. Em muito lugar do sertão você tinha mais nome que Lampião. E seu filho Dadá, é um homem. Sílvio é um homem, mesmo.

Pega no lenço outra vez, diz baixinho: EU NÃO QUERIA MATAR CORISCO.

Manhã de sol, 4 de maio de 1930. Um domingo quase igual aos outros na Fazenda Baixo do Ribeiro, no sertão Norte da Bahia. Dadá, menina de doze ou treze anos, bate roupa na fonte , sonhando com o dia em que vestirá vestido de noiva e irá à capela, montada no burrico, ao lado de Cazuza. Em casa, Dadá ajuda a cuidar de oito irmãos menores, e ainda cozinha. A família vive de plantar e de algumas criações. O futuro de Dadá, moreninha e bonita, parece tranquilo. Ela bate e bate a roupa, que vai estendendo ao sol, nas pedras.

Então, de repente, aparece um sombra. Dadá olha para cima. É um homem com roupas diferentes, todo armado, chapéu de aba quebrada, muita firmeza no olhar. Diz simplesmente:

- Venho mais tarde para te levar comigo.

- Não. Eu não vou.

O homem alto e loiro vira as costas e se vai. Dadá está assustada. Sente um frio, medo, corre para casa, longe dali. O pai a recebe:

- Cazuza foi baleado por Corisco.

Um homem alto e loiro, cheio de armas. Era ele mesmo: o cangaceiro que a queria levar acabava de matar seu namorado. E instantes depois aparece, a cavalo, e ordena ao pai de Dadá:

- É esta mesmo, coloque na garupa, ande, vamos logo!

Dadá apenas chora. O cavalo parte a galope.

Nasce um cangaceiro

Cristino Gomes da Silva Cleto, Corisco, o “Diabo Loiro”, nasceu em Matinha de Água Branca, na serra da Jurema, Alagoas. Cedo aprendeu a lei fundamental do sertão: lavar com sangue qualquer desonra sofrida. E desonra pode ser uma simples ofensa, como pode ser o defloramento de uma irmã, uma calúnia contra algum parente. Corisco se forma assim: sertanejo humilde, mas pronto a cobrar uma dívida de honra com a ponta do punhal.

Foi essa lei que Corisco teve que enfrentar bem cedo. Coisa à toa. Uma festa de fazenda, cachaça para todos, música e dança para animar. De repente há uma briga. Corisco, com dezesseis anos, ou menos, é ofendido, e mata. Mata um homem que é protegido do coronel mais da região. Precisa fugir, pois mais dia menos dia, o coronel mandará matá-lo. Corisco pensa: se conseguir embrenhar-se na caatinga e encontrar o banco de Lampião, está salvo. Assim tinha feito tantos outros, como Labareda, cangaceiro famoso que aos 17 anos assassinou o soldado que violentara sua irmã. Lampião aceitava homens assim, valentes, destemidos. Só não aceitava quem estava sendo perseguido pela polícia por roubo ou defloramento. Era uma lei também.

Foram meses de andanças para Corisco, roubando para comer, fugindo, a pé, a cavalo, como podia. Até encontrar o bando de Lampião, que descansava à beira do rio São Francisco, bem perto da Fazenda Baixa do Ribeiro. Então Corisco conheceu Dadá.

Um revólver inútil

Na Fazenda Baixa do Ribeiro viviam algumas famílias. A de Cazuza, namorado de Dadá, tinha muito gado, e andavam sumindo algumas cabeças. Certamente seriam os “bandidos” que viviam ali por perto. Alguém avisou a polícia, possivelmente Maria Quileta, tia de Corisco e mãe de um dos rapazes que se tinham juntado ao bando de cangaceiros. No entanto, ela mesma urdiu toda uma intriga, dando a entender que quem tinha feito a denúncia fora Cazuza, mais o pai de Dadá. E Corisco em pessoa veio para vingar-se. Ao pai de Dadá, perdoou, mas não perdoou à família de Cazuza.

Gregório Silveira Nascimento, irmão de Cazuza, hoje com 58 anos, chapéu largo, alpercatas nos pés, roupa de brim, óculos, pele morena e rude, chega a chorar quando lembra aquele dia. Enquanto fala, acaricia o revólver, agora inútil, não tem em quem vingar-se pela morte do irmão, há 38 anos. Gregório conta:

- Cazuza tinha dezoito anos. Estava de joelhos, tirando leite da vaca. Feliciano, meu irmão mais velho, viu quando Corisco chegou e destravou o mosquetão. Pensou em correr, mas resolveu ir em defesa de Cazuza. Não deu tempo. Quando Cazuza levantou, Corisco atirou, de pouca distância. O tiro pegou no ouvido direito, ele caiu com a cara dentro do leite. Quando Feliciano se aproximava, outro cangaceiro, Beija-flor, atirou nele, mas errou. Feliciano se atracou com Beija-flor. Corisco atacou, com um punhal. Feliciano se afastou, mas a arma entrou no pescoço e varou até a boca. Feliciano também é vivo ainda hoje.

Deixando os dois corpos estirados no chão, Corisco foi conversar com a mãe de Cazuza, que, segundo Maria Quileta, também tinha denunciado os cangaceiros.

- Me mandaram aqui para dar uma surra na senhora e lhe cortar os cabelos, mas eu não sou homem de maltratar mulher, então matei seu filho.

- Você matou meu filho, mas foi injusto, porque ele não tem intriga com ninguém. Cazuza é irmão de leite de Rafael de Silvestre, e Rafael de Silvestre é seu primo, Corisco.

Os parentescos e amizades são muito respeitados no sertão. Ante a revelação da mulher, Corisco chegou a chorar arrependido. E, antes de partir para raptar Dadá, ouviu a mulher dizer:

- Nossa Senhora que cubra com seu divino manto. De mim o senhor é perdoado. Matou meu filho, mas foi injusto.

Chega o amor

Jovemzinha de treze anos, Dadá foi levada para longe dali. Corisco a violentou, ela quase morreu.

- Eu não podia mais ver meus pais. Era “mulher de cangaceiro” e, se fosse à casa deles, eles seriam considerados coiteiros pela Polícia.

Coiteiro era qualquer pessoa que ajudasse os cangaceiros.

- Mesmo assim, meus pais apanharam da volante, minhas irmãs de cinco e nove anos passaram frio e fome na cadeia, meus irmãos tiveram as unhas arrancadas. Minha mãe quase morreu de tanto desgosto.

Três anos ficou Dadá nessa vida angustiada, na casa de uns tios de Corisco, odiando-o, vendo-o uma vez ou outra, até que um dia ele disse:

- Agora você pode ir com a gente, já tem mulher no grupo.

E Dadá, a sertaneja calma, serena, de pouco falar, colocou suas muambas nas costas e saiu para enfrentar uma vida de tiros, correrias, a luta contra a polícia na caatinga, dormindo ao relento sobressaltada, comendo quando houvesse comida.

- Às vezes dormíamos em travesseiros recheados de dinheiro e não havia o que comer. Mas, quando a polícia dava folga, tudo de bom se tinha, perfume, cavalos. Vivíamos como as mulheres da sociedade, ao pé do marido, como dona de casa... como estou vivendo hoje em minha casa.

Em 1932, a perseguição policial apertou. O grupo se dividiu em dois, um com Lampião, outro com Corisco. Foram para o Raso da Catarina, vasta região ao norte da Bahia. Agora não podiam mais andar a cavalo, pois os animais chamavam a atenção. Então, encantada com a delicadeza e o carinho de Corisco, Dadá começa a gostar dele.

- Quem não ama o homem que carrega a gente no colo pra gente dormir?

Corisco resolve casar com Dadá, e a cerimônia é realizada pelo Padre José Nunes da Rocha, hoje pároco em Feira de Santana-BA.

O primeiro filho de Dadá, Josafá, nasceu a 1º de maio de 1933, época dura para os cangaceiros, cercados por todos os lados, perseguidos, andanças sem descanso de um canto para outro.

- Fiquei com esse menino três meses. Por todo canto era tiro. O pobrezinho estava assadinho, chorava, eu não sabia o que fazer. Deixei com umas pessoas conhecidas, mas ele morreu.

Dadá compreendeu que não era possível criar os filhos:

- Foi horrível ter meus filhos e não poder carregar. Sabe levar os meninos seria morte certa, aquilo não era vida para anjo. Tive sete. Três estão vivos: Celeste, casada, com dez filhos; Maria do Carmo, com três filhos e Silvio Bulhões, que é economista e tem seis filhos. Todos eles foram criados por amigos. Mas nasciam na caatinga, onde eu estivesse. Celeste nasceu durante uma perseguição.

Onde está Lampião ?

Para o homem comum do Nordeste, ainda hoje, cangaceiros eram heróis, homens fortes que lutavam por justiça e liberdade. Eram quase sempre sertanejos, altivos, orgulhosos. Do outro lado, as volantes, a polícia que os caçava em nome da lei. Entre dois, estavam os sertanejos, numa posição delicada: se não tinham armas em casa, eram acusados de “coiteiros”, se tinham armas e repeliam os cangaceiros, acabavam sendo assassinados por eles.

Dadá conta que seu bando entrava em fazendas ou povoados e primeiro pedia dinheiro, ou comida. Se não recebesse, tomava à força.

- A gente respeitava as famílias, senão ninguém queria ser amigo da gente. Nossos bandos não faziam as misérias que vi no sertão. Por onde andei encontrei muita coisa ruim das volantes. Antônio Marcionílio, cortaram a barriga dele, perguntando: “onde está Lampião? Você vai dar conta”. Isso foi na fazenda Gravatá, Estado de Alagoas. Quando achavam que o homem era amigo nosso, aí era horrível. Às vezes penduravam de cabeça para baixo numa árvore e jogavam pedra. Quando pegavam um cangaceiro vivo, primeiro perguntavam se tinha medo de morrer. Geralmente, o “cabra” dizia que não. Então mandavam cavar um buraco, matavam e enterravam.

O grande cerco

Foi em 1931 que Dadá conheceu Lampião.

- Tinha traquejo desde menino. Às vezes a gente estava sossegada, na fazenda de algum coiteiro, quando ele olhava para um lado, concentrado, e dizia: “Vamos embora que aí vem a polícia”. Um dia, o dono da casa disse: “Que polícia, que nada, compadre. Vamos estourar umas pipocas”. E Lampião respondeu: Estourar pipoca, não. Em dez minutos vai estourar é tiro”. Saímos imediatamente, e no outro dia soubemos que a polícia chegara ali minutos depois.

De outra vez, a volante suspeitou que um vaqueiro fosse “coiteiro” de Lampião. Os homens da Polícia chegaram e o ameaçaram:

- Você sabe onde Lampião está? Vai dizer, senão morre.

O vaqueiro sabia, mas respondeu que não passava de um simples peão. No entanto, se a volante quisesse, ele iria dar uma espiada por ali, enquanto recolhia o gado. O rapaz foi, encontrou-se com Lampião e explicou tudo. Pediu a Lampião que achasse uma solução, pois se voltasse para casa sem dar notícias dos cangaceiros, a volante saberia mais tarde que eles tinham estado ali e o matariam.

Dadá não se cansa de elogiar a inteligência de Lampião:

- Ele pegou os chocalhos dos bois, colocou nos pescoços dos seus homens, e tocaram para a casa da fazenda, onde a volante esperava o vaqueiro. Os soldados foram apanhados todos desprevenidos, foi aquele inferno. Não sobrou um. Lampião tinha muito traquejo.

Um homem assim teria que morrer como morreu, traído por um “coiteiro”? Lampião e seu bando, uns 35 homens, estavam acampados numa espécie de caverna, de frente para o rio São Francisco, na Fazenda Angicos, em Sergipe. A volante os cercou pela frente, alguns soldados ficaram por trás, sobre os altos da caverna. Quando perceberam o cerco, muitos se lançaram correndo para a frente, e foram mortos por trás, como Maria Bonita, mulher de Lampião, baleada nas costas. Lampião e mais dez morreram. Quinze conseguiram fugir. Soldados daquela volante, vivos ainda hoje, se espantam com a coragem dos homens de Lampião. E confessam que tinham medo deles. Alguns estudiosos explicam a derrota de Lampião por uma questão muito simples: ele e seus homens não haviam atualizado os armamentos. Enquanto as volantes recebiam já metralhadoras e outras armas mais eficientes, Lampião continuava com seus fuzis, revólveres e até punhais tradicionais.

O tiroteio em que Lampião foi morto, ouviu-se da outra margem do rio São Francisco, do lado de Alagoas, onde estavam Corisco e seu bando. Porém ele não podia atravessar as águas para socorrer o companheiro.
As cabeças dos cangaceiros mortos naquele dia, 11 de junho de 1938 , inclusive as de Lampião e Maria Bonita, foram cortadas e enviadas ao Museu Nina Rodrigues, em Salvador.

Diga que matei

A morte do líder, Lampião, pôs em pânico o resto do bando. Mas logo o pânico se transformou em ódio, vontade de vingar. O vaqueiro Domingos, o “coiteiro” que acreditavam haver traído Lampião, estava com os dias contados.

Corisco esperou uma boa oportunidade, e dias depois dirigiu-se com seus homens à casa do vaqueiro, onde matou o mesmo número de pessoas que a volante tinha matado. Dadá lembra as cenas horríveis:

- Vi cabeças decepadas, enquanto os cães uivavam na noite escura. Num canto, escondida, vi uma moça gorda protegendo duas crianças, que de tanto medo nem conseguiam mexer-se. Fiquei com pena. Disse à moça: “Vão embora daqui, fujam por trás, pela porta dos fundos”.

Foram as únicas que escaparam. Uma criança salvas ainda vive, trabalha em Paulo Afonso. Todos os outros da família do vaqueiro Domingos foram assassinados. Corisco arrancou-lhes a cabeça, colocou numa rede e mandou um velho de nome João Crispim de Morais levar ao Tenente Bezerra, que tinha comandado a matança do bando de Lampião. Dadá não esquece o recado que Corisco mandou o velho dar ao tenente.

- Diga a ele que faça uma fritada com as cabeças. Diga que matei também duas mulheres para vingar as duas que foram assassinadas em Angicos.

Corisco não imaginava a injustiça que tinha cometido. O vaqueiro Domingos era grande amigo de Lampião e jamais o trairia. Tempos depois, soube-se que o delator de Lampião era outro vaqueiro, chamado Pedro, que vivia perto dali.

O último encontro

Depois disso, Corisco pensou em dissolver o bando. Não conseguiam mais dormir tranquilos. Chegavam a ter dois encontros por dia com os homens da polícia. As volantes agora estavam usando muitos sertanejos, até mesmo ex-cangaceiros, como rastejadores. Eram homens que conheciam a caatinga, corajosos, hábeis, os únicos capazes de enfrentar os cangaceiros em condições de igualdade. Num dos encontros, Corisco é ferido.

- Foi em Lagoa da Serra, Sergipe. Estávamos num rancho, esperando que viesse o almoço. Como demorasse, fomos para a casa da fazenda. Chegando lá, estava a Fôrça nos esperando, tinham descoberto nosso esconderijo. Estavam emboscados, metralhadoras todas no chão. Vínhamos eu e Roxinho na frente, Roxinho caiu logo, Corisco foi metralhado nos braços. Logo que percebi os tiros, tomei o fuzil de Corisco, enrolei os braços dele, carreguei-o para fora do cerco e assumi o comando.

Foi este o último encontro de Corisco com a volante, antes de morrer.

Se entrega Corisco... o fim triste !

1940. O sertão à tranquilidade. Os cangaceiros estão desarvorados. Por ordem do Governo da Bahia, aqueles que deixassem as armas podiam entregar-se ou seguir viagem para outro Estado. Não seriam punidos. Nem cortariam mais cabeças.

Dadá e Corisco, escondidos ainda, na casa de um sertanejo, já estão decididos, Corisco cortou os longos cabelos, guardou as armas numa mala, vão desaparecer no mundo, mudar de vida, trabalhar.

Acabaram de almoçar. No terreiro um cavalo encilhado os espera. Eles saem com as malas. A lenda diz que alguém gritou: “Se entrega Corisco!” E que ele respondeu: “Eu não me entrego, não!” Mas foi diferente. Corisco e Dadá estavam botando as malas sobre o cavalo, quando se ouviu uma rajada de metralhadora. Dadá saltou, pulou uma cerca, já atingida por um tiro no tornozelo. Ao levantar o rosto, viu vários soldados à sua frente.

- Estava certa de que ia ser sangrada ali, na hora.

Um soldado berrou:

- Vamos matar logo essa...

- Não toquem nela! – gritou a voz de comando. Era Zé Rufino.
Dadá encarou-o:

- Podem me matar, mas não deixe me judiar, Zé Rufino.

- Não vai pegar em arma nenhuma.

- Então corte você mesmo...., respondeu Dadá.

Mas ninguém teve coragem de cortar.

A viagem de carro de boi durou dez horas. Corisco pedia água e dizia, inconsciente, o nome da companheira. Morreu antes de chegar ao hospital.

(Zé Rufino não permitiu que cortassem a cabeça de Corisco, como acontecera a Lampião e Maria Bonita. Mandou enterrá-lo. Mas, cinco dias depois, as autoridades o desenterraram, cortaram a cabeça e o braço direito do cangaceiro e os enviaram também ao Museu Nina Rodrigues, em Salvador. Silvio, um dos filhos de Dadá e Corisco, luta, ainda hoje, para retirar do museu a cabeça do pai.)

Fonte: REALIDADE – EDITORA ABRIL – ANO III – NÚMERO 31 – OUTUBRO 1968  E BLOG DO MENDES.
Entrevista e fotos de Christina Matta Machado

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