domingo, 23 de janeiro de 2022

DUDU NICÁCIO

Nesses rápidos 10 anos de carreira, Dudu Nicácio, para além dos dois discos lançados, se tornou um dos maiores agitadores culturais de Minas Gerais, sendo o responsável pela idealização e realização de projetos, como: Do Morro ao Asfalto (circuito de samba nas favelas de BH); Choro Livre (festival de chorinho nos mercados de MG); Nova Música Instrumental Mineira (mostra realizada nos parques de MG); Bloco da Cidade (um dos marcos da retomada do carnaval de rua de Belo Horizonte e da revitalização da quadra do GRES Cidade Jardim); Samba da Madrugada (há 5 anos o projeto criado por Dudu Nicácio, Miguel dos Anjos, Mestre Jonas e Mário Moura tem unido boemia e cultura às madrugadas da capital mineira); Samba do Compositor (um dos principais projetos responsáveis pela efervescência da cena de samba na capital mineira).
Já participou de eventos, como: Favela Chic – Paris, Onda Jazz e Chapitô– Lisboa, Seidvilla – Munique (2009); Conexão Vivo (2008 a 2011); Conexão Telemig Celular (2005 a 2007); Aniversário da Rádio Inconfidência (2005 e 2008); Ano Brasil na França – mostra paralela (2006); 6º FIT no Espetáculo Pó da Terra, como compositor e ator (2006);
Realiza shows nos mais variados espaços culturais do país na companhia de inúmeros artistas, dentre outros: Dona Ivone Lara, Riachão, Monarco, Rolando Boldrin, Hermínio Bello de Carvalho, Nei Lopes, Noca da Portela, Almir Guineto, Moacyr Luz, Chico César, Titane, Vander Lee, Fabiana Cozza e Teresa Cristina de 2001 até a presente data;
É diretor da agência cultural Ultrapássaro e exerce, ainda, a coordenação técnica do Programa Polos de Cidadania da UFMG. FONTE: http://www.dudunicacio.com.br/biografia

RESENHA DE SAMBA | EPISÓDIO 3: OCEANO BRILHANTE

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

MESTRE BARACHINHA

Era manhã de domingo, em Nazaré da Mata, e José Profírio acabava de chegar de Chã de Fogo, em Itaquitinga (PE), onde havia passado a noite assistindo maracatu. Guardião de décadas de sambadas na memória do corpo, ele sentia que aquela poderia ser sua última vivência no baque solto. Ao descer do carro, fez questão de admirar a manobra de encerramento do Estrela Brilhante (fundado em 2001), que se aproximava sob os comandos de seus filhos Manuel Carlos, na poesia e no apito, e Severino, regendo os caboclos de lança. Maria Maçunila, sua esposa, aguardava à porta, esforçando-se para enxergar toda movimentação. Esse episódio foi fotografado, emoldurado e hoje enfeita a parede da sala de uma casa do bairro nazareno do Juá. Há 13 anos é ali que vive o caçula do casal, reconhecido na Mata Norte de Pernambuco – e no país – como Mestre Barachinha. Batizado Manuel Carlos de França, o artista se tornou uma das principais referências do maracatu rural e segue levando adiante toda paixão e seriedade do pai por essa tradição.
Aquela realmente seria a última sambada que Seu Profírio acompanharia. E tornou-se inesquecível. “A gente ficou até admirado como ele conseguiu passar a noite toda, porque ele já estava sambadinho (adoentado)”, relembra Barachinha. Também pela animação, a lembrança dessa festa faz parte da memória de muitos que botam o maracatu alevante. “Até hoje os brincantes dizem que mestre nenhum teve direito de chegar com aquela quantidade de gente que eu cheguei aquele dia. A gente saiu com quatro ônibus, carro pequeno, tudo lotado. Foi muito marcante para mim, sambada muito boa. Minha mãe não foi, que ela já estava ruim da vista. Mas quando a Estrela Brilhante faz uma sambada ou ensaio, que volta para casa, todo mundo lembra de Dona Maria”, complementa, empolgado, o que seria confirmado mais tarde pelos depoimentos de outros folgazões. Nas andanças pelas ruas de Nazaré ou de Buenos Aires (PE) para a realização deste perfil, pelo tanto de gente que o cumprimentava ou vinha abraçá-lo, uma de suas habilidades ficava evidente: a de ser um “construtor de amigos”, para usar suas próprias palavras. Essa talvez seja a maior delas, ou pelo menos, a de que ele mais se orgulha. “Já me perguntaram se eu tinha o dom de cantar, mas digo que meu dom é de ser querido mesmo, pelo meu jeito de ser. Não tenho condições de ter a melhor roupa, nem o melhor perfume, mas se chegar no maracatu o cabra mais suado e vier me abraçar, abraço ele do mesmo jeito. Quem quer chegar em casa cheirando não vai para maracatu”, afirma. Algumas amizades de longa data de Mestre Barachinha, que também rendem boas parcerias artísticas, são com o músico pernambucano Siba Veloso e o Mestre Zé Galdino, poeta importante da região.
Produção de golas de caboclo na sede do Maracatu Leão Formoso Os encontros com o mestre foram regados a muitas histórias e recordações. Objetos cheios de simbologia ilustraram vários dos causos. Em sua casa, ele sempre buscava algo para nos mostrar e contribuir no entendimento das narrativas. A maioria desses objetos, aliás, revelavam bastante de sua profunda relação com o baque solto. A bengala de mestre, as camisas de estampas coloridas, os troféus dourados adornando o rack da sala, o disco Siba e a Fuloresta do Samba (2003) apoiado por ali e um grande livro de textos e fotografias guardado em um cantinho do quarto, cujo título é Pernambuco popular: um toque de mestre (2005). Resultado da pesquisa do antropólogo Raul Lody, com fotos de Roberta Guimarães e Fred Jordão, a publicação traz o trabalho de oito importantes artesãos do estado. Entre alguns nomes que participaram do projeto estão Mestre Zé Lopes, mamulengueiro de Glória de Goitá (PE), o saudoso Mestre Salustiano, de Aliança (PE) e radicado em Olinda, e o próprio Barachinha, que além do respeito como mestre, poeta, articulador cultural, desenvolve, também, peças de vestuário e acessórios para o maracatu rural.
Em parceria com Ana Lúcia – sua esposa há quase 30 anos, que conheceu brincando maracatu –, ele confecciona golas de caboclo e, assim, vão produzindo para complementar a renda. O casal tem três filhos, Karla Emanuelle, Kássia Emanuelle e Carlos Manuel, mas só o rapaz seguiu o gosto do pai pela cultura. No início, o artesanato foi o modo encontrado para fazer suas próprias indumentárias no baque solto, mas acabou virando alternativa para driblar a dificuldade financeira. “Não fui camarada de passar fome como muita gente da zona rural passou. Já fui de uma época que era difícil, mas antes de mim já foi muito mais. Em Buenos Aires (PE), onde vivi minha infância, a gente passava o ano todinho para a mãe do dono do engenho chegar no Natal com um saco de brinquedos. As coisas que os meninos dela não queriam mais. Foi uma infância que de alimentação eu não reclamo, mas não tinha luxo”, relembra Barachinha.
Há alguns meses, ele trabalha como oficineiro da prefeitura da cidade, função que já realizou em anos anteriores. Mas, em outros tempos, já fez serviço como servente de pedreiro e em usina de asfalto. Trabalhar na construção civil ou em atividades do meio rural, aliás, são realidades comuns a muitos artistas populares, e não é de hoje. Gerações anteriores do baque solto tinham ocupações atreladas à monocultura canavieira, a exemplo de um dos nomes mais importantes no folguedo e na ciranda, o Mestre Antônio Baracho, do Engenho Santa Fé. Em sua origem, o maracatu rural brota justamente no momento de diversão, expressão e resistência dos trabalhadores rurais diante da realidade de exploração do corte da cana. Enquanto a manhã era de labuta braba, o maracatu tomava dos folgazões a noite toda. Toda a habilidade de Barachinha para o artesanato não foi algo ensinado, mas aprendido através da observação dos mais experientes, e do “se meter a fazer”. Além de produzir golas, ele também é capaz de confeccionar penachos de arreiamá (figura do maracatu que usa golas menores e grandes arranjos de penas na cabeça), bandeiras (estandartes), chapéus de caboclo, vestidos e outros elementos que compõem a brincadeira. “Uma vez vi o camarada Alfredo Miguel fazendo um chapéu de caboclo. Quando cheguei em casa, na segunda-feira, já estava eu na beira da pista, cortando o bambu e botando no sol para murchar. Comprei papel crepom na lojinha e fiz meu primeiro chapéu”, relembra a primeira vez em que se arriscou. Hoje, o que for necessário para levantar o maracatu, ele diz que faz e com dedicação.
Na casa de Dona Lúcia, no Juá, o marido é responsável por riscar, fazer as marcações e escolher as cores utilizadas, enquanto ela prega as lantejoulas numa velocidade impressionante. Quando a demanda aumenta, ele também participa da costura. Entre 13 e 14 dias de trabalho diário, uma gola costuma ficar pronta para vestir algum caboclo. *** O meu pai muito avexado, Com minha mãe se casou. Na ilusão do amor Terminei sendo gerado, Fiquei num canto apertado Sem ter calor nem frieza, Sem praticar malvadeza, Crime, vingança ou pecado, Passei nove meses trancado Na prisão da natureza. (Versos improvisados por Barachinha durante um ensaio de Maracatu do Leão Misterioso, do Mestre João Paulo, na década de 1990) Antes de se tornar conhecido como Mestre Barachinha, Manuel Carlos já colecionava experiências com o maracatu. Durante a infância, acompanhava seu pai indo brincar de caboclo. Nasceu em Buenos Aires, cidade da Mata Norte a cerca de 80 quilômetros da capital, mas ainda menino chegou com a família à “terra do maracatu” – como Nazaré da Mata ganhou fama. Se, hoje, a monocultura canavieira ainda permeia a política e economia dessa região do estado, naquele tempo, em meados da década de 1970, o poder dos donos do açúcar era ainda maior. Por estar inserido nesse contexto e ter origem humilde, José Profírio trabalhou no corte e plantio da cana, tomou conta de gado, cambitou (criou burros) e realizou outras atividades ligadas ao meio rural. Maria Maçunila, por sua vez, cuidava do sítio, da casa e dos filhos. Nessa época, por questões trabalhistas, eles tiveram que se mudar e, como brincar de caboclo sempre foi desejo de Seu Profírio, escolheram ir para Nazaré da Mata. Nos domingos de Carnaval, faz parte da tradição do baque solto os caboclos de lança percorrerem as ruas da região pedindo dinheiro de porta em porta aos moradores. Nos seus tempos de brincadeira, Profírio descia e subia as ladeiras da cidade empunhado da lança e do surrão para cumprir a prática. Foi assim durante muitos anos, mas ele não costumava ir sozinho. O filho mais novo era sua companhia constante. Essa lembrança continua bastante marcante para Barachinha, que, naquela época, ainda nem tinha sido presenteado com esse apelido. Aos 17 anos de idade, quando um importante folgazão do Maracatu Leão do Norte de Carpina o apelidou, Manuel Carlos ficou conhecido como Barachinha. “Existia caboclo valente, brabo, mas Alfredo Miguel era um cabra da paz. Amansava e conquistava o povo”, relembra o mestre sobre o responsável por esse “segundo batismo”. “Uma vez, à noite, eu ia para a Escola Maciel Monteiro e o finado Alfredo Miguel, uma das maiores lideranças que eu já vi na história, botou na cabeça que eu parecia com Baracho e começou a me chamar: ‘Barachinha! Barachinha!’ No outro dia, a rua já estava cheia. Graças a Deus eu peguei carona nesse nome e, antes de ser mestre, já fiquei conhecido assim”, conta, entre algumas risadas, e complementa: “Uma vez, um cidadão saiu correndo atrás do maracatu para me perguntar se eu era o filho mais velho ou o mais novo dele. Eu disse que não era, só tinha herdado a cor mesmo”.
Apesar de não ser parente, Barachinha alcança tanta importância para a cultura do estado quanto o “rei sem coroa”, como Baracho se apresentava. É isso que defendem muitos brincantes encontrados pelo caminho. Mesmo com as disputas que existem entre os maracatus, o número de folgazões que respeita sua relevância é grande. Ora pelos versos inesquecíveis em sambadas históricas, ora por sua atuação enquanto articulador dos grupos. Na verdade, o que se observa é um grande cuidado com a tradição do maracatu rural, procurando colocá-la em interação com os mais jovens. Sobre isso, o músico Siba Veloso explica: “Para entender a dimensão de Barachinha, é preciso entender como o maracatu funciona. Essa é a grande dificuldade de explicar o tamanho da figura dele, porque é o maior mestre de maracatu da atualidade, de importância histórica, como a gente fala de Mestre Salu ou de Baracho e outros que marcaram seu tempo. Ele é o maior mestre porque é o maior poeta, que consegue dentro da linguagem, da poesia do maracatu, formular coisas mais profundas, do modo mais simples e se comunicar com toda comunidade. É o maior mestre não só por isso, mas porque, nessa função, ele consegue articular as pessoas e as demandas ao redor dele sempre de um jeito muito construtivo e positivo. Todo mundo vai ter uma história em que ele possibilitou alguma conexão, algum tipo de movimento que levou uma pessoa para uma situação melhor do que a de antes”.
Embora haja o reconhecimento por grande parte dos que brincam maracatu, aos 51 anos – e mais da metade deles dedicados ao baque solto –, o mestre ainda não tem o título de Patrimônio Vivo do Estado. “Já fiz um bocado de coisa, se eu conseguisse juntar tudo que participei por aí, já tinha entrado nesse negócio”, diz ele. “Nunca fui em sambada sem me preparar para não ir no terreiro de ‘boca aberta’, na linguagem do maracatu. A gente tem que se pegar mesmo com Deus, mas não adianta negar, acredito muito no Exu. Essa proteção é importante para mim e para quem leva o maracatu a sério”, afirma Mestre Barachinha, revelando sua consideração pelo preparo religioso antes de entrar na brincadeira. Muito da maneira de entender os “segredos do brinquedo”, ou seja, a religiosidade no maracatu, é herança de Seu Profírio. “Eu já comecei vendo meu pai sendo assim. Via vela acesa atrás da porta e via o respeito. Comecei a brincar vendo esse mistério todinho, mas não sou nem 60% do que meu pai era dentro do maracatu, só que muita tradição do passado eu quero preservar. Eu via os mais velhos brincando assim, então, é assim que vou brincar. Se a gente perder o respeito pela tradição, perde a graça”, defende. Para manter a proteção dos brincantes do baque solto, nem tudo se revela. *** Em Pernambuco, há mais de 100 grupos de maracatu rural distribuídos pelo estado, segundo o Dossiê do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A maioria deles está localizada na região da Mata Norte, que é o berço dessa expressão. Desde 2014, o folguedo é reconhecido como Patrimônio Imaterial Cultural pela instituição e integra o Livro de Registros das Formas de Expressão. Ao longo desses anos, Barachinha já passou por seis dessas agremiações, seja como mestre, poeta, artesão ou caboclo de lança; mas sobretudo como grande articulador, inclusive do Cambinda Brasileira, maracatu centenário do Engenho Cumbe. Por sua habilidade de perceber quem está disposto a levar o maracatu a sério, “que de brincadeira só tem o nome”, como ele mesmo defende, mas também pela confiança que conquistou na região, Barachinha foi responsável pelo acesso de diversos folgazões, entre eles Siba e o Mestre Bi, na Estrela Brilhante.
Barachinha: “Ô Bi, você quer mestrar um maracatu de fama e grande?” Bi: “Quero. Qual maracatu?” Barachinha: “A Estrela Brilhante.” Bi: “Oxente, e eles querem? O senhor falou com quem?” Barachinha: “Sou eu que estou falando. Pois pronto, a partir de hoje, você é o mestre da Estrela Brilhante.” (Diálogo narrado por Barachinha do convite feito a Mestre Bi, que hoje é mestre, presidente e grande articulador na Estrela Brilhante) Nas visitas à região, além da casa do artista, era necessário conhecer alguns maracatus que tecem sua história. Não por acaso, o primeiro foi o Maracatu Leão Formoso, de Nazaré, em que Barachinha ingressou aos 20 e poucos anos a convite do dono da agremiação, Antônio Pacheco. Ali, arriscou seus primeiros versos como mestre entre 1993 e 1997. “Hoje, qualquer maracatu tem coragem de me chamar para ser mestre, mas, na época que Antônio Pacheco confiou em mim, ninguém tinha não. Para o que eu cantava naquele tempo, eu não teria me chamado”, confessa. Na sede do Leão, a equipe da Continente foi recebida por Maria de Lourdes e Joelma, mulheres que fazem parte da diretoria do grupo, e a conversa se prolongou por toda a manhã, enquanto adiantavam serviço para o próximo Carnaval. Com 39 anos de resistência, o Formoso conta com a participação de aproximadamente 75 folgazões e o atual mestre chama-se Pedrinho Gabriel, outro primo de Barachinha ligado à tradição. “É uma família de mestres!”, exaltava Joelma. Tal como em outras manifestações populares, o baque solto impulsiona uma espécie de rede familiar, realmente. E, para os que fazem parte da brincadeira, o sentimento de pertencimento e compartilhamento com todo o grupo é o ano todo, não apenas no Carnaval. “O maracatu é minha família. 95% das amizades que tenho veio dele”, afirma Barachinha. De carro ou de mototáxi – transporte comum na região –, a sede do Maracatu Estrela Brilhante fica a poucos minutos dali. Ir andando no sol quente é que deixa esse tempo maior. Em frente ao local, Biu Profírio, irmão mais velho de Barachinha e mestre caboclo, nos aguardava. A entrada da Estrela, por sinal, é preservada do mesmo jeito de quando os pais deles estavam ali e foram eternizados no retrato que Barachinha tem emoldurado em sua casa. Dentro do espaço, pode-se conhecer as indumentárias, a boneca (calunga) e vários objetos da história do grupo guardados. Uma característica, no entanto, saltava aos nossos olhos: o fato de todos chapéus de caboclo serem dourados, enquanto em outras agremiações a mistura de cores prevalece. “Isso foi ideia dele”, justificava Seu Biu, apontando para o irmão mais novo. Até hoje, a sugestão dada por Barachinha quando foi mestre do grupo, entre 2004 e 2010, é marca na identidade visual da Estrela de Nazaré. Outro artista que tem sua trajetória marcada pelo Maracatu Estrela Brilhante é Siba Veloso. Todos os anos, o músico participa do importante ensaio antes do Carnaval. E foi com o tradicional grupo de baque solto que diz ter feito sua “graduação poética”, ao longo das sambadas de que participou. Sua entrada como contramestre aconteceu no início dos anos 2000, no período que morava na cidade, através de um convite de Barachinha. A experiência acabou fortalecendo a amizade entre os dois, que são também parceiros artísticos. Alguns frutos disso são o álbum Fuloresta do Samba (2003), projeto desenvolvido com outras potências da cultura popular, entre elas o saudoso Mestre Biu Roque, e o De baque solto somente (2005), trabalho com composições de ambos. Mas Barachinha também tem O clássico da poesia (2018), em parceria com o jovem Mestre Anderson Miguel e o Campeões da Sambada Vols. I e II, com seu grande amigo Mestre Zé Galdino. Além disso, há suas contribuições no cinema pernambucano, pois em 2007, participou do filme Baixio das bestas, de Cláudio Assis e, mais recentemente, do Azougue Nazaré (2018), do realizador Tiago Melo. Nesse, inclusive, interpretando um pastor evangélico em meio à tradição do maracatu rural. Após visitarmos alguns grupos que fazem parte da história de Barachinha, em Nazaré, finalmente, chegava a vez de realizar seu pedido desde o primeiro encontro. “Faça de tudo, mas bote alguma coisa da Estrela Dourada nessa revista”, repetiu ele algumas vezes, brincando. A razão para isso é que o Maracatu Estrela Dourada, de Buenos Aires, sua cidade natal, é o grupo a que tem se dedicado como mestre há, pelo menos, cinco carnavais. Barachinha realizou parcerias musicais com artistas como Siba Veloso, Biu Roque, Anderson Miguel e Zé Galdino Encontrar a sede do brinquedo seria bem fácil, pois o espaço fica numa região central da cidade, próximo à Igreja de Santo Antônio e ao lado do Clube Municipal. Pinturas coloridas de um caboclo de lança, uma dama de passo e um arreiamá no muro do lugar também contribuem com a identificação e dão boas-vindas aos visitantes. O presidente Neném Modesto e sua esposa Carminha nos receberiam à porta para apresentar o local. Em alguns minutos de conversa, pelo envolvimento e os conselhos que dava à diretoria, o papel de Barachinha enquanto forte liderança tornava-se ainda mais evidente. Em agosto do ano passado, a Estrela Dourada chegou ao 25o aniversário. Sempre nessa época do ano acontece uma tradicional comemoração em frente à sede, para reunir folgazões de toda região. A cada evento, são esperadas mais de mil pessoas. Gente de cidades vizinhas, integrantes da “Furiosa” da Mata Norte, como é conhecida, além de mestres e brincantes de outros grupos comparecem para prestigiar, sambar e comer bolo. Em 2019, no sábado em que a festa estava marcada para acontecer, Barachinha não escondia o sorriso, a empolgação e relembrava constantemente a agitação do ano anterior. Mesmo sabendo que a festa poderia se esticar, junto aos seus, ele trabalhou o dia inteiro para que tudo fosse concluído na beira da noite. E, de preferência, que durasse até domingo, porque “sambada boa dura até manhã”, como ele mesmo diz. E pela vontade do mestre, assim foi, brincaram maracatu até o dia amanhecer, como sempre tem sido por todos esses anos. ERIKA MUNIZ, jornalista, formada em Letras pela UFPE. JONATHAN LIMA, estudante de Fotografia. Fonte: Revista Continente.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Repente Registrado Patrimônio Imaterial - Galope (Chico e João)

Repente é registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

Repente – Patrimônio Imaterial do Brasil

O pedido de registro do Repente como Patrimônio Imaterial do Brasil foi formalizado em 2013 pela Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares do DF e Entorno. Desde então, o Iphan, autarquia federal vinculada à Secretaria Especial da Cultura e ao Ministério do Turismo, iniciou o processo de registro, que culminou no dossiê de registro, produzido em parceria com o Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UNB).
O dossiê elaborado também documenta mais de 50 modalidades de repente, dentre as quais estão os versos heptassílabos, cuja acentuação tônica obrigatória está na sétima sílaba, e decassílabos, em que o acento obrigatório está na terceira, sexta e décima sílabas de cada verso.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

“Ressonâncias Celestes” promove intercâmbio entre mestres coquistas da RMR e do Sertão

O projeto “Ressonâncias Celestes” promoveu, um verdadeiro intercâmbio cultural entre grandes mestres do coco da Região Metropolitana e do Sertão de São Francisco. A inciativa circulou por três comunidades sertanejas, Quilombo do Serrote (5 e 6 de janeiro), Comunidade do Coripós (8 e 9 de janeiro) e Ilha do Massangano (11 a 15 de janeiro), e contou com a participação do mestre Zeca do Rolete (Paulista), Batuque do Serrote, Capim Lêlê (grupos de quilombos do Sertão do São Francisco) e Samba de Véio (Ilha de Massangano). O acesso foi gratuito.
INTERCÂMBIO - Os quatro grupos mantêm a presença viva da mesma herança afroindígena, traduzida hoje em coco, batuque, capim lêlê e samba de véio. Para o intercâmbio, a proposta do projeto era comer das mesmas comidas, brincar das mesmas brincadeiras. E será isso que Zeca do Rolete e seu grupo, composto por sua família, viveu ao longo da sua permanência em cada um desses quilombos, onde foi realizadas quatro oficinas – repasse geracional e gênero (mestres e crianças e a participação feminina na continuidade da brincadeira, bem como na própria luta pela defesa do território), cantos, danças e instrumentos – e várias vivências.
Zeca esteve, por exemplo, participando de eventos como a Celebração do Reisado no Quilombo do Inhanhum ou o Encerramento da Caminhada do Samba em Homenagem aos Santos Reis na Ilha do Massangano. Esses momentos únicos serão registrados em filme, um material valioso, que será posteriormente exibido em cada uma das comunidades.
O projeto “Ressonâncias Rupestres”, que aconteceu com o intercâmbio do grupo Coco Raízes de Arcoverde, sob a inspiração rupestre do Parque do Catimbau, com músicos locais, como o Coco de Toré do Povo Kapinawá, disponível no YouTube (www.youtube.com/watch?v=nJgJFAOX9N0).
“Ressonâncias Celestes” é uma iniciativa produzida pela Buruçu, em parceria com as Associações Nação Coripós e Josefa Isabel dos Santos, com o incentivo do Funcultura. O objetivo é promover atividades abertas e gratuitas para todas as pessoas da comunidade, sendo nelas respeitados os protocolos de segurança relativos à Covid.

sábado, 15 de janeiro de 2022

Com uma série de atividades culturais, Maracatu Leão Africano celebra 20 anos

O Maracatu Leão Africano de Nazaré da Mata completa 20 anos, em 2022. Para marcar a trajetória de duas décadas dedicadas à cultura popular, o grupo programou uma série de apresentações culturais que vai pecorrer vários pontos da Zona da Mata Norte, durante os próximos sábados do mês de janeiro. A iniciativa conta com incentivo do Governo do Estado de Pernambuco, por meio dos recursos do Funcultura. Confira abaixo a agenda:
1º ENSAIO DO TERNO DO MARACATU LEÃO AFRICANO Quando: 8 de janeiro de 2022 (sábado), às 14h Local: Ponto de Apoio do Maracatu Leão Africano – Lagoa do Ramo de Cima (Zona Rural), Nazaré da Mata – PE. 2º ENSAIO DO TERNO DAS CRIANÇAS Quando: 15 de janeiro de 2022 (sábado), às 14h Local: Ponto de Apoio do Maracatu Leão Africano – Lagoa do Ramo de Cima (Zona Rural), Nazaré da Mata – PE. 3º MESA DE CONVERSA COM ANTIGOS MESTRES DE MARACATU RURAL Quando: 22 de janeiro de 2022 (sábado), às 14h Local: Sociedade Musical 5 de Novembro (Revoltisa) – Praça Carlos Gomes, 17, Nazaré da Mata – PE. 4º SAMBADA DE FINALIZAÇÃO DO PROJETO (com a participação do Maracatu Leão Africano e Maracatu Leão Misterioso) Quando: 29 de janeiro de 2022 (sábado), às 20h Local: Espaço Cultural Mauro Mota (R. Projetada, 123-175, Nazaré da Mata – PE)
TRAJETÓRIA - O Maracatu de Baque Solto Leão Africano de Nazaré da Mata tem sua sede situada no Sítio São Francisco (Lagoa do Ramo de Cima), localizada na zona rural do município de Nazaré da Mata. O Leão é um dos três únicos maracatus da Mata Norte que permanece com sua sede num engenho. Atualmente, o Leão Africano é composto por cerca de 90 componentes. Parte deles/as é moradora e frequentadora do sítio onde fica sua sede, e outra parte reside em diferentes localidades dentro de Nazaré da Mata e outros municípios da região, como Carpina e Aliança. Fonte:portalculturape

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

CIRANDA - PATRIMÔNIO IMATERIAL DO BRASIL

O pedido de registro da Ciranda do Nordeste na lista de Patrimônios Culturais do Brasil partiu da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de Pernambuco e contou com apoio maciço da população, por meio de um abaixo-assinado entregue ao Iphan. Além da solicitação popular, houve pesquisa de identificação com aplicação do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), mobilização da comunidade e a produção de um dossiê de registro, além da apresentação de material audiovisual e fotográfico.

sábado, 8 de janeiro de 2022

Cirino - A Vela e os Tubarões (1979)

CIRINO

José Wilson Cirino ou simplesmente Wilson Cirino ,Nasceu em 1 de abril do ano da graça de 1950, na cidade de Aracati, no litoral leste do estado do Ceará. Wilson Cirino é um cantor, violinista, arranjador e compositor de música popular brasileira.
Em 1969, participou da coletânea “I Festival de Música Popular Aqui”, registrou sua composição “Rosa”.Em 1969, na coletânea “I Festival de Música Popular Aqui”, registrou sua composição “Rosa”. No começo da década de 1970, foi levado para o Rio de Janeiro por seu parceiro Sérgio Costa, e passou a conviver com frequência com nomes como Belchior, Fagner e Jorge Melo. Em 1971, Cirino estreiou no mercado fonográfico quando gravou em dupla com o conterraneo Raimundo Fagner o primeiro disco de suas carreiras, o compacto Copaluz com as músicas Nova Conquista,de Fagner e Ricardo Bezerra e Copa Luz, de Cirino e Sérgio Costa, pelo selo da RGE,produzido por Nestor e Antonieta Bérgamo. Foi a estréia em disco,tanto dele como Fagner. Em 1979, quando Fagner era diretor do selo Epic, Cirino gravou seu primeiro LP, Estrela Ferrada.
Em 1974, sua composição Baião do Coração, em parceria com Fred Teixeira,que foi gravada pela cantora Simone no disco, Quatro Paredes, em 1974.Em 1979, gravou o LP “Estrela ferrada”, pela CBS, com suas composições “Maré de senões”, parceria com Brandão, “Quarto de pensão”, parceria com Pytty, “A vela e os tubarões”, “Me querias pedra”, parceria com Clodô, “Baião do coração”, parceria com Fred Teixeira, “Sobrados de Aracati”, “Passarinho”, “Chorinho do coração”, parceria com Chico Rosas, e “Pra lá de cego Aderaldo”. Em 1981, gravou o disco “Moenda”, pela RCA Victor, com suas composições “Moenda”, parceria com Sergio Costa, “Batendo perna ou perambulando”, “Três vãos”, parceria com Belchior, “Vagas opus dez (Santa Paz)”, parceria com Sergio Costa, “Força farta”, parceria com Rui de Aquino, “Nasci grama”, parceria com Sergio Costa, “Mentira”, parceria com Rui de Aquino, “Riacho do cajueiro”, parceria com Chico Rosas, e “Titã”, parceria com Sergio Costa.

Quarto de Pensão - Wilson Cirino

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Em Santa Maria da Boa Vista, Reisados organizam festa dos Santos Reis

6 de janeiro é um dia dedicado à tradição de Reisado, folguedo que celebra o encerramento do ciclo natalino. Para marcar a data, Santa Maria da Boa Vista, localizada no Sertão de Pernambuco, prepara uma série de apresentações de Reisados ao longo dos próximos dias (confira a programação completa abaixo). A cidade é conhecida por possuir o maior número de grupos ativos dessa tradição, são cinco grupos tradicionais, três mirins e um juvenil, entre eles, o Reisado do Inhanhum e a Mestra Maria Jacinta, ambos reconhecidos pelo Governo Estadual como Patrimônios Vivos pernambucanos. Maria Marina, coordenadora do Reis de Maria Jacinta, diz: “Eu me sinto muito feliz em representar esse sentimento religioso, mais feliz ainda porque minha mãe me ensinou, se não fosse coisa boa com certeza ela não ensinava. Então, ensino a outras pessoas, aos jovens e crianças da comunidade, que aprendem a importância dos reisados para nosso povo. O dia de Santos Reis é um dia muito especial para mim, quando coloco a roupa do reisado tudo se transforma, eu me transformo para celebrar a nossa tradição”. Em 2022, a tradição se atualiza no 6 de janeiro, os brincantes celebram a data em suas comunidades, com os devidos cuidados contra a Covid-19, e com transmissão nas redes sociais do Projeto Reisados do Sertão, produzido pelo Movimento Viva Reis e o Ponto de Cultura Nação Coripós, com direção de Alfredo Neto e produção-executiva de Alice Gericó. Veja a programação: Quinta feira, 6 de janeiro Reis de Maria Jacinta – Patrimônio Vivo de Pernambuco, 18h, Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, Centro, Santa Maria da Boa Vista – PE Reisado do Inhanhum – Patrimônio Vivo de Pernambuco, 18h, Comunidade Quilombola de Inhanhum, Zona Rural de Santa Maria da Boa Vista-PE Reisado do Lambedor, 18h, Comunidade Quilombola do Lambedor, Zona Rural, Lagoa Grande-PE Reisado da Mata de São José, 18h, Comunidade Quilombola Mata de São José, Orocó – PE Reisado de Lagoa Comprida, 18h, Sitio Melancia, Zona Rural de Afrânio – PE Reisado do Mestre Pretinho, 18h, Ilha de São Felix, Zona Rural de Orocó – PE Reisado Mestre João Cicero, 19h, São José do Belmonte – PE Domingo, 9 de janeiro de 2022 Reisado do Saruê, 18h, Comunidade Quilombola do Saruê, Zona Rural, Santa Maria da Boa Vista – PE

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

REISADO ENCERRA CICLO NATALINO.

Seis de janeiro é o Dia de Reis, quando se comemora a visita dos três reis magos ao menino Jesus, que acabara de nascer, segundo a religião católica. Em Pernambuco e em alguns outros estados do Nordeste, este dia é celebrado com um brinquedo popular, o Reisado, também conhecido como Folia de Reis. “O Reisado é uma tradição cultural que reúne dança, cantigas, adereços e muitas histórias e memórias. Aqui, no Sertão do São Francisco, estão a maioria dos grupos do Estado. Herança do período colonial, foi trazida como forma de ensinar os povos indígenas, visto que a dança era um elemento importante da sua cultura. Recebeu ainda as coroações, batuques e sambadas do povo negro e, hoje, está presente em quilombos, territórios indígenas e ribeirinhos da região sanfranciscana e sertaneja”, explica Alfredo Neto, educador, produtor cultural e articulador do Movimento Viva Reis, que participa, na próxima terça-feira, 4 de janeiro, às 19h, de uma live promovida pela Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult-PE) no canal que mantém no YouTube e também no Facebook. Mestre Gonzaga de Garanhuns, Patrimônio Vivo do Estado e fundador de oito reisados na região de Garanhuns, Agreste de Pernambuco, também estará no bate-papo, que será mediado por Renata Echeverria Martins, gestora cultural e coordenadora do Núcleo de Comunicação e Memória da Gerência Geral de Preservação do Patrimônio Cultural da Fundarpe. “Ser Patrimônio Vivo de Pernambuco me deu esperança de continuar o Reisado”, diz Mestre Gonzaga de Garanhuns. Segundo ele, muitos jovens não se interessam mais pela tradição. “Nossa intenção é transformar o Reisado em Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil”, espera ele, que também é cordelista e já escreveu mais de 350 títulos e falará, no programa, sobre sua experiência como mestre do Reisado. “No mês de janeiro, os grupos fazem suas jornadas, cada um com sua especificidade, seu jeito de fazer a brincadeira para celebrar o nascimento do Deus Menino”, explica Alfredo. Mas é no dia 6 de janeiro que a festa encontra seu ápice. “Cada grupo faz a celebração, onde tem igreja ou capela, se dirigem até lá, participam da missa, cantam e dançam e depois saem em cortejo e terminam se apresentando em alguma casa”, conta ele, que faz parte do Reisado de Inhahum e também é xilogravurista e radialista. Webprograma Cultura em Rede Realizado pelo Núcleo Digital da Secretaria de Cultura de Pernambuco, o webprograma Cultura em Rede traz, sempre às terças-feiras, às 19h, debates sobre temas relevantes da cultura pernambucana e nacional. A live vai ao ar tanto no canal da Secult-PE no Youtube, quanto no Facebook. Os programas ficam gravados e podem ser acessados a qualquer momento. Serviço Live “Fogo e fé na Folia de Reis” Quando: 4 de janeiro de 2022 (terça-feira), às 19h Transmissão: www.youtube.com/SecultPE | www.facebook.com/culturape